Mario Augusto Pool: O que aprendemos com essa tal educação a distância?

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Neste período de reclusão e isolamento, tão propício para a leitura, me deparei com um artigo (Ana Paula Cecato: Essa tal educação a distância) que me causou inquietação e novas reflexões. O texto fazia referência ao momento educacional que vivemos, com o crescimento da educação a distância e a reinvenção dos professores em meio ao caos epidemiológico. A autora demonstrava toda a sua insatisfação com as ferramentas digitais no ensino e a youtuberização dos professores que, segundo ela, deixam a sala de aula virtual “programada e monitorada, contemplando uma universalidade que não existe no processo educativo”.

É preciso respeitar as opiniões conflitantes, visto que o filósofo iluminista Voltaire nos ensinou que podemos não concordar com as palavras de alguém, mas devemos defender o direito de que todos possam dizê-las. Entretanto, é impossível calar em um momento no qual precisamos ousar e propor novas formas de interação e troca com os estudantes de todas as modalidades de ensino.

A pandemia veio nos testar. Um teste diário de sobrevivência, seja ela física, emocional ou profissional. Nossa profissão, que ensina e constrói um novo futuro diariamente, tem se transformado ao longo dos séculos. O que muitos não estão reparando é que este é o momento de maior reinvenção do professor. E, acredite, novos momentos pedem novas atitudes.

As provações do vírus estão por toda a parte. Não é só a forma de educar que está mudando. Nossas relações, o contato físico, o ego e o controle das emoções tem sido transmutados em frequências que jamais pensaríamos sintonizar. A vida, de tempos para cá, ficou mais ágil, dinâmica e prática. O que não notamos é o quanto isso nos afeta em meio ao caos. A educação também sofreu essa conversão: de analógica para digital, de vertical para horizontal, de individualizada para colaborativa.

Como tudo na vida, da mamadeira até a bengala, tudo é uma questão de adaptação e necessidade. Os professores e educadores, sejam eles especialistas, mestres ou doutores, passam por turbulências rotineiras no seu dia a dia. A grande diferença é que novas – e mais graves – desordens organizacionais têm abatido muitos profissionais que, em meio a crise, não vislumbram um momento de revisão de suas ações e projetos.

Repare: com o advento da tecnologia, muitas pessoas viraram o nariz para o uso de computadores, em um período em que as máquinas de escrever ainda dominavam o mercado. Onde estão essas máquinas hoje? Em museus ou, infelizmente, viraram sucata. O mundo muda. As adaptações se fazem necessárias. O tempo não perdoa quem foge do seu fluxo normal. Nem aceita voltar para trás.

E o que é voltar para trás na educação? Abrir mão das novas tecnologias e, principalmente, das possibilidades que elas nos apresentam é recusar a nomenclatura de educador. Eu sei, essa frase é forte, mas não podemos deixar de lado aquilo que aprendemos. Educar é construir pontes. Dinamitar caminhos, como excluir a necessidade do uso de possibilidades digitais, é ignorar que o mundo busca uma nova direção – com ou sem pandemia.

Dados apontam que 70% da população brasileira está conectada à internet e existem mais celulares em funcionamento do que pessoas no território nacional. Isso aponta uma convergência midiática, um mar aberto para navegar e um mundo de possibilidades para construir. Sendo assim, você deve estar se perguntando: afinal, por que precisamos defender a educação a distância e repensar nossas formas de agir enquanto educadores? A educação a distância já está presente há muito tempo. Lembro do meu pai, em meados em 1969, recebendo mensalmente pelo correio alguns fascículos do Instituto Universal Brasileiro, quando realizou o seu primeiro curso a distância para radiotécnico.

De maneira rudimentar, ali estava plantada a semente que foi cultivada, passou por muitas adaptações e hoje já é uma realidade em todo o mundo. Acredite: não cabe a nós decidirmos como devemos educar as novas gerações. Eles, os alunos e alunas, já escolheram. A educação deve ser digital, moderna, gamificada e com todos os contornos de interatividade que essa geração se acostumou a receber em outras plataformas.

O problema é que, por vezes, sentimos que os professores estão desanimados, poucos engajados, renegando as novidades da tecnologia e pouco criativos nos espaços presenciais e virtuais. Estes profissionais, infelizmente, estão sendo escanteados no mercado, dando espaço ao professor contemporâneo e totalmente ambientado aos espaços digitais.

O que é preciso entender, de maneira cabal, é que as aulas presenciais, modorrentas e sem estímulos, estão dando lugar aos benefícios da realidade virtual, ao hibridismo, aos jogos digitais e ao conteúdo a um clique de distância. Quanto mais os estudantes avançam na aprendizagem informal, dentro de suas casas, buscando soluções e se encantando pelas possibilidades que se abrem na tela de um smartphone, mais distantes ficam aqueles que acreditam somente no poder transformador da presencialidade. Tudo neste planeta funciona pelo equilíbrio. Nem oito, nem oitenta.

Precisamos convergir, unir o melhor dos dois mundos, progredir na problematização. Juntar as competências digitais do virtual e o talento do professor em sala de aula. Misturar a vocação do pedagogo com a sagacidade do jovem estudante. É necessária uma osmose de vontades: aprender e ensinar caminhando juntas longe do abismo do lugar comum educacional.

A tecnologia veio para ficar porque desejamos que ela fique. Então, por óbvio, é nossa obrigação nos apropriarmos daquilo que queremos perto. Sonho, rotineiramente, com a próxima geração de professores. O futuro que virá. Educadores nativos digitais, que entendem que o encontro presencial nos preenche de valores fundamentais como o respeito, afeto, contato e coletividade, mas que não podemos fechar os olhos para a forma como nossos estudantes aprendem atualmente. E é neste contexto que a educação a distância se encontra.

Existe uma relação diferente entre educar e ensinar. A primeira está pautada na família e nos valores, oriundos da casa de cada um de nós. A segunda está firmada na construção do conhecimento, na troca de experiências e na forma como nos relacionamos e nos apropriamos da tecnologia e das novidades. Assim, podemos entender que só unindo forças com a comunidade escolar, pais, estudantes e seres pensantes de nossa sociedade poderemos transformar os paradigmas educacionais vigentes no país.

A educação a distância veio para nos testar, assim como o vírus veio para nos desafiar. Se os professores não caminharem na mesma proporção que os seus pupilos andam, frente ao movimento veloz do mundo, infelizmente abrirão mão de seu chamado vocacional. Vale ressaltar que não há nenhum tipo de segregação digital: não é necessário ter um alto grau de conhecimento tecnológico e digital para exercer a docência. Muito pelo contrário. Defendo, na realidade, um professor tão interessado e curioso quanto seu aluno, capaz de querer andar ao lado dele, de saber trabalhar no coletivo e incluindo-se no mesmo grupo, fazendo valer a liderança pela sua experiência de vida, gerando encantamento e paixão por tudo aquilo que promove a construção do conhecimento.

Esses são os preceitos para qualquer forma de ensinar e, acredite, a educação a distância está recheada desses momentos e desafios. É preciso encarar as transformações com coragem e atitude. A tecnologia deve ser aliada, jamais encarada como um problema dos tempos atuais. A presencialidade é o que faz a sociedade andar há séculos, é bem verdade. E você já parou para pensar que a tecnologia pode fazer essa mesma sociedade, que caminhava, correr cada vez mais rápido em direção ao futuro? Não é mais possível clamar pelo passado educacional com nostalgia. Mesmo que alguns postes impeçam a trajetória, é preciso olhar – e correr – para a frente.

Mario Augusto Pool é professor, pedagogo e escritor, formado em Multimeios e Informática educativa, Mestre e Doutor em educação pela PUCRS, Pós-Graduado em Educação a Distância, especialista no uso das tecnologias na educação das juventudes. Atualmente é o Diretor Nacional da Educação a Distância da Universidade La Salle e consultor educacional da UP consultoria. Apoiador de Literatura RS, Pool é autor dos romances ‘No nevoeiro’ e ‘Parada 90’, ambos publicados pela Editora Metamorfose, além de outros títulos.

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