Guilherme Smee: Super-Heróis em Tempos de Pandemia

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Estamos procurando sempre por super-heróis, por alguém que nos ofereça a mão. Reportagens em tempos de pandemia do COVID-19 mostram como é importante que pessoas de máscara mostrem seu lado mais humano para os convalescentes da doença que já matou milhões de pessoas ao redor do mundo enquanto escrevo este texto. Da clausura do meu home office fico pensando em como posso estabelecer uma analogia entre quadrinhos e a pandemia e, mais ainda entre os super-heróis, seres tão requisitados quando as coisas perdem o rumo, perdem o prumo, perdem a fé no futuro, se é que existe algum futuro.

Primeiro eu quero falar da clausura. Os super-heróis são seres que habitam clausuras. Ao abrir um quadrinho ou ao começar um filme, eles se põem em ação. Quando se fecha o livro ou acaba o filme, eles se retiram para seu sacrossanto lar da falta de movimento em busca de mais uma vez poderem voar, saltar, fazer atos altruístas e, quem sabe, mais e mais uma vez salvar o mundo. O mundo em que vivem é encapsulado, seja no mundo dos quadrinhos, em que estão retidos dentro de quadros que resumem o espaço e o tempo dentro de requadros, ou ainda dentro das telas de cinema, onde os mesmo quadros estáticos passam com uma velocidade igual ou superior a vinte e quatro quadros por segundo, que é o quanto o olho humano consegue interpretar a estética como movimento.

Dessa forma, o mundo dos super-heróis a que temos acesso é uma ilusão. Eles não podem trocar suas máscaras que tampam seus rostos por máscaras descartáveis de proteção pelo simples fato que a vulnerabilidade dos super-heróis está em revelar sua verdadeira identidade e não se submeterem a um vírus, afinal, seus corpos não são como os nossos.

Então, pensando os corpos dos super-heróis entendemos que eles são super-homens e super-mulheres, ou ainda super-queers, porque eles rompem com o enclausuramento que um corpo permite às pessoas comuns. Eles rompem com o artifício de encapsulamento dos quadrinhos com seus corpos desenhados nas linhas de ação paralelas dos mangás, ou num soco desferido por um super-herói desenhado sob as linhas cinéticas de um Jack Kirby. Se os quadrinhos, em sua dinâmica e sua linguagem que apresentam o mundo estático querem conter os corpos dos super-heróis, suas narrativas, por outro lado, querem libertá-los, estão no afã de colocá-los em movimento. Os super-heróis estão na fronteira do ser e do se transformar.

Se “herói” dá uma carga humana de feitos mundanos, porém prodigiosos, o “super” concede a eles esse rompimento da membrana, daquilo que o detém e, talvez, por essas características eles sempre vencem no fim. Pelo menos no mundo das suas histórias.

Afinal, no mundo real, toda vez que os super-heróis atingem um ponto de fissura, algo acontece com o interesse mundial sobre eles. A expressão ponto de fissura é uma adaptação da expressão de Malcolm Gladwell cunhada em seu incrível livro O ponto de virada, que estuda as tendências, ou ainda “como as pequenas coisas podem fazer uma grande diferença”. Gladwell diz que para uma tendência dar certo, ela precisa funcionar como uma epidemia (ou, melhor ainda – para o agente infeccioso – como uma pandemia). Ele diz que “quando uma epidemia é deflagrada, quando o equilíbrio se perde, é porque algo aconteceu”. Geralmente uma alteração nos três elementos que regem a mudança.

Agora, que estamos em alguns lugares com uma forte disseminação do COVID-19 e em alguns lugares iniciando uma lenta e gradual remissão, podemos pensar que existe um paralelo bem grande entre as epidemias dos super-heróis e a pandemia do Novo Coronavírus. Se por um lado tendências comerciais estão sempre buscando alcançar o ponto da virada, em que se estabeleça um platô para sua demanda e sua procura, a epidemia de uma doença está mais preocupada em quando o agente infeccioso vai “deixar de ser moda”.

Então deixa eu explicar para vocês, as ondas dos super-heróis e sua relação com as ondas de uma pandemia, como a do COVID-19, para entendermos o que faz com que se perca o interesse por uma tendência, ou ainda, faça com ela se reforce. No caso da pandemia, que faça com que ou seus agentes parem de contagiar ou, que ocorra uma mutação que torne a infecção ainda mais forte.

Tudo começa com a Regra dos Eleitos, o primeiro passo dessa romaria. Nas tendências, como as dos super-heróis, algumas pessoas ajudaram a disseminá-las através de sua energia, seu entusiasmo e sua personalidade que espalhou a novidade. No caso dos super-heróis, que tiveram seu boom nos anos durante a Segunda Guerra Mundial, as pessoas responsáveis por tais esforços foram os agentes do Eixo. Afinal, vendiam-se gibis para ajudar na compra dos “bônus de guerra”, uma espécie de salvaguarda financeiro do governo estadunidense para injetar saúde na economia debilitada pela guerra. Também naquela época gibis como o do Capitão Marvel, hoje chamado de Shazam!, costumavam vender 2 milhões de exemplares por mês ao final da Grande Guerra.

As capas dessas revistas em quadrinhos eram o que Malcolm Gladwell batizou de Fator de Fixação. Nelas, os super-heróis eram vistos “aprontando peças” com os agentes do Eixo, representados ora por japoneses de pele marrom, dentões e óculos, numa forma de diminuir e estereotipar o oponente, ora por caricaturas dos grandes chefes do eixo, Hitler, Mussolini e Hirohito. Essa capas são ainda hoje estudadas como peças remarcadas de propaganda. Dessa forma a mensagem se tornou contagiante por entre todos americanos e países Aliados, que praticavam outra forma de propaganda contagiante, a “política da boa-vizinhança”. O COVID-19 pode não ser tão eficaz em letalizar, mas no fator de fixação ele é soberano. Um dos vírus mais transmissíveis estudados nos últimos anos. 

Por fim, existe o Poder do Contexto, que diz que “não somos apenas sensíveis às mudanças de contexto. Somos extremamente sensíveis a elas. E os tipos de alterações contextuais capazes de deflagrar uma epidemia são bem diferentes do que conseguimos suspeitar”. Por isso essa dificuldade de encontrar o paciente Zero das infecções do COVID-19, e das causas da infecção, que já passou por ingestão de ratos, morcegos e pangolins, mas ainda não se chegou a uma conclusão precisa.

O contexto da Segunda Guerra Mundial para os quadrinhos de super-heróis foi a total falta de esperança com a Grande Depressão após a queda da bolsa de Nova York em 1929, que empobreceu a população estadunidense como nunca antes. Para que este povo pudesse vencer, e enfrentar as dificuldades que tanto a economia como a política externa estavam trazendo para seus lares, precisam se apoiar na fantasia e no escapismo de que poderiam mirar a ser algo grande, algo maior, algo super para vencê-la. Não foi necessário.

Quer dizer, a fantasia e o escapismo foram necessários para grande parte da população norte-americana, mas quem venceu a Segunda Guerra Mundial foram homens comuns, soldados, que dilacerados em corpos e mentes voltaram para suas casas. Esse retorno teve várias consequências, mas a que nos interessa nesse caso foi o despencar das vendas de gibis de super-heróis, que passaram de 2 milhões por mês para por volta de 400 mil exemplares vendidos no mesmo período. Sobraram, naquela época, com revistas regulares somente o Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Arqueiro Verde e Aquaman das centenas de supers que haviam sido criados naquele pequeno período de seis anos da Grande Guerra.

Os super-heróis atingiram um platô, o platô tão buscado na atual pandemia, porque ninguém contava que com o fim da crise, um fator comum, porém inusitado, iria suprimir a moda dos super-heróis. O que vai gerar o platô para a pandemia do Novo Coronavírus certamente também será um fator inusitado como aconteceu em outras pandemias e como exemplifiquei com os super-heróis. Isso não quer dizer que uma mutação no que entendemos como epidemia surja e mude todo o contexto. Isso, fez, por exemplo que os super-heróis voltassem. Mas isso, talvez seja tema para um novo texto.

O que Gladwell afirma é que temos de levar em conta três outros fatores de mudança da atual conjuntura, que são extremamente importantes na hora de pensar como atingir o ponto de saturação de uma epidemia – para mantê-lo ou ainda para dissipá-lo. São o aumento do isolamento, algo que está sendo crucial nessa pandemia, que pesa para o lado positivo. Outro fator é a inocuidade da comunicação, que as redes sociais tem pulverizado suas informações com fake news, que pesa para o lado negativo. Por fim, a confiança nos experts, naqueles que entendem do riscado, é segundo Gladwell que vai fazer a diferença na hora de arrebatar ou de deflagrar uma nova epidemia ou pandemia. Ou seja, se existem super-heróis a quem devemos estender as mãos e buscar auxílio, agora, são os experts, aqueles que têm consciência e ciência daquilo que estatizam, são aqueles em que podemos confiar e deixar nossas vidas em suas mãos, como em outros tempos ou em outras narrativas faríamos com os super-heróis.

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Literatura RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s