Maiara Alvarez: substantivo masculino; 2. “não houve homem que resistisse a seus s. femininos”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

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O dicionário me diz outra coisa, mas, na vida real da linguagem, me disseram que eram uma artimanha feminina. Eva. As bruxas da idade média. As putas do século XX. As vagabundas do século XXI. Sortilégios.

Esse livro comum que guarda as definições das palavras me conta ainda sobre um dote natural de sedução, encanto, ato de magia praticado por feiticeiro, trama para realizar algo… A Ana fala sobre outros sortilégios. E sobre os mesmos. Ana fala sobre os sortilégios do ponto de vista da mulher, de uma mulher, a Ana.

Melhor, Ana recita. Escreve, poetisa. Sobre as urgências de arrastar correntes, sobre o homem calcinado, os dentes da vida, sobre o frio sem estética, sobre os livros engolidos pelo fantasma esquivo, sobre as idades que não temos, sobre fábricas de medo, sobre a missão descumprida das chuvas que inventam ralos, sobre o que ainda resta.

Ana escreve sobre sortilégios diários, íntimos. Olho para Ana e vejo um dos rostos mais empáticos que, minha sorte, tocaram meus olhos e meu coração. Quando abri suas páginas sobre meu colo, agarradas nas minhas mãos, me deparei com um poço profundo. De um salto, mergulhei. E, de dentro dele, vi uma nesga de céu. A nesga de céu mais linda que vi do fundo do poço de um livro. A nesga de céu no fundo do posso. Me senti abraçada ao mesmo tempo que vazia. Me senti água ao mesmo tempo que árida. Me senti abjeta ao mesmo tempo que lavada pelas nuvens. Me senti Ana, a que trama os sortilégios mais bonitos, sinceros e compulsórios da vida.

Neste tempo
De semear demências
Panos gelados
Nos desejos
Mais prementes
Trazem falsa emoção
Entre tantas coisas incorretas
Que parecem urgentes.

(p.25)

Ana Maria da Silveira Teixeira gradou-se em Direito e é servidora da Justiça do Trabalho aposentada. Participou de coletâneas de contos pela Editora Metamorfose e de poesias pela Editora Incógnita (Lisboa), obtendo, em 2015, o segundo lugar no Concurso Literário Mario Quintana com o poema Raiz. Publicou o romance O Arcanjo pela Editora Insular. Sortilégios é seu primeiro livro de poemas.

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Sortilégios
Poesia
Ana Maria da Silveira Teixeira
142 p.
14 x 21 cm
R$ 35
Editora Metamorfose

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Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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