Minha rotina: Jeferson Tenório

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Autor dos livros O beijo na parede (Sulina) e Estela sem Deus (Zouk), Mestre em Literaturas Luso-africanas pela UFRGS e doutorando em Teoria Literária pela PUCRS, Jeferson Tenório é um dos autores mais elogiados do Rio Grande do Sul atualmente. Nome frequente entre os finalistas de prêmios literários, Tenório tem alcançado visibilidade nacional. Como resultado, seu próximo romance será publicado pela Companhia das Letras, fazendo com que o autor alcance novos públicos e leitores.

Literatura RS inaugura com Jeferson Tenório a série Minha rotina, em que convidados compartilham sua rotina e seu ambiente de trabalho e seus hábitos de escrita e leitura. Confira abaixo!

Você tem uma rotina para escrita? Você escreve diariamente?
Costumo escrever no final da tarde. Gosto desse período entre as 17h e as 19h. Não escrevo diariamente. Mas leio todos os dias. Ler ainda continua sendo mais importante que a escrita. No início da pandemia estava um pouco paralisado com tudo e não conseguia me concentrar nem na leitura e nem na escrita. Passados alguns dias, comecei a me adaptar com a situação. Creio que agora tenha entrado numa rotina, mas ainda me causa estranheza essa vida de confinamento, talvez minha escrita seja de certo modo afetada por isso, não sei ainda. É preciso um distanciamento.

Você elabora algum planejamento para a produção dos seus livros?
Não. Planejo muito pouco. Creio que meus romances sempre nascem de uma determinada cena que me vem a cabeça. Depois de algum tempo, digo, semanas ou meses, sento e escrevo a cena. Então vou esticando até conseguir um enredo que seja suficiente forte para que possa desenvolver o restante da história. Meu novo romance, O avesso da pele, que sairá esse ano pela Companhia das Letras, foi nesse sentido. Eu tinha uma cena na cabeça de uma abordagem policial mal sucedida, em 2015. Desde ali fui desenvolvendo aos poucos, com erros e acertos, mas sem planejar muito a estrutura da história.

Fotos: Jeferson Tenório

O que você faz para distrair-se do trabalho da escrita?
Tenho perdido um bocado de horas nas redes sociais ultimamente, estou tentando ficar menos tempo, mas costumo ler, escutar música, zapear a tv ou ver um filme. Gosto muito de documentários. Mas creio que no fim das contas um escritor não se distrai do trabalho da escrita. Acho que para quem escreve não há descanso, tudo parece virar matéria para a literatura. E, às vezes, tenho a impressão de que estou sempre a narrar coisas para mim mesmo. Isto significa dizer que o exercício contínuo da escrita nos faz ver o mundo e as coisas sempre pelo prisma literário. Então quando estou aparentemente distraído estou, de algum modo, trabalhando mentalmente a escrita.

Qual plataforma ou editor de texto você utiliza para escrever? Por quê? E como organiza os arquivos?
Uso aquele que me aprece mais simples, o Oficce/Word. Às vezes faço anotações em bloquinhos e depois digito. Também não sou muito organizado com meus arquivos. Devo ter uns 7 ou 8 inícios de romances espalhados em vários documentos. Há pedaços de textos que nomeio e renomeio. No entanto tenho o cuidado de salvar tudo na chamada “Nuvem”

O que um escritor precisa para escrever?
Acho que o principal é a própria vontade de escrever. Manter essa pulsão criativa apesar da vida. O mundo nunca vai te dar segurança plena para escrever. A vida é um lugar estranho para fazer literatura. O que o escritor faz é traduzir, ainda que precariamente, essa estranheza. Claro que quando fazemos um recorte social, racial e de gênero temos uma série de demandas de sobrevivência que se impõe ao desejo da escrita. É desonestidade achar que uma mulher negra fora do eixo Rio-São Paulo tenha os mesmos privilégios que um homem branco de uma zona sul qualquer. Neste sentido, acho que as mulheres ainda não têm “um teto todo seu” para escrever, como diria Virgínia Wolff.

O que você está escrevendo no momento?
Comecei a preparar um livro de poemas com o título provisório de A diluição do mar que deve sair no próximo ano. Também tenho escrito contos sob demanda para antologias, além burilar em um romance que venho desenvolvendo há dois anos chamado A casa vazia.

Estela sem Deus
Jeferson Tenório
Romance
206 p.
14 x 21 cm
978-85-8049-061-9
Editora Zouk

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