Maiara Alvarez: A mulher pensa

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Além de pensar, eu também sou chata para caralho. Caralho é uma boa palavra para definir chatice. E eu sou. Com poemas, especialmente. Se quero ser polêmica, como poucas vezes quero (mas tenho o diabinho da chatice dentro de mim), conto pras pessoas que não curto a poesia de Rupi Kaur. Na verdade, é a primeira vez que conto isso para alguém.

Isso tem, minimamente, a ver com o fato de eu não curtir poemas não rimados ou que não se apoiem pelo menos um pouco na sonoridade, sintaxe e semântica das palavras. O que é uma bobagem, eu sei, isso não define, necessariamente, a qualidade de um poema. Mas eu gosto de ver o esforço na escrita, pensar que aquela pessoa treinou muito, assim como as pessoas dançarinas, atletas, cantoras… Não por eu gostar de qualquer coisa que possa se assemelhar a sofrimento ou à imagem de trabalho que essa era empreendedora prega. É que eu gosto de ver paixão, e paixão excita, cuida, investe. Enfim, eu gosto de pensar, como uma mulher que pensa, que o poema é mais que um amontoado de coisa escrita. E olha que eu gosto de vários amontoados de várias coisas escritas.

Não sou eu, entretanto e felizmente, ainda que seja uma mulher que pensa, o bastião do que é poema, muito menos do que é bom poema. Nem combinam essas palavras. Eu estou aqui para falar do que eu gosto (do que eu não gosto, vou guardar, em sua maioria, para mim, já que, vamos combinar, a quem interessa minha opinião?). Aí chegamos, finalmente, na Angélica Freitas.

Então, os poemas da Angélica são desses amontoados de coisas escritas. São famosos, assim como os da Rupi Kaur. E eu amei eles. Todos nós estamos propensos a morder a língua vez ou outra, não é verdade?

uma canção popular (séc. XIX-XX)

uma mulher incomoda
é interditada
levada para o depósito
das mulheres que incomodam

loucas louquinhas
tantãs da cabeça
ataduras banhos frios
descargas elétricas

são porcas permanentes
mas como descobrem os maridos
enriquecidos subitamente
as porcas loucas trancafiadas
são muito convenientes

interna, enterra

É que eu vejo o cuidado: o cuidado irônico, cuidado, ainda assim. Melhor, assim. A sonoridade, a inserção repentina do que não é esperado. A escrita da Angélica incomoda, como a paixão incomoda. Excita, faz meus poros sentirem o suor escorrendo, gera raiva. Em um útero é do tamanho de um punho, Angélica fala de várias mulheres. A limpa, a boa, a braba, a feia, a sóbria, a gorda, a suja, a insanamente bonita, a que não perdia. A mulher da Angélica é.

Angélica fala de mulheres. As mulheres de vermelho, de valores, de posses, de rollers, de respeito, de regime. A mulher de um homem só. A mulher depressa, a mulher depois. A mulher é de. A mulher é de uma construção insana. A mulher vai, a mulher pensa, a mulher quer. A mulher é internacional, intencional.

A mulher é pesquisada. Nessa pesquisa, se cria uma imagem da mulher e, especialmente do que se faz com a mulher. Os poemas da Angélica falam, especialmente, do que é feito com a mulher. De como a mulher se sente mal, todo o tempo. E o útero, o útero é do tamanho de um punho.

[…]
dos animais desse mundo
com unhas ou sem unhas
é da mulher ébria e suja
que tudo se aproveita
[…]

Angélica Freitas é natural de Pelotas. Tem dois livros de poemas publicados: além deste, também escreveu Rilke shake, (7letras e Cosac Naify, 2012). Um útero é do tamanho de um punho (Companhia das Letras, 2017) ganhou os prêmio Best Translated Book Award, por sua publicação estado-unidense, e melhor livro de poesia, pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Ainda publicou a HQ Guadalupe, ilustrada por Odyr (Quadrinhos na Cia, 2012). Formada em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a autora foi repórter no Estadão e na revista Informática.

um útero é do tamanho de um punho
Angélica Freitas
96 p.
12.5 X 18 cm
978-85-3592-982-9
R$ 27,90
Companhia das Letras

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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