Atena Beauvoir: Entre a transfobia espada e a branquitude escudo

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Em 2020 lanço meu quinto livro, desde 2017 foi um por ano. Talvez lance mais de um título. E pela minha própria pequena editora. No Brasil, país onde mais ocorrem mortes de pessoas trans por assassinatos — só na cidade de Santa Maria, que visitei quatro vezes nos últimos seis meses, ocorreram cinco* homicídios de mulheres trans nos últimos, pasmem, seis meses. Talvez eu seja uma das únicas mulheres transexuais do Brasil que seja escritora com projeto contínuo literário. Talvez eu seja a única escritora trans gaúcha a ter participado de Feiras do Livro na capital. Mas eu não consigo me imiscuir de questionar o que faz com que eu chegue onde tenho chego e consiga estar onde tenho estado.

Não vou negar a presença da transfobia em minha existência atual. Tenho processo na Justiça em relação a isso. Já tinha problemas de maior interação com meus parentes, minha família, após a transição, é quase nula — senão minha mãe, pai e irmão. Até hoje aguardo um retorno do IFRS campus Porto Alegre sobre uma denúncia que fiz no comitê de ética da instituição com boletim da Polícia Civil a respeito de assédio de um docente nas primeiras semanas de aula. Após três faltas consecutivas em um grupo de escrita criativa fui — como ordena a norma — impossibilitada de continuar a frequentar o mesmo, mesmo não tendo sido questionada sobre os motivos, até porque é super dentro da norma uma escritora transexual no país de maior mortalidade, onde 4% tem emprego de carteira assinada, faltar em um grupo de escrita criativa. Falta bom senso entre a relação da ética e do discurso. Chegar, a convite de instituição privada, em cidade do interior e não ser recebida por ninguém às 2h da madrugada para evento adivinhem sobre o que? Literatura invisível. E a possibilidade de ser violada em cidade desconhecida. Eu ando acreditando que não desejam uma escritora transexual nas plagas gaúchas. É uma intuição. Ou carência de saber a respeito das identidades trans e sua vulnerabilidade existencial e fico confusa pois é exatamente sobre isso que minha obra literária denuncia, logo fico questionando a qualidade dos convites, sendo que se não fora pelo tema e sua urgência seria por modismo e ineditismo literário? Ou será ingenuidade. Ou falta de bom senso. Ou tudo junto e misturado. E não há problema algum quando você tem poder social.

Mas encontro um coeficiente a respeito: o privilégio cisgênero de estarem formalizados em uma sociedade onde há papéis definidos para esses corpos e identidades normalizam suas condutas e sentem-se tão naturais que não percebem o “não natural”. Se acostumaram tanto com a ausência de pessoas trans nos seus meios sociais que não fará diferença a continuidade dessa ausência. Não sou obrigada a relatar para adultos os seus problemas de privilégio existencial. E vai ter gente que vai indicar que foi grosseria eu ter escrito esse texto. Mas perdão a vocês, sou eu quem decido o que foi tantas grosserias perpassadas nesse meio.

Tenho escrito um livro de crônica lírica chamado Solidão e um trecho no capítulo Quarentena diz:

“Ousaram me negligenciar nas vésperas das festas
Dos sorrisos e das vertigens e agora,
Agora que morram com suas vontades entupidas
Como ralos de pias com restos de comida.

Suas vozes de luta só inauguram liberdade
A quem sempre esteve livre.
Nada a nós. Nada a mim. Nada.
Nada sinto da vossa luta.

Frustrados de serem livres,
Guerreiam buscando motivos de prisão.
A vossa prisão é a festa embriagada dos jovens noturnos.
Nada temem, nada buscam, só gritam e planejam a soltura.

Soltos agora buscam se vingar das próprias prisões.
Pois que não é a falta de liberdade que os convence.
Mas a sensação de poder envergonhado
De jamais poderem estar nas prisões do mundo.

Calados, vozes de desespero. Vossas inteligências são fracas.
Fortes são as existências de almas encarceradas em vida sempre presa.
Presa das vossas sortes, dos vossos jogos, dos vossos manicômios.
Tudo é pretexto para a vossa luta, menos a real perda da vossa liberdade.”

Eu culpo a todas as pessoas e instituições que deliberaram a inconsciência de não perceberem o privilégio cisgênero frente ao que comentei no parágrafo anterior? Não os culpo, pois não são os construtores da cultura humana histórica e nem são os definidores dos mecanismos de regime existencial de gênero que tanto sofrimento causa sobre a humanidade. Mas os responsabilizo, pois são os reprodutores desses sistemas que no Brasil nos mata, acredite, mesmo antes do Bolsonaro ser eleito. E porque eu, mulher transexual que fiz minha transição de gênero tarde — já com 25 anos, continuo viva? É que se a transfobia tenta me matar, a branquitude me protege. São forças sociais contrárias.

No baixo escalão social que colocam a mulher transexual e travesti, eu ainda estou bem posicionada para muito além. Não é criar parâmetro de quem sofre mais, detesto essas distinções. Mas é me perceber autenticada enquanto escritora, educadora, editora, etc. Poucas pessoas se relacionam com a Atena Mulher Trans e sim com a Atena “Intelectual”. Talvez por isso consigam se relacionar comigo, porque muitas vezes 90% das pessoas que eu tenho contato na minha vida profissional não tem contato afetivo e social ALGUM com pessoas trans. Eu passo a ser uma entidade e não uma individualidade perpassada por problemas históricos e sociais. O segundo ponto é (o que muitas pessoas não sabem) de já ter perpassado a vida de garota de programa se eu continuasse nessa profissão, os desafios aumentariam. E ainda ouço vozes de pessoas cisgêneras querendo (do alto do seu privilégio cisgênero, ainda que sejam autenticadas por outras existências trans – isso não deslegitima o privilégio cisgênero e, pelo contrário, possibilita essas vozes cis de cobrarem de pessoas trans posturas que não são do seu poder cobrarem – o que já me aconteceu muitas vezes por ser chamada de moralista, vozes essas transfóbicas e em realidade verdadeiramente moralizadoras — e adivinhem: vozes brancas).

Destaco essa questão por dois motivos: vejo na área literária um rompante de literatura negra, não precisa ser crítica literária para perceber — mulheres, homens, jovens escritoras e escritores negros. Nenhuma pessoa trans negra. Nesse cálculo existencial, porque eu sou a exceção trans? Pelo racismo estrutural que arregimenta a transfobia. Mundialmente, os corpos que mais vivem com HIV são os de mulheres transexuais e travestis, negras e trabalhadoras sexuais. Ainda que eu seja mulher trans vivendo com HIV, não ser negra e não ser trabalhadora sexual e ser branca e escritora… se vocês não entenderam até agora…

Eu gostaria de não estar escrevendo esse texto e queria muito continuar a viver a vida sem essa necessidade de usar minha escrita para sobreviver. A tal da arte engajada que sinceramente, quem não pensa que ela é importante (não precisa produzi-la, mas saber que ela é importante), é porque não tem sua vida em risco. Se afirma que sua vida está em risco e escreve sem nunca ter tocado nesse assunto ou torna sua literatura palco de diversão para pessoas se divertirem, me perdoem, mas eu sou selvagem fera que me libertei do zoológico existencial e não vou mais escrever para malabarismo literário a quem sempre tem poder. Minha escrita é coquetel molotov. Quem ainda não percebeu isso é porque talvez nunca tenha me lido.

No mês da visibilidade trans, janeiro, recordo o mês da luta contra o racismo, novembro, e deixo a lembrança de Marsha PJ — ainda que alguns militudos LGBTI’s discordem, é SIM a mãe do movimento internacional da diversidade sexual e de gênero.

A mãe é uma travesti, negra, vivendo com HIV!
Salve Marsha PJ!

*Nota do Editor: Entre o envio desta coluna e sua publicação neste site, ocorreu mais um assassinato de mulher trans na cidade gaúcha de Santa Maria, forçando a alteração no texto de quatro para cinco homicídios.

Atena Beauvoir Roveda é natural de Porto Alegre. É escritora e poetisa, professora e filósofa. Em 2016, recebeu Menção Honrosa pela atuação em defesa e promoção da dignidade humana de LGBTs na cidade de Canoas/RS. É colaboradora da Rede Trans Brasil e Red Latinoamericana y del Caribe de Personas Trans. Idealizadora da Nemesis Editora para publicação de literatura invisível e transantropológica na área de filosofia existencialista.
Foto: Diego Lopes/CRL

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Uma resposta para “Atena Beauvoir: Entre a transfobia espada e a branquitude escudo

  1. Oi, professora Atena,
    boa noite.
    Seu relato é um grito de socorro neste momento perverso. Sinto muitíssimo que você e outras colegas estejam correndo risco de morte tão intensamente.
    Ao mesmo tempo, sinto-me incapaz de ajudá-la, tenho também minhas lutas.
    Escrevo para registrar que eu li seu texto e vi sua foto. Você é uma professora bonita. Suas obras eu ainda não li.
    Você conhece o trabalho da professora Rita? Esta semana, tenho pensado muito nesta aula, cujo link segue abaixo.
    Tomara que ela também possa aquecer seu coração!
    https://www.facebook.com/400256843485464/posts/1460711520773319/?sfnsn=wiwspwa&extid=nUunmO3Oo9xD02Cw&d=w&vh=e
    Um abraço carinhoso,
    Ana Célia

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