Folhetim LRS: Dois nós, Carolina Panta (parte cinco)

Arte: Giovani Urio

2017

Em seu momento final, Eloá não pôde deslumbrar o instante em que se formou como junção celular do pai pescador, galego filho de imigrantes alemães, com a mãe caiçara catadora de mariscos.

Ficou para trás a infância pé no chão passada na casa de uma das tias. Era bonita como uma boneca para passar fome no barracão com telhado de zinco.  Foi desmamada ainda em sua primeira semana de vida para ser entregue a outro colo. Última cria de cinco, graças a deus não era nada feia, assim foi mais fácil conseguir uma casa para ela

Teve teto, mas faltava de um tudo para além disso. Não conheceu carinho quando pequena e, poucas vezes, foi abraçada. Vivia na rua solta como moleque com ranho no pequenino nariz arrebitado.

Ali, no chão, nada lembrava a adolescente radiante entre amigas a fumar bitucas de cigarro deixadas no cinzeiro pelo tio. Tomavam cachaça e fumavam às escondidas enquanto riam alto descendo os combros de areia. Não sabia, em sua inconsequência juvenil, ser o vício adquirido na adolescência acrescido a uma pré-disposição da fraca genética paterna os fatores principais do seu coração doente. Não teve outra herança do pai alemão além dos cabelos louros e olhos azuis. Tudo o que esse sujeito deixou em si foram um semblante europeu e um fraco coração.

Enquanto as orelhas murchavam, não se pôde ser testemunha da sensação da jovem mulher ao sentir a filha mexer-se dentro de seu ventre. Os primeiros movimentos do bebê lhe deram força para esquecer o momento em que fora concebido. Ao sentir a criança dentro de si, enterrou o nojo do marido quando chegava no meio de madrugadas. Ela era sua propriedade e deveria satisfazê-lo.

A temperatura do corpo esfriava e não havia espectador para presenciar as noites de sono perdidas a esperar o retorno do marido bêbado. Deitada em direção à parede, as lágrimas derramadas não foram vistas pelo sujeito embriagado cheirando a perfume doce das putas da Estrada do Mar.

Sem testemunhas, o corpo amolecia. Ficaram para trás os hematomas e o sangue seco acumulado ao canto da boca enquanto apanhava calada no lugar das crianças.

Sim, eram duas. Separadas, irmãs desconhecidas. Uma cicatriz aberta até o dia em que seu peito parou de bater. Na fuga, trouxe apenas a menor. A mais velha era bonita, assim seria mais fácil conseguir-lhe onde morar. A pequena, coitada, chorava noites a fio. Era fraca e um pouco sem graça, não sobreviveria sem a mãe.

O choro desesperado da filha mais velha, enquanto agarrava seu vestido, implorando que não a deixasse, nunca parou de ecoar nos ouvidos de Eloá

Agora, não mais.

O rio secou. 

Eloá parou de ser.

Um aniversário

O dia marcado no verso da terceira foto fez com que meu corpo entrasse em um estado de colapso físico. Senti uma quentura na área do pescoço enquanto minha face tornava-se exemplo do processo de ebulição dentro do peito.

Por outro lado, as mãos frias vibravam em uma tremedeira sem ritmo a desfocar os rostos e as letras impressas na foto do 03 de março de 1990.

Coberta por mofo, a parede branca ao fundo denunciava uma certa precariedade ao ambiente fantasiado para a festividade. As bandeirinhas estampavam um Feliz Aniversário já desbotados por alguns usos anteriores. 

De maria chiquinhas, a pequenina assoprava uma das velas do bolo coberto por glacê. Sorria um sorriso por inteiro a mostrar sua pequena dentição de leite completa. Nas bochechas, um tom rosado destacava as sardas a acriançar mais ainda seu rostinho redondo.

Não há sentimento capaz de descrever o profundo pesar de perder seu passado. A cena do aniversário transportou-me a um lugar até então desconhecido, mudou tudo o que antes fora certeza. A partir desse ponto pude perceber o entremeio de fatos que alteraria para sempre meus próximos capítulos. 

Como indivíduo, ao longo de minha existência, fui substituindo, aos poucos, um passado interiorizado por um tempo ditado a partir de uma consciência coletiva entre datas comemorativas e eventos emocionais. Vim me solidificando a partir do que me era apresentado por convenções externas e passagens de anos burocratizadas pelo 31 de dezembro. 

Deixei de lado, em determinado momento, sensações de criança permitida a uma quase liberdade, pois desconhecia as regras sociais e comportamentos pré-aprovados. Substituí, na memória, esse meu aniversário de dois anos por um pretérito forjado para ser meu.

A história não me pertencia mais. Virei arquétipo, me tornei metáfora: sujeito sem passado ou memórias ocasionais

Foto 3X4

Sem o encantamento do recorte no tempo, de cena pintada, o retrato em 3×4 trazia consigo um rosto sisudo da foto de documento.

Do negrume dos olhos, pouco se poderia imaginar da figura de cabelos rebeldes e barba espessa para além das marcas de sol nos vincos de sua testa.

A pele do sujeito parecia castigada pelas intempéries do tempo tal qual um pedaço de madeira a desbotar e apodrecer quando há muito dentro do mar.

O anônimo deveria ter entre trinta e quarenta anos, mas o enrijecimento da pele e das feições trazia ao desconhecido engravatado a expressão desesperançosa de quem pouco da vida pôde retirar.

“Do teu Moacir”. Seria apenas um antigo namorado, um alguém preso ao retrato não fossem as sardas nas bochechas secas a acriançar o rosto sofrido por anos exposto ao sol.

A Feiticeira

Ao adentrar os terrenos do litoral norte, o automóvel 1.0 passou a ser atingido pelas fortes rajadas de vento que desciam a Serra do Mar em direção às lagoas.

Nem toda a boa sinalização da larga estrada melhoraria a visão do motorista naquele momento crítico. Junto aos ventos, a tempestade cor de chumbo a se aproximar por trás das escarpas. O dia já amanhecido não clarejou.

Os pingos grossos açoitavam o veículo irados pelo sentimento de quem cai dos céus. Parecia a natureza tentar o impedir o avanço do carro pelos quilômetros da Freeway. Um dos limpadores de para-brisa logo sucumbiu à vontade do temporal e não houve outra solução senão dormitar num refúgio ao longo do acostamento.

Há uma centena de quilômetros dali, uma mulher caminha pela areia úmida. As plantas dos pés tocam a espuma provocada por uma onda já cansada a chegar à beira-mar.

A maresia da noite anterior ainda é bruma a turvar o limiar entre céu e oceano. Toca-lhe o rosto de modo a desobstruir a respiração já fatigada pelo cigarro.

O início da manhã é agradável, não fossem as nuvens carregadas vindouras da Serra do Mar. Por certo, logo a chuvarada cairia por ali. Seria até bom encontrar-se na orla quando as primeiras gotas começassem a brotar do céu. Usava, contudo, seu vestido novo comprado em uma das últimas idas a Porto Alegre. Não valeria a pena estragar o tecido fino e florido, um dos poucos dos quais realmente gostava.

A caminhada se estenderia até a próxima guarita dos salva-vidas. Àquela altura do ano desabitada da força policial, estaria ocupada por algum casal sem porto ou mesmo pelos crescentes usuários de crack que brotavam nas periferias da cidade.

Em meio aos trovões emergindo ao longe, ouviu um grito agudo e sufocado. Se inverno fosse, imaginaria ser o vento Minuano chicoteando os pinheiros do calçadão. Porém, o início de primavera já não era tempo de ventos vindos do sul.

Interrompendo a caminhada, afastou os cabelos louros de modo a liberar o som até os ouvidos. Os segundos de silêncio foram interrompidos pelo grito desesperado, mas já cansado, da criança sozinha ao mar. Da areia, só era possível avistar seus bracinhos em busca de socorro quando baixavam as ondas para quebrar no raso da praia.

Paralisada, Aline olhou em seu entorno: não havia a quem recorrer. Decerto, os pescadores, antevendo a tormenta, não despertaram para arremessar suas tarrafas nas águas da barra que ligava a lagoa ao mar.

Hesitou, primeiramente. O vestido florido não resistiria à corrosão da água com sal. Repreendida foi, de pronto, por outra parte de seu consciente. Partiu em disparada em direção às agitadas águas.

Amolecida, a pequena boiava já de borco, sem brigar. Aline tentou reanimá-la batendo-lhe no rosto. A criança cuspiu um pouco de água salgada, mas permaneceu de olhinhos fechados.

Estava presa. Um dos pezinhos sem sapato estava enredado nas malhas de uma rede de três panos. A feiticeira, como é chamada, prendia a menina e cortava sua circulação pelos emalhes de tamanhos diferentes a compor sua trama. 

A pesca com redes de cabo é uma atividade artesanal daquela parte de litoral. A tecitura de náilon presa à costa corta as ondas de maneira perpendicular. Com uma ponta agarrada à areia, arrasta vidas de quaisquer tamanhos a se deparar com seus nós. Não há peixe que não sucumba à feiticeira.

Enredada naquelas tramas, a pequena não pôde desvencilhar-se. Quanto mais se debateu, mais se fecharam os laços em torno de seu calcanhar. Já azulada pela possível hipotermia, entregou-se ao balançar do mar. 

Com muito esforço, Aline retirou a menina dos elos da feiticeira, fazendo sangrar os dedos da mão ao afrouxar a tramela. Carregou a pequena desacordada até a praia. Arriscou-se, então, a repetir as manobras de resgate as quais já havia sido muitas vezes espectadora. Não seria difícil um boca a boca.

Soprou-lhe os lábios violáceos e massageou seu peitinho não soube durante quanto tempo. Desistiu somente quando percebeu estar machucando mais o pobre corpinho mortificado.

Gentilmente, assim, cruzou-lhe os pequenos braços sem cor sobre o peito. Os cabelos profundamente escuros estavam bagunçados e escondiam seu rosto sem vida. De forma maternal, acarinhou-lhe e afastou os fios castanhos da face.

Aline acordou com os seios encharcados não soube se por suor ou lágrimas. A tempestade anunciava-se com o vento a agredir as janelas de madeira. Já era possível ouvir a fúria dos trovões vindos da Serra do Mar.

Virou para o lado, ainda era cedo para levantar. Não pôde, contudo, voltar a dormir. Presa aos olhos, estava a menina já sem alma de bochechas repletas de sardas.

Entramado

Retomado o movimento, não demorou muito para o carro tomar a rota estreita desbraçada da larga Freeway. Era bonito ver os banhados do caminho cheios pela torrente de minutos antes. Os primeiros biguás a deixar a proteção das copas das árvores  pintavam de negro o céu de um azul desbotado pelas pesadas nuvens.

Não seriam muitos os quilômetros até Camila chegar à cidade à beira-mar. Forjados pelo dinheiro, seus prédios já bloqueavam o sol do início de tarde. Era um lugar de clubes de piscinas azuis e mulheres de bronzeamento artificial. 

Agora, contudo, ainda dentro do carro em direção ao Litoral, teve medo do que poderia descobrir. Por um momento, pensou em pegar a rótula de retorno à Porto Alegre, mas leu a saudação de boas-vindas estampada em placa verde e seguiu.

Vencendo uma esquina de paralelepípedo alagado nos arredores da cidade, o carro estacionou em frente a um restaurante de pratos feitos no almoço. Alguns homens tomavam seus cafés pretos e desviaram olhares a recém chegada. Não tendo muito a contemplar em uma Camila vestida de abrigo de moletom largo, voltaram a concentrar-se nas torradas de pão dormido.

Segurando as fotos apertadas dentro do bolso, ela andou até o fundo do local onde uma jovem limpava o balcão. Não antes de procurar naqueles rostos masculinos os olhos fundos da 3×4 preto e branco.

Por óbvio, Camila não apresentaria à desconhecida todas as fotos daquela coleção. Não sabia quais reações tais imagens provocariam no restaurante litorâneo em que, provavelmente, nenhum rosto passaria despercebido.

Selecionou entre os dedos o retrato e o apresentou à moça. Aquele era Moacir, ela uma advogada trabalhando em um inventário de herança. Ao contar tal história, achou-a forçada, mas pareceu prender a curiosidade da ouvinte, fiel espectadora de novelas das nove. 

A jovem, a julgar pela boa posição das carnes, deveria ter a idade próxima ao retrato. Olhou atenta por alguns segundos, mas não reconheceu o homem sem sorriso. Camila lamentou e aquilo pareceu-lhe um aviso para tomar estrada de volta. Ia virando as costas quando da cortina de pedrinhas engorduradas surgiu outra mulher. 

Pelo avental sujo, logo a figura lembrou-lhe dos tempos da mãe no Pensador. Retirada da imagem de Eloá pelo pois não da senhora, Camila tentou repetir a mesma versão narrada à jovem filha, porém a cozinheira não pareceu tão encantada pelo drama novelesco. Franzindo as sobrancelhas, pegou em mãos a foto e, antes de verificar seu verso, afirmou – era Moacir.

Não sabia, infelizmente, seu paradeiro, ou mesmo não o quis revelar. Era mal contado, de fato, aquele papo de herança. Mas há muito não ouvia falar dele. Lembrava-se somente dos seus tempos de juventude, quando sua mãe era vizinha da mãe do homem da foto. Não lembrava ao certo o ano, mas já não o via desde que havia se mudado para o lado de cá da ponte, quando as mansões começaram a invadir a beira da lagoa.

Anotado o nome da rua, Camila saiu de lá com um muito obrigado às pressas pelo medo de ser descoberta em sua pequena trama. Talvez, em uma segunda olhada, a mulher fosse capaz de ver seus olhos por de trás das grossas armaduras dos óculos de grau. Poderia, se mais atenta, reconhecer neles os olhos sem sorriso, cópias daqueles da foto escondida no bolso da forasteira.

Estacionou frente à casa seguindo a descrição. Não havia portão nem porta de entrada a limitar a passagem. Via-se, em seu interior, uma claridade fraca a adentrar a sala de estar pelo buraco aberto no teto.

Estava abandonada por aqueles que havia muito penduraram suas cortinas agora corroídas. Contudo, alguns colchões amontoados ainda marcavam a presença de passantes ali de quando em vez.

O cheiro de urina enojou-lhe o estômago, vazio há mais de 24 horas. A mistura de dejetos humanos às bitucas de cigarro ao chão provocou-lhe tontura. Apoiou-se à parede tentando vencer o mal-estar e pôde ver, ao fundo do corredor, uma imagem desbotada de jesus cristo. Tendo os olhos de nosso senhor fitos em si, vomitou.

Limpando a boca na manga, saiu pelo local onde, um dia, houvera uma porta. Logo percebeu do outro lado do muro outros olhos a lhe fitar. Esses eram curiosos e mais julgadores que os do filho de deus.

A camisola larga de algodão disfarçava o obeso do corpo da vizinha. Pequenos olhinhos apertados eram desproporcionais ao rosto de lua da mulher. A velha, contudo, mostrou-se mais solícita quando Camila ofereceu-lhe uma pequena retribuição em troca de informações.

Ali morava a mãe de Moacir, a Joice. Ela e a moça loira. Qual era mesmo o nome dela? Camila arriscou: Aline.

Esse era o nome. Mas já fazia tempos que não a via. Joice morrera há uns dez anos ou mais de algo relacionado à diabete. Logo depois do enterro, a guria pegou as coisas e foi embora. O pai dela, o Moacir, já não morava mais ali, mas era bem comum encontrá-lo em algum boteco ou sarjeta da cidade. A casa acabou ficando assim aos poucos. Certamente, a velha teria morrido de desgosto se visse.

O Moacir ganhar uma herança era realmente um desperdício. Não sabia como ele estava agora, mas sempre foi um bêbado. Muito mais justo seria ela, uma senhora doente, receber algum dinheiro, já que sua pensão mal dava para comer. Levantou, então, a camisola e deixou à mostra suas pernas semicobertas por ataduras.

As bandagens não tapavam por completo as feridas úmidas que expeliam pus. Os pés inchados ao dobro do normal eram de um carne viva arroxeado pela podridão. Talvez fossem apenas reflexos daqueles olhinhos miúdos carregados de ruindade.

Camila não pôde concentrar-se mais nas palavras carregadas de impiedade sobre sua não-família. Fez-se, contudo, como boa ouvinte, sem conseguir desviar das necroses decoradas por algumas moscas varejeiras.

Pôs fim às palavras perversas quando retirou da carteira a nota de cinquenta reais. Ali começaram a ser elencadas algumas informações de valia para além daquelas que definiam Moacir como mais um bêbado.

Saiu de lá com um certo enjoo, mas com um endereço em mãos.  

Decidiu encerrar a jornada naquele dia. O sol já ia indo ao horizonte e não seria conveniente sair de porta em porta procurando um alguém desconhecido.

No quarto de hotel, pediu um prato feito do restaurante ao lado sem esperança alguma de conseguir comê-lo. Por volta da meia noite e sono algum, desceu as escadarias e andou pela rua deserta em busca do que beber. A única opção era a conveniência do posto de gasolina com meia dúzia de produtos na prateleira.

Guardou no frigobar do quarto algumas latas de cerveja aguada, mas preferiu a vodka de nome supostamente russo. Errou por achar ser o destilado o condutor ao sono profundo. 

Na madrugada, cresceu em si, estimulado pela queimação na garganta, um algo sem descrição. Do intermeio entre a náusea, a raiva e o desapontamento, brotou no peito de Camila o asco. Tinha nojo de Eloá. Nem a morte poderia livrar a mãe do crime pelo furto do passado. Que Eloá se acertasse com seu deus. Da filha, agora, não obteria o perdão.

Três quartos de bebida depois, pôs os dedos médios na goela. Ajoelhada em frente ao sanitário, vomitou Eloá em duas golfadas e, junto dela, todo um passado que, como uma roupa surrada, não servia mais. Em um reflexo de espelho, se reconhecia, agora, no rosto sem sorriso.

Naquela semana, a água do mar havia invadido com força a barra da lagoa que dividia o município litorâneo. A arrebentação explodia sua fúria na ponte de concreto a colar a cidade.

Conduzindo o automóvel pela ligação asfaltada, Camila perdeu os olhos no mendigo. Dormia um sono tranquilo sem ser perturbado pelas gotas de água salgada a respingar em sua face. Alguns passantes em fluxo inverso ao carro deixavam moedas em seu boné encardido prostrado ao chão. Pela forma como tapavam os narizes, concluiu ela ter o sujeito cheiro de peixe podre, claro. Contudo, esse era o preço cobrado pela travessia aos que se arriscavam ao outro lado da lagoa. Chegou a pensar que aquele poderia ser o pai. Como o abordaria naquela situação? Lembraria ele da filha perdida?

O devaneio foi interrompido logo que o indivíduo abriu os olhos para ver dentro do boné as moedas do dia. Os olhos verdes límpidos contrastavam com o pretume da sujeira da face.

Chegou, então, ao pórtico. Como um velho já caquético pela doença, a estrutura de concreto armado expunha seus vergalhões corroídos pelo sal. Uma vez transpassado aquele limite, ela sabia ser difícil retornar.

Das bicicletas aos sorrisos, tudo parecia oxidado pela maresia. Com atenção, um passante poderia ouvir o ranger do caminhar das velhas acelerando o passinho para se proteger da garoa fina a cair naquela tarde de fim de primavera.

Os balanços e gangorras frente à casa acusavam de pronto ser aquele um ambiente infantil. Camila tentou bater palmas, mas duvidou serem esses sons mais altos do que o borbulhar das crianças dentro da residência, já que os gritinhos e gargalhadas eram audíveis ali da calçada.

Esperou alguns minutos sem saber qual a próxima atitude a tomar. Foi então que avistou a pequena figura sorrindo para si. Camila perguntou sobre o nome escrito em mãos, a criança apenas sorriu.

Era uma menina entre cinco e seis anos, não se poderia afirmar. Com a voz fraquinha, questionou-lhe quem era a tia parada ali: seria ela sua nova mãe?

Camila não soube elaborar discurso para responder à menina. Se tivesse prosseguido com aquela gravidez, talvez a pequena fosse sua filha. Talvez Camila e Fausto até tivessem sido bons pais. Talvez pudessem ter sido uma família. Mas era melhor assim. Ele teria de abandonar os estudos e, quem sabe, seu destino de intelectual renomado. Ela, por outro lado, teve medo de ter  cheiro de ovos fritos nos cabelos como a mãe. Agora, questionava-se se esse não haveria de ter sido um futuro melhor.

Mal sabia ela ser a pequena órfã filha das drogas, nascida nas ruas, passando fome e frio. Mas à garotinha não foi oferecida uma opção. Tinha só seis anos e uma vida inteira contra ela. Mas Camila não se interessaria por essa história.

De uma porta lateral, veio a mulher de cabelos densos e negros infiltrados entre os já brancos. A reação dela foi natural ao ver a estranha ali parada: Ivana pôde reconhecê-la mesmo mais de vinte e cinco anos depois; ela sabia que essa hora chegaria.

Aline

Tendo dormido pouco naquele dia, muito pouco pelo sonho atormentado de início de manhã, as olheiras estendiam-se até o meio do rosto. A brancura da pele cansada deixava à mostra, sem a cobertura da maquiagem usual, os mais de trinta passados há alguns anos. 

Entrou no chuveiro por volta das seis, quando era possível ver o alaranjado de céu pela basculante de vidro do banheiro. Os refrescos das noites litorâneas invadiram o box, misturando-se à água quente do chuveiro elétrico. Era agradável a sensação de limpar-se do que era externo àquela casa. Logo esse sentimento seria extinto quando, mais uma vez, Aline rumasse ao Vale dos Ventos. Lá toda tranquilidade do banho quente seria corrompida; toda solidão prazerosa, fatigada.

Entramado II

Foi em um maio chuvoso e de muito pouco peixe que a mulher aparecera na instituição com a bebê ao colo e a menina pelo braço. Vinha marcada por hematomas arroxeados e com um rosto inchado por dias em lágrimas. Agarrava-se às filhas como que se necessário fosse para não afundar ali sob os pés.

A assistente social recém formada, com os cabelos densos ainda negros, colocara a figura frágil para dentro do abrigo. Ofereceu-lhe água com açúcar muito mais para lhe ocupar as mãos trêmulas do que em busca de um efeito calmante. Ela não permitia que as crianças fossem para longe ou mesmo brincassem com as residentes no local. Parecia não querer perdê-las para aquele ambiente tão diferente de onde vieram.

Agora, vinte e três anos depois, repetia o gesto com a moça que a procurava naquela tarde. Pouco esperava a chegada da irmã menor. As cartas da mãe eram endereçadas a Aline, que as recusara durante todos esses anos. Seria certo trair a confiança daquela mulher? Mas, quem sabe, Eloá já tivesse até morrido.

22 de setembro de 1992

Sei que ainda não poderá ler esse escrito e talvez ele nunca chegue em tuas mãos. Mesmo que pudesse, ainda é muito pequeninha tanto pra ler essas palavras quanto para entender o que de fato significam. Desculpa a mãe também por não ser uma grande escritora. Um dia tu vai entender que mesmo não sendo quem tu desejava nos teus sonhos de bonequinha, a mãe te ama.

Me lembro de quando a gente sentava na varanda da nossa casa e olhava pro canal e os botos estavam ajudando teu pai a pescar. O canal andava agitado com a ressaca do mar depois de Navegantes. Devia ser umas 6h da manhã, porque o sol era uma pontinha lá no horizonte. O Lobisomem já andava pelas voltas lá de casa se exibindo todo só pra ouvir tuas gargalhadas. 

Sentamos na varanda para pentear o teu cabelo enquanto teu pai pegava a tarrafa e ia encontrar o boto. O bicho saltava, dava umas arrancadas mais fortes. De várias maneiras, o Lobisomem mostrava onde andava a tainha. Ele trazia o peixe pra nós, quando ele vinha, era fartura na certa. Lembra, filhinha?

Naquele dia deu tanto peixe que a gente foi até comer sorvete de casquinha no centro. Era bem engraçada essa época do ano com toda aquela gente de Porto Alegre nas calçadas do centrinho. A gente gostava de ir ver o movimento, lembra? Teu pai é que não gostava muito daquela multidão, mas a parte boa era a nossa venda do pescado do dia. Mais que sobrava.

Ainda bem, assim tinha um troquinho pro nosso passeio.

Morango com iogurte era o que tu mais gostava. Sempre o mesmo. Acho que tu esperava o inverno inteiro só pra poder aproveitar a sorveteria aberta no verão.

Lembra, filhinha, como a gente se abraçava e tu me dizia que eu era a melhor mãe do mundo? Tu sempre foi um amor. Espero que a vó seja boa pra ti e te ame tanto quanto eu não pude.

Lembra que a maninha chorava um montão e tu tinha que pegar ela no colo pra parar? Ela era bem choroninha, né? Nem deixava a mãe ir no banheiro sozinha. Tu sempre foi um amor, cuidava dela mesmo quando ela estava bem doentinha. 

Tu sempre foi um amor de filha. 

Mamãe espera que a vida esteja sendo boa pra ti.

OBS: a maninha anda bem, não chora mais.

Aline

Aline aplicava o batom vermelho de longa duração. Aquilo dava-lhe um volume extra à face. Viu-se, então, com seus recém dezessete, em frente ao espelho, aplicando um outro batom roubado de uma das farmácias do centro da cidade.

Vestindo a lingerie vermelha, Aline lembrou quando, ainda criança, em passeio pela capital, viu aquelas mulheres de cabelos volumosos e vestidos brilhantes na Avenida Farrapos. Admirou-se pelas suas roupas cintilantes que mais pareciam pertencer à televisão.

Não fazia ideia, entretanto, do que figuras tão deslumbrantes faziam em frente a portas avermelhadas, apenas acreditava tratarem-se de artistas de novela. E, como garotinha interiorana, gostaria de um dia, quem sabe, poder vestir trajes parecidos e com resplandecência semelhante.

Perguntou à mãe quem eram as mulheres que se pareciam com artistas. Indiferente, a mãe respondeu não valer a pena saber; na verdade, elas tiram a calcinha em troca de dinheiro.

Na cabecinha infantil, não pareceu um trabalho tão ruim para tão majestosa aparência. Provavelmente seria isso que um dia iria fazer. Quem sabe, poderia ter um daqueles vestidos luminosos.

01 de junho de 1994

Oi, anjinha!

Hoje fez frio onde a mamãe mora. Eu pensei em ti como todos os outros dias. 

A maninha pediu pra tomar nescau quentinho, e eu acabei fazendo três canecas. A tua ficou sobrando. 

A mamãe tem saudade de quanto tu agarrava minhas orelhas pra dormir. Eu brigava contigo, né, anjinha? Mas não era por mal. Nunca foi por culpa tua. Nada o que aconteceu foi.

Mamãe te ama.

OBS: A maninha foi pra escola pela primeira vez hoje, Quase não quis entrar, mas falei pra ela o mesmo que pra ti: 

– Coragem.

Aline

Aline virou moça aos onze. Com doze, já tinha peitos e cabelos loiros que chegavam até a cintura. Daquele jeito, era difícil de se esconder na camiseta G. Em qualquer caminhada na cidade, algum olhar ficava perdido nela. Pior era quando eles falavam. Ela ainda não sabia ao certo o que significavam aquelas palavras, mas sabia serem sujas. Ela sentia-se suja, mas, depois de um tempo, acostumou-se.

No verão sempre era bem pior. Os pescadores bêbados amigos do pai quase não saíam naqueles tempos de veranistas. Davam lugar para os boyzinhos dos colégios particulares de Porto Alegre. Eles chegavam dirigindo o carro da família ouvindo rocks em inglês que ela não poderia entender. Aqueles, sim, faziam o que queriam.

Ela já trabalhava naquela época nas férias do colégio. No verão, atendia na sorveteria da Avenida da Igreja e sempre caminhava até lá. Mas era janeiro de 1994.

O Escort conversível de capota abaixada começou a andar encostado na calçada. Com quinze anos ela já sabia não olhar para o lado e continuou a caminhada num ritmo mais lento: gostava quando os garotos de Porto Alegre a elogiavam.

Como estava a caminho do trabalho, não aceitou a cerveja, mas os convites foram tão insistentes que entrou no carro.Seria bom sentir o vento batendo no rosto naquele automóvel incrível.

 O mais velho deles nem barba direito nascia na cara, mas ainda assim eram guris. Entrelaçaram os braços com os dela como amigos de longa data no banco de trás. Estavam bêbados e prontos para qualquer coisa. Ali, ela percebeu não poder desistir, sabia ser pior. Perguntaram o seu nome, foram até gentis. 

Uns cinco quilômetros de carro na areia depois, já em ambiente deserto, decidiu o grupo por tomar um banho. Os dois mais novos tiraram os calções e foram ao mar. O motorista a fez sentar no capô. Dizia que era linda com o bafo quente de brahma boca a boca. Ela tentou desvencilhar-se, mas já era tarde. Ele a agarrou pelos cabelos e a beijou. Ela não pôde resistir. Seria pior. Às vezes, não se pode resistir.

Ao fundo ainda podia ouvir a melodia abafada pelos gritos em inglês enquanto suas coxas roçavam na areia úmida por maresia. Não havia a quem recorrer. Às vezes não adianta gritar, Aline.

13 de junho de 2004

Me despedir de ti talvez seja o que de mais difícil terei de fazer durante toda minha vida. Naquele dia, deixei uma parte de mim na casa da tua vó. Ela nem deixou que tu viesse na janela acompanhar nosso fusquinha dobrando a esquina. Ela é rude, mas é uma mulher boa. No fundo, só quer o teu bem. Assim como eu.

Muitas vezes já me peguei pensando se ter ido embora foi realmente o melhor a se fazer. Naquela época, eu nem sabia que outra atitude poderia tomar. Tem dias que coloco a cabeça no travesseiro e fico planejando outras formas de escapar do horror em que a gente vivia. No centro dos meus planos, sempre consigo te levar junto. 

Agora, tendo estudado um pouco mais, percebo que poderia ter cortado relações com teu pai sem que precisasse te deixar aí com a vó. Poderíamos ser felizes, eu, tu e a maninha. Me desculpa, filhinha. A mamãe nunca foi das mais inteligentes. 

Conversei com uns amigos. Eles me disseram que eu poderia pedir a separação e proibir que teu pai chegasse perto de vocês. Eu nunca me imaginei sequer lendo um livro completo, quanto mais indo falar com um juiz. Além do mais eu tinha medo que ele fosse preso. Não sei se isso poderia ter acontecido, mas eu teria pena dele. Eu não queria prejudicar mais ainda uma vida de quem já viveu de forma tão difícil. 

Eu também amei ele. Amei muito. E sabe, né, sempre depois que ele fazia alguma coisa contra a mamãe, no outro dia ele sempre ficava muito querido. Uma vez me trouxe até café na cama, lembra? O bicho pegava de verdade quando ele saía pra beber com os amigos quando a safra da tainha tava boa. Aí era dureza. Parecia que ele era o sujeito mais rico do mundo. 

Eu tenho vergonha de dizer, mas já cheguei a pedir pra Nossa Senhora dos Navegantes pra mandar a tainha pras bandas de outra cidade. Sabia que a gente ia passar dificuldade, mas pelo menos ele não ia beber todo dia. O problema é que minhas orações foram atendidas, mas ele arrumou um jeito mais barato de se embebedar. Depois da cachaça ele nunca mais foi o mesmo. Nem comigo, nem com vocês.

Na primeira vez que ele chegou com bafo de marisqueira em casa, ele gritou comigo. Vocês não paravam de chorar. No outro dia, ele me empurrou na cama porque tinha visto eu conversando com o Marcos, aquele amigo dele. Ele me disse que eu não tinha que falar com macho nenhum na rua a não ser o padre. Na semana seguinte, ele me deu o primeiro soco porque não gostou da forma como a minha saia ficava curta quando eu ia catar marisco na praia com vocês. Depois disso, perdi a conta. Tudo era motivo pra cachaça. Tudo foi motivo pra me bater.

Mas teve o pior, filhinha. 

A maninha era pequeninha, ela tinha muita dorzinha de cabeça. Me lembro que às vezes a gente tinha que deixar ela num quarto escuro de tanto que ela gritava de dor. Tu  era sempre muito querida, ficava ali segurando a mãozinha dela e contando historinha quanto tempo fosse preciso. Mas teve um dia que ela tava pior. Bem gripada, a sinusite piorava muito. Teu pai chegou do trago, fedendo a cigarro do Paraguai e a perfume daquelas putas da Estrada do Mar. Ele entrou no quartinho de vocês e gritou muito com a maninha. Disse que ela era um fardo, que não ia servir pra nada, que era melhor que tivesse morrido no parto. Tu só chorava e pedia pro papai parar, não sei se tu te lembra. Naquele dia eu fiz as malas, mas não fui embora.

Não fui porque de manhã quando já tava sóbrio, o teu pai pegou ela no colo e chorou de remorso. Eu fiquei morrendo de pena dele. Ele tava doente também. Fui falar com ele pra procurar ajuda, quem sabe o grupo do AA que tinha na paróquia. Ele me mandou a merda e disse que ele não era alcoólatra, que só tava nervoso. Eu fiquei. 

Bom, não comecei a te escrever para contar essas coisas, só quero falar de coisas boas!

A mamãe tem um namorado já faz tempo. A gente se vê nos fins de semana, nunca foi sério. Mas agora vai ter que ser diferente. Acho que vamos abrir alguma coisa. Tomara que dê certo, daí já consigo guardar um dinheirinho pra ti fazer teu curso de cabelereira. Não sei se ainda quer ter um salão como aquele que tinha com as tuas bonecas, mas a mamãe vai te apoiar. Quem sabe até fazer faculdade, pode virar advogada! Imagina, Juíza Aline! 

OBS: a maninha mandou um beijo e disse que te ama.

Com amor.

Aline

Aline decidiu que seria puta quando foi estuprada pela primeira vez. Contudo, quando foi à noite ao posto de gasolina naquele começo de verão, não sabia com quantos já havia se deitado. A qualquer um que lhe dispensasse elogios ou outras coisas agradáveis ao ouvido oferecia o que queriam.

Com 16 anos, já havia abortado levada pelo braço da avó. Quase morreu naquele dia, o que lhe deu vontade de, pelo menos, ganhar algum dinheiro com sexo.

Então, em uma sexta-feira santa, foi às ruas. Com um conjunto de saia e blusa floral de pouco mais de quinze reais, um sapato plástico sem valor e o batom vermelho de péssima qualidade nos lábios.

Das boleias, os caminhoneiros logo perceberam tratar-se de uma novata. Eles a mostraram o que fazer e não se incomodaram com as lágrimas escorrendo de seu rosto. Inclusive, pareciam ficar excitados com o choro de criança. 

Conseguiu, só naquela noite, duas vezes o que o salário da sorveteria oferecia em um mês durante a alta estação de verão. Em casa, ninguém pareceu importar-se pela origem do dinheiro de Aline. Sabiam não ser proveniente da sorveteria o montante que ela punha sobre a mesa após o fim de semana. Aceitaram justificativas vagas e pouco desenvolvidas. Abençoada fosse, dizia a avó.

Na sexta à tarde, Aline fazia uma pequena mala e embarcava no ônibus pinga-pinga interpraias. Quase 100 quilômetros dali, entrava no banheiro da rodoviária e partia para o posto de gasolina de beira de estrada. Deixava para trás a molequice da brincadeira com os botos e punha-se em armadura de mulher.

Tudo andava tranquilo, ela já havia firmado clientela quando, no terceiro mês de trabalho, apareceram dois sujeitos em um Monza de um dourado metálico. Inicialmente, Aline acreditou serem clientes, já havia participado dessas orgias com alguns vendedores de passagem. Assim que recostou-se à janela, algo que aprendera com os filmes norte-americanos, viu a arma na cintura do motorista. Enfrentou, entretanto, a situação e prosseguiu a encenação segurando o suor frio a escorrer pela nuca.

Os estranhos perguntaram para quem ela trabalhava, por que estava ali sem um representante. Ela, cheia de si, algo característico de uma adolescente, disse que trabalhava sozinha, muito obrigada. O desconhecido retribuiu o sorriso agarrando-a pelos cabelos e colocando-a dentro do carro pela janela do motorista mesmo.

Primeiro eles a levaram para o meio do mato rasteiro às margens da BR 101 e a estupraram um de cada vez. Depois a trancaram em um quarto de motel também à beira da rodovia. Pouco a alimentaram, mas se deleitaram com seu corpo da forma que quiseram. Isso é o tipo de coisa que um cafetão faz para partir o espírito de uma jovem. Tira dela o resto de inocência ainda presente em sua alma. 

Ao final de três dias, o mais novo pareceu compadecer- -se com a situação de Aline. Prometeu, então, cuidar dela. Se fizesse o que ele pedisse, isso não aconteceria mais. Ela chorou e agradeceu atitude tão clemente beijando-lhe os lábios. E foi assim que passou a fazer programas agenciada em pequenos puteiros da Estrada do Mar.

Chegou em casa um pouco machucada, pediu desculpas à avó por não ter avisado da ausência no fim de semana. Tudo ficou resolvido quando entregou as notas de cem reais nas mãos da velha.

Pôs, no agora, a saia colada de tamanho mínimo. Conservava ainda, mesmo não sendo mais tão jovem, o manequim 38 de anos atrás. Vestiu os peitos no decote provocativo, acarinhou o gato vira-latas  enroscado no canto do sofá. Na bolsa, maquiagem para retoque, uma calça jeans e uma calcinha de algodão confortável para a volta para casa. Deixou as plataformas acamurçadas no banco de trás do carro e deu a partida. Seria mais uma noite entre drogas e outros prazeres artificiais.

Entramado III

Sentada com os papéis amarelados pelo tempo, Camila estava tomada de um nada. Não reconhecia a si, a mãe ou muito menos a nova personagem entramada em sua vida. Era a caçula de uma irmã mais velha desconhecida, mas com quem, presa ao tempo das fotos e das cartas, tivera seu passado.

Mas, quem era de fato Aline? A irmã carinhosa a segurá-la no colo nos registros do passado ou aquela a sequer querer ler as cartas da mãe? Na verdade, Camila se perguntava se não faria o mesmo com uma Eloá ausente, como aquela a abandonar-lhe. 

Crescer sem pai é realidade fértil em terras brasileiras. O abandono paterno é comum e são muitos os casos que conhecemos de filhos criados somente pela mãe. Contudo, para Camila, era inconcebível para uma figura materna deixar sua pequena aos cuidados de outros, mesmo familiares. Aline não deveria, de fato, perdoar Eloá. Nem ela, Camila, que agora parecia conhecer a história, a teria perdoado.

Ainda mais algumas cartas e bilhetes padeciam com o tempo no envelope de papel pardo que a entregaram em mãos. recolhia as notas de cinquenta reais. Eram cartões de aniversário e também aqueles estampados por mensagens de feliz natal. Queria ter lido todos os registros naquele mesmo dia, mas agora era hora de descolar-se do pretérito e partir para outro tempo verbal. Precisava conhecer, ou reconhecer, não sabia ao certo, a irmã.

O conhecido era que a mãe sofrera algum tipo de violência para chegar ao ponto de rumar à capital. Mas, seria esse motivo justificável para causar tamanho dano à vida das irmãs? E seu pai seria mesmo um sujeito capaz de tal atitudes? Eloá sempre fora exagerada em suas paixões e em seus desafetos, talvez pudesse ter contornado a situação de outra forma.

A assistente social não pôde auxiliar Camila com seus conflitos internos e dúvidas pertinentes. Não sabia nada sobre Eloá anteriormente ao dia em que essa ali aparecera com as crianças nos braços. Por certo andava machucada em corpo e mente. Ela tentou auxiliá-la oferecendo abrigo temporário em sua casa, algo que nos dias atuais jamais faria, coisa de fulgor de início de carreira. Eloá vinha trêmula, mas pouco abriu-se para aquela a estender-lhe a mão. Segurou o copo de água com açúcar durante vinte minutos sem levá-lo à boca enquanto olhava as meninas brincando no balanço. A maior embalava a pequena, que se finava em gargalhadas. Devolveu o copo à jovem assistente e saiu levando as meninas: eram felizes as duas, pelo menos.

De Aline, pouco sabia a agora senhora. Soube que, após a morte da avó, mudara-se para a cidade de Torres sem muito deixar por ali. Deveria ter uns dezoito ou dezenove anos na época. Agora, só é vista naquelas terras de quando em quando. 

Enquanto Ivana narrava o que sabia sobre Aline, Camila criava mentalmente uma irmã parte a parte. Colocava-lhe uma voz doce ao repetir seu nome ou a cobria de beijos em uma festa de aniversário nunca vivida. Deveriam ser parecidas as duas, mesmo que não na aparência. Aline fazia-se linda como Eloá. Herdara da mãe os olhos cor de mar. A ela, por sua vez, restava-lhe as fundas olheiras escondidas por de trás das grossas hastes dos óculos e o rosto sem expressão como o do pai. Do pai? A palavra soava falsa em sua imaginação.

Quem era Aline? Dentista, enfermeira, talvez professora? Gostava de músicas antigas ou adepta aos sertanejos dos dias atuais? Era de esquerda ou de direita? Que tipo de bandeiras empunhava a irmã?

“Tua irmã é puta, Camila”. E isso foi tudo o que Ivana pôde dizer.

< Parte quatro

Continua…

Dois nós
Romance
Carolina Panta
135 p.
14 x 21 cm
978-85-53074-52-5
R$ 35
Editora Metamorfose

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