Deivison Campos: Negro Drama: Mario, Oswaldo e eu

Mesmo depois de quase 50 anos de sua morte todos ainda fazem alguma referência a sua ‘cor duvidosa’

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Ler ouvindo Negro Drama, Racionais MCs

Tenho pensado sobre a condição e situação de Mário de Andrade nos tempos da semana de Arte Moderna. Seu gênio, durante toda a sua vida, foi medido e mediado por ser um homem negro, ou um homem de cor duvidosa, conforme qualificação do período, usado num texto pelo próprio autor. No artigo para a revista Publicações Médicas em 1938, quase duas décadas depois da ‘modernização das artes no país’, escreve que

“Se qualquer de nós, brasileiros, se zanga com alguém de cor duvidosa e quer insultá-lo, é frequente chamar-lhe – Negro! Eu mesmo já tive que suportar esse possível insulto em minhas lutas artísticas, mas parece que ele não foi lá muito convincente em me destruir, pois vou passando bem muito obrigado.”

O depoimento mostra o permanente tensionamento dos negros de forma geral — que segue, e de sua figura em específico por sua fenotipia. Mesmo tendo se tornado uma referência das artes e da cultura em seu tempo e no nosso, a ele era lembrado a todo momento, através do ‘insulto’, que ocupava um lugar permitido. No entanto, em seu artigo, Mário de Andrade analisa o racismo a partir das relações pessoais. Essa abordagem faz com que entenda o racismo — relação de poder mais duradoura, como uma simples superstição trazida da Europa pelos lusitanos.

A origem da superstição estaria na simbolização do bem e mal pelas cores branco e preto, respectivamente. Defende que essa lógica teria sido transferida para a relação entre os grupos humanos. A ingenuidade da proposição destoa de sua genialidade, pois, a priori, desconsidera todas as relações escravistas e mesmo as teorias racistas vigentes no período que propunham uma verdadeira ontologia do humano excludente. É essa relação de poder, meu entendimento de branquitude, que produziu o racismo estrutural e estruturante, ancorado na cor da pele, que segue intocada.

Ao mesmo tempo que busca inserir-se numa ideia de povo mestiço e é oprimido pela imagem de controle de “bom crioulo”, ou seja, apesar do racismo “vou passando bem muito obrigado”, Andrade assumiu o projeto de uma nacionalidade constituída pelos três povos irmanados. Em Macunaíma, por exemplo, seu livro mais conhecido, aponta para seu desejo de uma nacionalidade e identidade brasileira para além das raças. Mitos indígenas e afro-negros convivem em harmonia numa personagem principal negra e branca em sua vida, que transita de uma cultura a outra sem espanto e com fácil tradução. A obra reflete o imaginário do período em que o paraíso das raças começa a ser sistematizado, entendendo ser possível chegar a uma síntese de povo.

Referenciado no mito das três raças, em Macunaíma, Mário conta que o herói sem nenhum caráter e seus irmãos Maanape e Jiguê banharam-se numa cova cheia d’água que “era encantada porque aquele buraco na lapa era marca do pezão de Sumé, do tempo em que andava pregando o evangelho de Jesus para indiada brasileira”. Macunaíma, que se banhou primeiro, ficou “branco loiro e de olhos azuis”, Jiguê entrou logo depois e por causa da negrura deixada pelo primeiro na água, acabou “da cor de bronze novo”. Maanape só conseguiu deixar vermelha a sola dos pés e a palma das mãos por ter sobrado somente “um bocado lá no fundo”.

Macunaíma consola os dois irmãos que não tiveram o seu mesmo destino — tornar-se branco. Por outro lado, escreve o autor que “estava lindíssimo na Sol da lapa os três manos um loiro um vermelho outro negro de pé bem erguidos e nus. Todos os seres do mato espiavam assombrados”. A referência à irmandade dos representantes das três etnias constitutivas, segundo o mito do povo brasileiro, aponta para a relação que Mário estabeleceu com o projeto de nacionalidade do Estado Novo, já em vigência. Ele, um homem de fenotipia mestiça, busca na promessa da mestiçagem positiva um lugar para passar bem, pois não há água encantada nas relações raciais.

Em meio a releitura de alguns textos de Mário, ouvi e assisti materiais disponíveis na internet. Me chamou a atenção um depoimento de Antonio Candido. Nele, o renomado linguista e sociólogo, fala da personalidade de Mário, da importância de sua produção e de sua genialidade. No entanto, enfatiza ao final, para “quem não o conheceu” que era um “homenzarrão bem feio, grandão, bem feio, mas extremamente simpático (…) um feio bonito que as mulheres se interessavam muito por ele. Despertava paixões.”

A contradição na observação final, em que sua aparência ganha mais atenção para o encerramento do que seu legado, indica que a feiura percebida tem mais relação com a referência de beleza, o padrão de homem europeu. Afinal, como diz Caetano, “É que Narciso acha feio o que não é espelho”. Mesmo depois de quase 50 anos de sua morte todos ainda fazem alguma referência a sua “cor duvidosa”. Sobre viver esse negro drama, Oswaldo de Camargo escreveu o excelente ensaio-livro Negro Drama: ao redor da cor duvidosa de Mario de Andrade em que, de forma muito indiciária e conjectural, tanta traçar esse elemento de identidade na vida do escritor.  

Quanto a semana de 22 e a experiência de Mário no período, fica como sugestão para estudos o quanto a “injúria” negro foi proferida contra ele, Mário, considerando que todos os expoentes do movimento foram xingados durante o evento e nos meses que o seguiram. No entanto, os outros modernistas eram brancos da elite econômica e, por isso, mesmo recusados num primeiro momento em suas propostas estéticas, gozaram de seu privilégio nos processos de institucionalização da arte, da referenciação histórica e na visibilidade de obras, produzidas na permanente ponte aérea São Paulo – Paris.

Mário de Andrade institucionalizou-se pelo acesso à gestão pública – onde exerceu vários cargos em todas as esferas e produziu sua obra a partir da poesia e do romance e, ainda como musicólogo, crítico e historiador da arte e fotógrafo. Usou, portanto, diferentes linguagens para viver e registrar o Brasil. Sua obra trata elementos tradicionais das culturas negras, indígenas sem a exotização de autores do período e atuais que buscavam e ainda buscam pureza, primitivismo, origens e outros estigmas e estereótipos naquilo que viam e ainda veem. No texto, também observa a modernização brasileira referenciada na Europa. Com isso, produziu um arquivo de cultura material e imaterial com um olhar de quem compreende as diferentes matrizes com horizontalidade. Nesse movimento, subverteu a imagem/lugar de controle e preservou muita memória necessária para que reconheçamos o Brasil que foi.

Penso em Mário de Andrade, o “feio”, em Oswaldo de Camargo, “o pai”, em mim, em todos os negros. A branquitude, enquanto relação de poder, com seus desdobramentos ontológicos, deontológicos e epistemológicos, nos mastiga e devora diariamente.  Somos Macunaíma frente ao gigante Piaimã. Esse é o Negro Drama.

ANDRADE, Mário. A superstição da cor preta. Publicações Médicas: São Paulo, junho-julho de 1938, p. 63-68. Disponível em https://www.revistas.udesc.br/index.php/apotheke/article/view/20350

CAMARGO, Oswaldo. Negro Drama: ao redor da cor duvidosa de Mário de Andrade. São Paulo: ciclo Contínuo Editorial, 2018.

CANDIDO, Antonio. Depoimentos sobre Mário de Andrade. Centro Cultural São Paulo. Agosto de 1992. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=puzmPkMJ3nc

Deivison Moacir Cezar de Campos é jornalista, doutor em Ciências da Comunicação e doutorando em História. Professor do PPG em Educação e dos cursos de Comunicação da Ulbra. É pesquisador vinculado aos grupos de Comunicação e Mídia da ABPN; Estéticas, Políticas do Corpo e Gênero da Intercom. Integra o Coletivo Casa de Joana – afro-empreendedorismo e cultura negra, e é conselheiro de Cultura de Canoas. Ritmista da União da Vila do Iapi, cultiva um amor tátil pelos livros.

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