Maiara Alvarez: Pelas mães que podemos ser

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Dos mais de trinta anos em que existo e sou nesta terra, a maioria deles eu sou com a minha mãe. E hoje a maior parte da vida dela foi sendo minha mãe, embora aí ainda tenhamos algum equilíbrio. Eu adoro quando ela conta de uma terra em que eu ainda não era nada mais que uma possibilidade. De tudo que ela fez. 

Ela também gosta de contar da sua vida depois da existência dos filhos. Depois que ela, dentro do seu próprio corpo, construiu minhas células, e depois de como esse conjunto maluco de matéria orgânica foi alimentada por ela (pelo corpo e pelas mãos), educada por ela, cuidada por ela. Por algum tempo, fomos eu e ela. E aí, um tempo (que pra mim foi um tempão) depois, era eu, ela e mais uma matéria orgânica em desenvolvimento. 

Foi um dos períodos mais solitários de nossas vidas. Eu estive lá quando minha mãe estava mais sozinha. E também não estive. Ela sempre foi uma pessoa sortuda: se não tinha família perto ou atuante, tinha uma horda de amigos. Ao voltar do mercado, entretanto, éramos só nós duas enfrentando um rancho e quatro andares de escada. Era eu quem massageava suas pernas com cãimbra. Mas aí, quando meu irmão nasceu, eu, que sempre passava um mês com meu pai no Uruguai (de onde ele é e morava), fui com ele para minhas férias. E minha mãe e meu irmão ficaram.

Acho que ficar adulta e entender o que pode ser um puerpério e que a minha mãe passou por ele completamente sozinha me dá uma dimensão diferente da maternidade. Não consigo nem realizar. Dentre as coisas que me machucam no mundo, esta deveria ter sido uma das primeiras, mas eu não entendia na época. Por isso, mães precisam contar suas histórias. Para suas filhas e para sua comunidade.

Ao ler a revolução que foi Laura para a Manuela D’Ávila, pensei muito sobre isso. Pois não há de existir uma só maneira de contar histórias. Revolução Laura é um apanhado de fotos e trechos de uma revolução não apenas pessoal. É um livro que conta a perspectiva de uma mãe. No caso da Manuela, uma narrativa que foi reinventada para parecer um punhado de coisas ruins. Ter o relato de Manuela mostra o quanto é importante que essas coisas sejam contadas por primeira vez, que sejam vivenciadas sob um ponto de vista de vivência, que é, afinal, o ponto de vista sob o qual podemos nos apoiar para efetivamente aprender algo.

No prefácio, a filósofa e professora Márcia Tiburi escreve que, “No meio desse mar de ódio, teu livro feito de amor imenso é cura” (p. 11). Essa frase me tocou muito por entender que estar curada significa que uma vez estivemos doentes. Mas que também, se estamos doentes, cura é uma ação, e não uma expectativa. Manuela, ao escrever, toma uma ação de cura que serve a ela e a nós.

Neste livro, a mãe e candidata à vice-presidência relata agressões sofridas enquanto ela exercia ambos papéis. Eu coloquei primeiro mãe, por ser um viver e ser — mãe — antes de ser um estado — e candidata (como a própria Manuela aponta, nunca se deixa de ser mãe, por isso acredito não haver nomenclatura para uma mãe que perde uma criança, como temos viúva, órfã, etc). E eu, embora tampouco entenda a agressão, consigo, infelizmente, não me surpreender com o fato de Manuela ser agredida por ser candidata. Nada me elucida, entretanto, uma pessoa que agrida uma mãe enquanto está com sua prole, ou seja, enquanto, além de ser, está mãe.

A raiva é uma emoção, mas o ódio, assim como o amor, é uma ação. Exige investimento emocional e comportamental. O ódio a uma criança é algo que me apavora. E há aquelas pessoas que odeiam crianças. E há as outras que odeiam as crianças dos outros. Como se fossem de diferentes espécies (ou de diferentes raças e que isso por acaso existisse). 

A vida de um candidato é escrutinada para que se use qualquer deslize contra. A vida de uma candidata é, por si só, material para criação de acusações. Um candidato é acusado se suspeito de um crime, um desvio. Uma candidata é acusada se é: um, mulher, e dois, mãe. E suas filhas e filhos viram extensões dessa mãe aos olhos da perversidade do ódio. E depois você pode inserir o que mais é da seara única e exclusiva da vida da mulher, sendo parte do que ela é: negra, indígena, bissexual, lésbica… A desigualdade atinge muito mais as mulheres.

Um mundo com esperança machuca mais. Se estou machucada, sei, entretanto, que ainda resta esperança. Em uma narrativa onde Manuela é culpada por ser quem ela é, em seus ideais, também é culpada por ser mãe. Assim como e diferentemente de todas as mães. E ponto.

Durante a minha vida, trazer ou não ao mundo uma criança, ou adotá-la, sempre esteve em um leque maior ou menor de possibilidades, mas nunca foi um planejamento e muito menos uma certeza. Hoje, vivo bem sendo uma pessoa sem filhos. Eu não tenho essa vontade. O que eu assumo e gosto é da perspectiva de ser mais uma na comunidade. Na página 94, Manuela escreve sobre “[…] as mães que eu senti falta ao longo da vida”. Eu senti falta de muitas mães. Minha mãe sempre foi completa, como mãe, como mulher, como ser. Eu não tinha, entretanto, uma comunidade. Eu não vivi muito com outras mães (avós, tias, amigas). E eu quero que as crianças vivam em uma comunidade que seja mãe, pois ser mãe deveria ser um trabalho tornado menos pesado entre nós todos. 

Manuela escreveu um livro pelas mães e pelas mulheres que tentamos ser.

“[…] eu parei e me olhei no espelho do banheiro ao sair do banho, e chorei compulsivamente diante do incerto do futuro, diante de minhas inseguranças, diante da expectativa, diante de mim mesma”.

Manuela D’Ávila, mãe da Laura, madrasta do Gui, jornalista e mestre em Políticas Públicas. Foi vereadora, deputada federal e estadual e candidata a vice-presidente do Brasil. Revolução Laura é o primeiro livro de Manuela, publicado em 2019 pelas Belas Letras. A autora também tem, pela editora Planeta, Por que lutamos?, publicado no mesmo ano.

Revolução Laura: reflexões sobre maternidade e resistência
Crônica
Manuela D´Ávila
192 p.
14 cm X 21 cm
978-85-8174-474-2
R$ 44,90
Belas Letras

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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