Keca Prado: Maria Dinorah, mãe. Eu, filha

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Eu sou a filha que estava ali, bem por perto, quando ela explodiu. De repente aquelas histórias que povoavam cadernos e cadernos, todos pequenos, de espiral, numerados; aqueles poemas que vinham da rua na bolsa, em papéis variados — guardanapos, receitas, passagens —, e que depois eram cuidadosamente passados a limpo em outros cadernos, saíram por aí.

De repente tinha aquele homem que era poeta e se apaixonou por ela, e por isso colocou uma energia incrível e transformou aquela professora/poeta em alguém que tinha lindos livros publicados. Eram lindos mesmo aqueles primeiros livros. Década de 70, capas duras, coloridas, ilustrações lindas do meu irmão. Em cada livro, cinco ou seis historinhas, temas variados, muitos bichinhos em festa, crianças, umas tristes, outras alegres, mundos encantados.

Neste primeiro momento foram quatro livros, que levaram o nome de Coleção Pirulin, homenagem ao seu querido amigo Quintana. E mais outro, com o título de Território da Infância, onde ela gostava de morar.

E a Praça da Alfândega, durante a Feira do Livro, passou a ser o pátio da nossa casa. Meu padrasto, com uma banca da sua editora Bels, e ela nos lançamentos dos seus livros, um a um. E as histórias começaram a entrar nas escolas, era aquela fila de alunos de muitos cantos na Feira para autógrafos. A Feira era a festa para onde eu ia todo final de tarde para papos variados, e, mais que tudo, para testemunhar aquele brilho todo dela — às vezes, sentada de papo com Mário Quintana, cena que guardo no canto de muito amor do coração.

Com este voo inicial, não é que o pessoal começou a vir querer saber quem era aquela gaúcha que fazia a criançada ferver na Feira do Livro de Porto Alegre? Aquela contadora de histórias que deixava, eu lembro, as crianças de olhos vidrados, bebendo cada palavra? Conversando, brincando, poetando.

A Melhoramentos, talvez a maior editora daquela época, foi a primeira, e assim a Coleção Pirulin ganhou uma edição mais nacional. E depois, novos livros. E mais editoras, e mais e mais livros saindo dos caderninhos. E mais Feira do Livro, às vezes com três ou quatro livros lançados em um mesmo ano. As escolas a queriam e ela ia conversar com as crianças, conversa de muita brincadeira, poesia e histórias, por todo este Rio Grande, mas também por São Paulo, Minas Gerais, alguns lugares mais ao Norte que não lembro bem quais.

Eu, filha, brigava — por que tanta viagem? Por que tão longe de carro nesta cidade tão pequena? Por que de novo com estas crianças? Pois é, filho é assim, a mãe tem que ser só da gente. Mas ela ia, sim, pois era uma paixão e isso não tem muito o que discutir.

Havia dois lugares sagrados para ela (tinha outros lugares também, mas não tão sagrados) — a escrivaninha do quarto, onde sentava e escrevia, escrevia, alheia ao entorno, envolvida por Pedrinhos, Jocas e galinhas de nomes esquisitos, e a companhia de crianças e mais crianças. Uma, com quem já alinhavava uma conversa e fazia já, já um “cadê o toucinho que estava aqui?”, ou duas ou muitas, e dá-lhe toucinho e outras histórias e brincadeiras. Com os adultos, podia ser doce se estava cantando em roda ou poetando com amigos, ou muito braba com toda a barbaridade que assistia esfacelando infâncias pela vida afora. Daí tocava a discursar muito firme defendendo suas ideias, brigando com todas as injustiças do mundo.

Não foi perfeita, longe disso. Tinha às vezes idéias irredutíveis pelas quais muito brigamos. Eu queria mais para ela, queria ela mais para mim. Ela queria ser de todos. Cobrava pouco, dava muito, pois disso se alimentava. Era dura de se entristecer, a não ser que fosse pela infância perdida das crianças do mundo. Acho que ela também cuidava assim da criança que ela foi, que teve lá seus percalços e algumas faltas de amor materno. Mas teve o suficiente para escrever muito, criar muito, o que nos diz também que houve muito amor também. Eu, que assisti tantas vezes meu avô, totalmente encantado, conversando com ela, perguntando por todas as suas andanças, sei de onde veio este amor. Ele também escrevia, e só o que queria era acompanhar o brilho daquela filha — ao meu entender, a favorita (desculpem tias e primos que estejam, ou não mais, aqui).

Então, nestes tempos dos anos 70, 80 e 90, o Rio Grande viu brilhar esta pequena mulher, que publicou 108 livros, foi a primeira patrona da Feira do Livro de Porto Alegre, percorreu este estado todo e parte do país divulgando sua obra, suas idéias e apostando nas crianças. E eu estava ali por perto boa parte deste tempo. Depois, fui fazer minha vida, meu par, meus filhos, e fiquei mais desatenta dela.

E quando ela foi-se indo, primeiro na memória, o que foi muito triste, e depois feliz e sem dor se apagando aos poucos, o que foi ao menos suportável, eu sofri. E depois que ela se foi, fiquei eu com estas memórias e com todos estes cadernos, livros, poemas, lembranças, e uma angústia lúcida de que, tendo assistido a todo o brilho, estivesse neste papel maldito de saber sobre o poder do tempo em apagar tudo, em transformar toda esta história em pó.

Não há o que possamos fazer contra o tempo, e tenho que saber que seu brilho se foi e aquelas crianças cresceram. Nem todas são iguais — algumas guardarão, como eu, aquele amor querido pelo livro que lemos muitas vezes, por aquele autor que nos acompanhou em tantas histórias (ah, meu querido José Mauro de Vasconcelos…). Outras têm outras memórias, guardam outras coisas no coração. Tudo bem, vida que segue, mas há sempre novas crianças por aí, e dentro de mim algo brigava com este tal de tempo, com este estraçalho que ele aplica à muitas coisas boas. Conformismo não. Sempre fui inquieta e não sou boa de aceitar passivamente algumas coisas da vida.

Meu desassossego não me deu trégua, e meu olhar e minha angústia sempre estavam atentos. Como posso manter esta mulher ainda um pouco viva? Que desafio! Como bater em cada porta, em cada esquina, e dizer “olha aqui, olha o que ela disse, olha o que escreveu, que bonito, que importante, que doce!”. Era o que eu queria fazer — quando estava de bem com ela na minha cabeça, não era sempre.

Mas acredito que a vida é boa, e então a vida me mandou uma parceira, alguém também com desvarios parecidos com os meus, destes de querer sair por aí a reviver pessoas, alguém que também tinha esta vontade de bater nas portas e falar nas esquinas sobre o que ela tinha escrito, publicado, pensado. Nesta vida corrida e possível, eu e minha nova parceira criamos um espaço para ela. Um espaço com o nome dela, com projetos que atendem aos desejos dela de melhor infância para crianças (e adultos também!). Já vai fazer quatro anos que estamos por aí, divulgando aqui, um projeto bacana ali, gente boa se juntando com a gente, falando dela e das suas ideias.

Queremos mais portas e mais esquinas, mais gente boa que venha se juntar conosco. O caminho é lento, mas acho que estamos conseguindo, aos poucos, lembrar às pessoas de alguns mundos que esta pequena mulher existiu, que pensou, escreveu, publicou e fez feliz muitas, muitas, muitas e muitas crianças. E certamente me deu um tanto de amor de bom tamanho para que eu carregue seus cadernos, livros, idéias com esta emoção que sempre me move e comove, e que me faz ter tanto amor por este IMADIN.

Obrigada, Roberto Mara, pelo começo, nos dando a Editora Bels, e por  todo o resto. Obrigada, Patricia Pitta, por ter embarcado nesse sonho comigo. Obrigada, Maria Dinorah, minha mãe, por ter me deixado este legado meio impossível, mas terrivelmente desafiador e criativo.

Keca Prado é psiquiatra e psicanalista e fundadora,  juntamente com a pesquisadora e escritora Patricia Pitta, do IMADIN – Instituto Maria Dinorah, dedicado à manutenção da memória e do legado da escritora falecida em 2007, pioneira da literatura para crianças no Rio Grande do Sul e uma das mais importantes autoras do RS. Saiba mais sobre Maria Dinorah e o IMADIN aqui.

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