Folhetim LRS: Dois nós, Carolina Panta (parte quatro)

Arte: Giovani Urio

VI

Clarice julgou procupante minha ausência no aniversário da bebê. De minha parte, andava tranquila entre garrafas de cabernet vazias já formando uma bela coleção na cozinha. Passava as tardes fora da faculdade, acompanhando pela TV receitas de chefs pelo mundo. As andanças de outros transportavam-me para fora da casa carregada do cheiro de minha mãe.

Ela apareceu por lá umas onze da manhã de sábado. Persianas fechadas, o lixo tornou o apartamento um covil. Me fez acordar e tirar o pijama sob protestos. Iniciei a faxina para acompanhá-la, aproveitei esse força motriz de Clarice que eu obviamente sabia não ser minha. Colaborei. Afinal, ela era a última pessoa a se importar com meu bem-estar.

Juntando o lixo do banheiro na sacola do supermercado, ouvi Clarice perguntar se aquele era dia de coleta. Parei um instante para rever a informação mentalmente. Eu não soube responder. Eu não tinha ideia de quando o caminhão conduzia nossos dejetos a alguma zona periférica. Na verdade, eu nunca precisei saber. Eloá resolvia tudo sempre.

Entre aquilo desconhecido por mim estavam tarefas bem simples como, por exemplo, cozinhar. Nem em tempos de Fausto atrevia-me senão a ser espectadora dos mesmos programas culinários da TV naquele dia. As contas sempre já pagas tampouco desviavam minha atenção exclusiva às questões acadêmicas. Pensava eu o mundo nas aulas de política, refletia sobre processos de participação popular, mas não pagava meus gastos com o celular.

Nunca havia pensado em como fui carregada por aqueles que me amavam. Meus problemas sempre acima, todos ouvintes de minhas expectativas, espectadores de minhas realizações.

Certo é que, depois do primeiro infarto de Eloá, eu quem troquei seus curativos e limpei seus pontos. No começo, ela não teve escolha senão aceitar ser ajudada a usar o comadre sob a cama. Semanas depois já fazia quase tudo por si e foi dispensando, aos poucos, meus cuidados. Negociava com os gerentes de banco e pagava fornecedores pelo telefone. Acho que percebia meu olhar perdido nos galhos das árvores pela janela. Eu era jovem demais para entender, talvez, a finitude daqueles momentos. A juventude nos traz a ilusão do eterno.

Eloá permitiu-se aos meus cuidados. Fez isso com caráter pedagógico de quem deseja, por trás de uma atitude, ensinar uma lição. Quem sabe achasse ter feito bem em infartar. Assim, eu aprenderia aquilo a que fui poupada durante os anos e idos dos tempos passados entre páginas de livros.

Mas aquilo a conduzir meu olhar para longe do seu quarto não eram os conteúdos da pós-graduação. Era Fausto e as noites dispensadas em conversas de bar. Me faltava o gosto da cerveja e dos cigarros mentolados em discussões sobre o preço da passagem em Porto Alegre.

Pensava, enquanto dobrava os lençóis, em como ele ficava confortável em minha ausência, preso a conversas com outras vozes.

Deixou de ir, aos poucos, aos almoços de sábado durante o período de convalescença de minha mãe. Ele precisava estudar para o mestrado. Eu, sinceramente, não me importava com a sua ausência. Na época, pensava me importar, mas ele já não era um bom espectador para minhas narrativas de enfermeira.

Sentada na poltrona ao lado da cama de Eloá, eu olhava os primeiros brotos saindo das pontas das árvores já castigadas demais pelo frio. Me preocupavam algumas conversas de internet no computador da sala de Fausto. Eloá havia me liberado para um passeio à tarde, eu já estava precisando pegar sol. Cheguei na casa dele sem avisar.

A troca de elogios entre falas corriqueiras sobre o início do calor compunham a explanação. Flertavam linguisticamente por meio de ambiguidades e construções frasais quase inofensivas em um primeiro olhar. Desejava Fausto, de fato, a solidão dos estudos ou minha ausência? O silêncio foi minha decisão. Mas havia muito mais em Fausto. Foi nessa época que decidi ser tempo de vivermos juntos.

Eloá me expulsou da cabeceira de sua cama naquele dia de início de primavera quando as primeiras flores do ipê roxo começaram a nascer. Ela percebeu algo em mim que eu mesma ainda não poderia decifrar.

Agora não importavam Fausto, Eloá e nem mesmo o preço da passagem. Agora, apenas o lixo.

2008

A música do plantão de notícias tirou os clientes do fundo dos pratos. A entrada do flash ao vivo mostrava um conjunto habitacional cercado por viaturas policiais enquadrado na tela.

A situação estendia-se já havia cinco dias. Estava tramada por clímax e reviravoltas tal qual a novela das nove. A adolescente à janela chorava como em um capítulo final. De muitos ângulos diferentes, os espectadores poderiam acompanhar o drama das garotas mantidas sob a mira do 38 de um atirador há quase 120 horas.

Não havia movimentação feita pela polícia não flagrada pelas emissoras acampadas nos terrenos baldios vizinhos ao prédio. As câmeras penduradas a gruas também não perdiam agitação sequer nas janelas do apartamento de quarenta metros quadrados. Nenhuma lágrima seria derramada sem entrar em foco. Uma alta tecnologia de microfonia fora importada dos Estados Unidos para que ninguém perdesse os diálogos entre sequestrador e negociadores.

Os primeiros reféns foram libertados logo nas primeiras vinte e quatro horas. Eram dois garotos ainda em uniformes da escola. Restaram em cárcere as duas amigas de dezesseis anos.

Para a emoção do público brasileiro, houve, ainda, a exclusiva inserção ao vivo via ligação telefônica do sequestrador no programa da tarde. A apresentadora questionava o rapaz sobre os motivos para tal atitude desmedida enquanto, ao fundo, ouvia-se soluços. Ele estava disposto a matar, era questão de tempo. Sob protestos de que jogaria sua vida fora, desligou o telefone vitorioso pela performance em rede nacional.

Lá de trás, a cozinheira gritava alguns filhos da puta ao jornalista narrador da atual situação em Santo André. O bar a esse meio-dia já vinha cheio dos operários da construção civil responsáveis pelo descascamento de pele morta dos prédios, dando lugar a superfícies envidraçadas. A mulher entregava as a la minutas enquanto acompanhava o drama da garota paulista de nome igual ao seu. Não era, contudo, apenas o batismo unidor de suas histórias. Um pedido de suco de laranja a resgatou de um passado. Apagou o cigarro já no filtro e retornou à cozinha.

VII

A porta do quarto mantinha-se fechada quase todo o tempo desde sua partida. Encerrando um mundo dentro de si, bloqueava a visão do sol dançando nas pontas dos galhos da janela. Seria bonita aquela luz refletida nas tramas douradas da colcha. Na penumbra, o perfume de creme hidratante ainda tomava os espaços entre a mesa de cabeceira e a penteadeira de madeira escura.

Já era tempo de doar os pertences de Eloá. Eu havia entrado em contato com uma imobiliária para vender o apartamento do Bom Fim. O restaurante ficaria a cargo da cozinheira mais antiga, eu só receberia os depósitos mensais.

Procurei alguns cursos para fazer na Europa, mas decidi ir sem rumo. A academia já me sugara demais. Eu queria a liberdade de beber sem um artigo a ser escrito. Ir à Lisboa e andar na tranquilidade lusitana do bonde 28, em uma subida de colina com a trilha sonora do atrito entre ferragens.

Pude imaginar-me em alguma parte de Montmartre, em Paris, circulando com uma bicicleta e cabelos mais curtos. Poderia entrar nas ruelas do bairro e observar as velhas senhoras estendendo lençóis à janela. Depois, na rua Abbesses somente para contemplar a estação de metrô art nouveau. Na esquina da rua Trois Frères com a Tardieu, faria uma parada, para, então, seguir as escadarias até a Basílica de Sacré Cœur. De lá, vislumbraria Paris. Nem Camila, nem professora, nem amiga de Clarice, filha de Eloá ou mesmo mulher de Fausto. Seria eu Paris.

Restava, contudo, resgatar da papelada engavetada os documentos para a venda do apartamento. Restava o guarda- roupa cheirando a sabonete. Restava despedir-me, de vez, de minha mãe.

Por sempre manter o mesmo 38, o armário era uma arca através das décadas. O vestido de flores usado durante nossos passeios em minha infância ensolarada ainda estava lá. Lembro de como a via brilhar os olhos e cabelos dourados quando caminhávamos pelo parque em tardes de janeiro. Contava-me como haviam se conhecido, ela e meu pai, e a forma trágica como ele morrera em um acidente de carro meses antes de meu nascimento. Ela, já sem família viva, não teve outra alternativa senão vir comigo no ventre procurar faxinas em Porto Alegre. Saiu da cidade de litoral para tentar a sorte na capital. Eu sempre acreditei ser essa perda o motivo de seus choros noturnos, escondida entre cobertas, enquanto eu ainda era criança.

Eu nunca pude entristecer-me por um pai que não tive, um sujeito ausência. A não ser em algum momento da infância, quando em uma aula de ciências descobri haver botos na lagoa daquela cidade. Eloá disse que os botos foram embora havia muito tempo. Eu acreditei, mas, mesmo criança, compreendi ser aquele um lugar para nunca ir.

Em uma prateleira escondida, ainda jaziam algumas roupas de Rogério. Na época, não soube o motivo do término do relacionamento dos dois. Ele foi o único namorado dela que conheci. Nunca chegou a morar conosco, é verdade, mas sua presença era constante no térreo de dois quartos da Cidade Baixa, alugado nos tempos de Pensador.

Pela quantidade de roupas guardadas, acredito que o fim do relacionamento ter ocorrido de forma bruta e rápida, da qual eu não fui testemunha.

Revirando outros cantos, debaixo da cama encontrei as bolas de natal. Eram de vidro prateado tão frágeis que não resistiriam a um apertar de mão, bem diferentes daquelas de plástico chinês de anos depois. Pude ver-me com seis anos refletida na orbe. Do reflexo, contemplei a sala do nosso JK sem mobiliado de muitos tempos. A cama de casal ficava ao fundo abaixo da única janela do ambiente. Vi, no espelhamento circular, meu uniforme azul marinho da escola e minha mãe fazendo a janta no pequeno fogareiro de duas bocas de acampamento.

Encontrei, entre as roupas de frio, o pequeno conjunto de luva e touca rosa tricotado por nós no apartamento de dois cômodos. Era tão frio à noite. Para me fazer dormir, Eloá contava histórias sobre povos do norte que também vestiam toucas para aquecer seus sonhos.

Chorei engasgada quando lembrei de cada entardecer em que a acompanhava, pela janela, até virar a esquina saída rumo ao trabalho de garçonete. Eloá deixava as instruções coladas na geladeira. Eram orientações sobre como proceder em uma emergência e tudo o que eu deveria fazer em uma situação de falta de luz. Velas estavam proibidas, assim como, sob hipótese alguma, abrir os três cadeados da porta com a fechadura estragada. Ninguém entraria, nem mesmo o senhor de boina, dono da nossa casa.

Eu nunca agradeci Eloá pelos chás de bonecas promovidos nos domingos. Nunca lhe dediquei um obrigada pelo esforço em busca de livros usados nos sebos da Rua Riachuelo. De fato, eu, ainda bem pequena, não me sentia confortável com os materiais de anos passados repletos de orelhas por estudantes descuidados.

Sentia-me diferente, ainda, por não poder comprar lanches no bar da escola. Não gostava das bolachas recheadas de 35 centavos divididas no pote para durar mais de dois dias. Me desculpa, Eloá, por não agradecer todo o teu esforço. Sozinha com meus temas, na hora do recreio, lembro de quando conheci Clarice. Ela me ofereceu sua merenda, eu recusei. Sem pensar duas vezes, aquela menina riquinha meteu as mãos em minhas bolachas e as comeu como se fossem não custassem 35 centavos. Aos seis, ganhei Clarice. Aos trinta, te perdi.

A história de Eloá dormia, agora, nos sacos de lixo preto. Seria dividida entre asilos e instituições de apoio a crianças excepcionais. Depois, etiquetado e vendido a três por dez seu vestuário de segunda mão.

Muitas eram suas roupas pretas de trabalho. Após Rogério, também passou a esconder sua formosura na ausência de cor. Andava enlutada para apagar a força dos olhos azuis.

Nunca agradeci minha mãe pelo cheiro de gordura impregnado em seus cabelos nos dias e noites de trabalho no Pensador. Muito menos disse obrigada por suportar os velhos aposentados que perdiam olhares em seu decote no restaurante tempos depois.

Encontrei o caderno de contas mensais em uma gaveta entre outros papéis. Desconhecido seu conteúdo, suas páginas sempre foram mistério para mim. Pouco me interessei por aqueles números e notas fiscais mesmo quando Eloá perdia noites a resolver o quebra-cabeça orçamentário. A contabilidade do Pensador já estava com a cozinheira. O caderno de capa preta em minhas mãos referia-se ao orçamento doméstico. Caberia a mim analisá-lo, fechar contas e cancelar cartões.

Tínhamos despesas além de minhas expectativas, mas tudo era dentro do organizado. Os rabiscos numéricos em tinta azul traziam grandezas de valores além do que eu esperava.

Ao canto da página referente a cada mês, havia duas quantias debitadas. O montante era creditado em duas contas correntes há quase cinco anos. Imaginei de pronto serem despesas médicas, já que coincidiam com o ano do primeiro infarto.

Fiquei intrigada, contudo, pois todas as outras despesas eram nominais. Mas ali, no canto da página, figuravam apenas algarismos em sequência aleatória a formar um código indecifrável para mim.

Entre uma parada e outra para abraçar roupas vazias, fui apagando, aos poucos, sua presença material em minha vida. Dobrando casacos e cobertores, ensaquei, também, a minha dor.

Arrastei uma coberta pesada do fundo inferior da última porta do armário. O cobertor em meus braços bloqueou a visão, mas pude ouvir o baque do baú em contato com o chão. Eloá tinha muito mais ali do que eu poderia imaginar.

Fui transportada para a figura morta de minha mãe pela arca em mogno que tanto se assemelhava em cor ao seu caixão. Fui levada ao cheiro de velas e crisântemos artificiais de tão azuis.

Estava trancado. Deveria arrombar o baú a fim de satisfazer a minha curiosidade? Teria, eu, direito de violar Eloá?

2012

A iluminura branca do sol da manhã contrastava com as pesadas roupas escuras dos passantes. Entre toucas e mantas, sobrava pouco de pele para ser vista. A frente de ar polar vinda das bandas da Argentina tornara-se um desafio a mais à rotina dos porto-alegrenses. Com temperaturas tão baixas, não havia graça em ver as moças da escola de cabeleireiras passar, pensava o porteiro do prédio Altos do Parque na rua Vasco da Gama.

As roupinhas floridas de verão eram de encher os olhos quando a brisa batia nas saias. Que deus o perdoasse, mas aquelas gurias eram muito safadas. Agora, não sobra o que assistir. O único vento a circular era aquele Minuano cortante e gelado de esfriar esqueletos e desejos.

O interfone tocava incansável. Do lado de fora do prédio, em sua ronda matinal, o porteiro não pôde ouvir. No apartamento 305, a única claridade era proveniente da janela de persiana entreaberta da sala de jantar. A mesa posta para uma pessoa apresentava-se convidativa. Se seguisse pelo corredor com espelhos e fotos emolduradas, um espectador poderia ver ali o retrato de amor e cuidado de uma mãe com sua filha.

O diploma do jardim de infância acompanhado com a foto da menina sem dentes mostrava-se no centro da galeria. Ali, à esquerda, estavam dispostos diversos certificados de honra ao mérito por desempenho escolar, bem como uma medalha de ouro da olimpíada nacional de língua portuguesa.

A mesma menina sem dentes apresentava-se, em outra moldura, vestida a rigor com uma toga ritualística de formanda. Tornou-se uma mulher de aparência cansada e nem mesmo a maquiagem feita à data poderia mascarar suas olheiras. Contudo, ainda permaneciam as sardas a acriançar seu rosto em contraste com a armação densa de seus olhos míopes.

Desviando o olhar das fotos, estaria o visitante em frente à cozinha onde a tranquilidade familiar do apartamento estaria corrompida.

Os cacos do prato duralex dominavam todo o chão da peça. Havia chuviscadas gotas de sangue no piso branco. A mulher deitada ao chão ainda segurava o interfone em um estado de dor e semiconsciência. Talvez tentasse falar com o porteiro.

O som da vibração do celular a resgatou do sono provocado pela aula sobre processos culturais da pós- modernidade. Na tela, era o número da mãe. Desconsiderou a ligação e prosseguiu na tentativa de se manter acordada ao embalo da voz macia do professor, grande referência na área.

Saindo da sala da pós-graduação, tentou um café para desenrijecer os dedos vermelhos pelo frio. Lembrou de retornar a ligação à Eloá. Do outro lado, três toques depois, atendeu a voz masculina: graças a deus a senhora ligou, dona Camila.

Com o crachá contendo a identificação, foi liberada pelo médico a entrar na UTI da Santa Casa. O silêncio ocupava os espaços entre os respiradores artificiais. Esperava encontrar a mãe desacordada e enredada em cateteres. O que viu foi Eloá deitada na cama a recebendo com um sorriso de quem tentava disfarçar a dor.

Desconcertada pela tontura misturada ao cheiro de éter, Camila concentrava-se, também, para disfarçar a tontura provocada pela unidade de tratamento intensivo. Perguntou se a mãe estava bem, recebeu respostas positivas. Logo que pôde, trocou de assunto e passou a falar sobre amenidades do noticiário de início de tarde. Contou sobre o absurdo de ter recebido um artigo com atraso do professor. Fausto mandava lembranças; não pudera ir, estava no trabalho.

Presa a si, ao som de suas palavras, não pôde reparar no sangue escuro que circulava pela máquina e voltava à mãe. Ignorou os batimentos fracos captados pela máquina ligada ao peito. Sequer percebeu um opaco nos sempre brilhantes olhos da mulher.

Eloá pouco falava, mas não era pela fraqueza do infarto fulminante. Emudecida, olhava, aliviada, para a filha por não a ter abandonado sozinha naquela fria manhã de junho. Camila já era adulta, é verdade, mas seus vinte e alguns anos não lhe foram suficientes para amadurecer.

Mais tarde, sentada à cama da mãe já no apartamento, a filha chorou pela primeira vez naquele dia. Chorou por medo. Pouco estivera sozinha. Não soube o que era olhar-se no espelho e ter só a si.

Juntando os cacos no chão da cozinha, misturava o sangue da mãe ao que saía de seus próprios dedos. O vermelho transportou Camila aos joelhos ralados tratados a base de mertiolate e sopros. Lembrou-se do braço fraturado na segunda série e das horas à espera de atendimento nos corredores do Hospital de Pronto Socorro.

Agora, todos cuidados dispensados em tipoias enjambradas e bandeides estariam a seu encargo. Seria ela, nos próximos anos, quem levaria a mãe ao médico e verificaria sua pressão arterial. Trocaria, mais tarde, os curativos dos pontos dados junto ao osso esterno quebrado na cirurgia de safena que viria depois. Afofaria travesseiros, estenderia lençóis.

Sob os cacos se recompôs. Aceitou o novo papel a si destinado. Quando adormecida a mãe pelos remédios de uso controlado, Camila cantarolaria canções em seu ouvido. Eloá dormente seria levada à infância em brisa de mar.

O frio do inverno consumiu mais de trinta por cento de músculo cardíaco. Os meses seguintes em repouso fizeram queimar uma espera: tudo permaneceu congelado. Naquele ano, o peito de Eloá ardeu e morreu em baixas temperaturas para, pouco a pouco, talvez, voltar a germinar como os ipês de sua janela no começo de setembro.

A mulher e o barco

Um ponto no espaço-tempo pode ser designado como acontecimento. Na trama da malha física organizadora de dimensões, são esses contatos definidores de nossa existência. Não sendo somente um evento físico, a formação de tais nós trata de transcender os limites da existência que nos faz carne. E, nessa encruzilhada do acontecimento, viramos arquétipos, nos tornamos metáforas.

Quatro eram as fotos ali guardadas no baú junto a alguns envelopes sem destinatário. A primeira vista, de várias épocas por seus tamanhos e cores diferenciados.

O registro sépia mostrava, sobre o leito de seda da lagoa, uma pequena embarcação. Dentro dessa, uma jovem mulher sorria para a objetiva de maneira a mostrar sua alma.

As mechas de cabelo dourado mantinham-lhe a beleza emoldurada. Ensolarada, a Eloá garota punha-se feliz no barquinho branco que estampava seu nome. Os olhos azuis amarronzados pela cor da imagem diziam sentimentos irreconhecíveis para mim.

Ao verso, as letras engarranchadas estampavam um Dezembro de 1977 em tinta azul.

Quem seria aquela Eloá?

< Parte três

Continua…

Dois nós
Romance
Carolina Panta
135 p.
14 x 21 cm
978-85-53074-52-5
R$ 35
Editora Metamorfose

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