Maiara Alvarez: A revolução será a poética no grito

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Quando ouvi Criolo no radin cantando leva no sarau, salva essa alma aí, eu já assistia, admirada, a uns slam gringo no youtube. Atrasada que só eu, depois de um tempo, comecei a ver também os nascentes slams brasileiros, mas sempre de longe, do conforto passivo de uma pequena tela. Não sei nem se cheguei a criar algum tipo de desculpa: meu gosto pela poesia forte, rimada, exata, repleta de referências, performática, enfim, o poema em seu estado mais completo, ficou reservado para poucos momentos, e sempre impessoalmente digitais.

Continuei procurando e indo em sarau, tudo no centro, ô comodismo. E foi no centro que foi surpreendida. Na escadaria da Borges, levei um tapa na cara, que longe de derrubar a ceva, deixou toda eu e elas e eles com um gostinho de quero mais.

 [...] Coco do tronco
do coqueiro da emoção
taquei tudo para dentro
desse tal de coração

De um lado para outro
joguei o toldo do meu amor
mas queria mesmo era tocar-te.

O troco foi dado
como o cupido lançado
para acertar e desfazer
essa oca sensação
de ser um treco jogado no alçapão. [...]

Natália Pagot

Poetas Vivos é um coletivo de Porto Alegre que literalmente, entre suas ações, anda pelas ruas espalhando poesia. A capital que abarca essa conexão de gente pensante e pulsante, ativa e criativa. Parei de inventar a desculpa que nem tinha me dado o tempo de criar e fui ver uma competição de slam poetry. Se você ainda não fez isso, aconselho que o faça, Poa está cheia delas. Poa está cheia de vozes.

Não à toa, portanto, que Vozes da Revolução é um merecido livro de resistência e existência, conjuntamente. De resistir ao ato de marginalizar a existência e de escurecer uma capacidade poética jovem de fazer inveja. Não leve a inveja pelo lado ruim, os Poetas, Vivos, merecem é servir de exemplo. Tenho certeza de que a leitura desse livro vai ser a melhor das influências.

Como, do baixo da minha branquitude, não tenho conhecimento de presença para falar dos temas tratados, faço, aqui, meu (im)puro papel de resenhista e discorro sobre as qualidades literárias dos poemas nascidos slam, com toda a força que um verbo que pode ser traduzido como derrubar tem.

[…] Que assim seja, então vai
Na mentira "nois" tropeça
e na real a gente cai
Vida é um quebra-cabeça

Está faltando peça, pai
Tento explicar pra minha mina
No woman, no cry!

Te dou um beijo na testa
Never gonna say goodbye
"Nois" fuma, dá uns beijo
Eu faço um flow e a gente fly

Meus planos se aceleram
Nessa mente stand by
o mundo sob o céu

Então ninguém se sobressai.

DaNova

Não há uma só estrutura estanque nas páginas, entretanto, as rimas organizadas ou quebradas traçam no papel o ritmo musical (não me parece fazer sentido dizer que não há rimas pobres, já que não acredito que esse termo seja útil atualmente). Há também um talento para que a sonoridade de consoantes, como s e c, sejam agentes coesivos de certas poesias. O vocabulário é extenso e diversificado (não me parece fazer sentido dizer que é rico, da mesma forma). A velocidade muda de acordo com a ênfase e o peso contextual de cada verso e de cada estrofe, colocando em traços o que o amarelado das páginas perde em expressões corporais.

Autores no lançamento de Vozes da Revolução dia 14 de novembro, em Porto Alegre.
Foto: Laura Barro
s

O local de cada palavra não é acidental, gerando um efeito. A comunicação direta com a plateia e com os jurados, ou com as sortudas vítimas de intervenções, como eu o fui, aparece no papel por meio dos vocativos. A última palavra do verso rima com a primeira do seguinte. A primeira do verso rima com a última do seguinte. As referências são, antes de supérfluas ou inseridas em apenas um contexto, amplas e significativas, de cultura popular a contextos sócio-históricos e políticos. Algumas estrofes constroem uma expectativa do que virá depois, apenas para serem quebradas pelo verso seguinte. A reação, que no calor do slam sai pra fora aos gritos, no livro dói dentro do estômago. As palavras cujos radicais derivam mais de um sentido viram brinquedo na mão dos adultos mais criativos.

Vozes da Revolução é, enfim, um caminho traçado, o resultado de um início, de um trabalho organizado, e também outro início em si. Um início para nós, sociedade, que temos muito a ganhar de forma global e literária com a letra afiada de Agnes Mariá, Pretana, DaNova, Felipe Deds e Natália Pagot. E é com ela que termino, ainda sedenta, esta resenha:

[…] pra lutar nessa Porto
Que já foi mais alegre
Feche seus olhos e reze

O Coletivo Poetas Vivos é uma iniciativa cultural que utiliza a arte para criar estratégias de enfrentamento à opressão e desumanização diária causada pelo racismo. Vozes da Revolução foi escrito por Agnes Cardoso, Ana Tereza Oliveira Reis, Dimitri Souza Rodrigues, Felipe de Freitas Corrêa e Natália Pagot Xavier. Foi publicado recentemente pelo selo Class, da Editora Bestiário.

Vozes da Revolução
Agnes Cardoso, Ana Tereza Oliveira Reis, Dimitri Souza Rodrigues, Felipe de Freitas Corrêa e Natália Pagot Xavier
Poesia
132 p.
14 X 21 cm
R$ 35
Editora Class/Bestiário

Conteúdo disponibilizado antecipadamente para apoiadores e assinantes da Central de Acolhimento para Escritores. Faça parte dessa rede!

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Literatura RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s