Maiara Alvarez: Sonhos de unicórnio

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Será um cavalo? Um alazão? Não, é o Cara-Unicórnio, o super-herói mais super e mais unicórnio que você vai ver hoje. Vamos acompanhar as primeiras de suas séries de aventuras!

Ok, eu geralmente trago um tom mais intimista, creio, às resenhas do Literatura RS. Entretanto, embora a história em quadrinhos da qual eu falo hoje levante o que há de mais leve em mim, tampouco deixa de ser profunda, e trata, de maneira igualitária, tudo o que é óbvio e tudo o que não é.

Tanto quanto à narrativa, quanto aos personagens, as referências são muitas e acrescentam um fundo mais que colorido ao cenário da vida de David, a identidade secreta do Cara-Unicórnio (bom, talvez não tão secreta, já que o vídeo do dia em que ele se transformou em unicórnio esteja disponível na internet). Elas vão desde as histórias em quadrinhos clássicas dos super-heróis até a cultura popular e a política brasileira. Tem a tia Elle, que lhe dá os melhores conselhos — e é a minha personagem favorita e seu arco vai se revelando de uma maneira muito fofa —, uma doutora cientista que faz experimentos com raios radioativos, um pequeno garoto muito corajoso que é capaz de se sacrificar para salvar um indefeso unicórnio, uma repentina transformação, uma série de descoberta de poderes hilária, um topete que cai sobre os olhos do herói, um ser misterioso que visita David na quietude da noite, e um interesse amoroso que aparece justamente sempre onde está o nosso herói a salvar o dia.

Como você pode ver, a base narrativa envolve muitas coisas que poderiam acontecer conforme o esperado por pessoas que acompanham quadrinhos ou super-heróis no cinema, o que faz com que as quebras, que acontecem de forma que até parece aleatória, como se Adri A. estivesse jogando dados para decidir mudanças, fiquem muito engraçadas.

Em geral, não trago críticas às minhas resenhas, pois acredito nesta coluna como um espaço de valorização de coisas excelentes sendo produzidas por aqui no Rio Grande do Sul, o que definitivamente inclui Cara-Unicórnio. Como acho que, no caso de Adri A., vale a contribuição e o espaço de escutatória, creio que as próximas histórias têm ainda mais a ganhar com mais mulheres com atitudes positivas nas cenas. Tia Elle é um ótimo exemplo, entretanto, as outras personagens estão dispostas em posições contrárias ao herói, e há um inimigo monstruoso que me traz uma imagem incômoda.

O tom dos desenhos é bastante dramático, com reações exageradas que eu adoro, mas Adri A. equilibra esse pertencimento ao gênero com diálogos que assumem um outro nível de discussão. E não posso deixar de incluir aqui uma das minhas passagens preferidas neste sentido.

— E uma violência dessas não é motivada por mera rivalidade entre herói e arqui-inimigo ou algum plano mirabolante.
— O que motivaria esses assassinatos, então?
— Não é óbvio, baby? A motivação é o mais irracional, intenso e genuíno ódio.

Também tem muitos problemas e resoluções que surgem e desaparecem sem grandes explicações, e até isso me parece uma provocação-homenagem aos quadrinhos clássicos. E muitas, muitas bobagens com as quais eu ri. Finalmente, acho que a maior qualidade deste primeiro volume está em como o imagético criado por Adri A. nos momentos mais intensos depõe o imaginado. E isso, para mim, é essencial em uma forma de arte que se vale de colocar por desenho no papel muito de como verei a história.

Só posso me perguntar: Is this real life?

Adria A. é ilustrador, quadrinista e gay. Começou publicando tirinhas e histórias ilustradas na redes sociais e em fanzines editados por ele mesmo. Cara-Unicórnio nasceu como uma webcomic iniciada em 2016, como o volume 1 posteriormente lançado em formato impresso com uma campanha de financiamento coletivo. O segundo volume da série, que deve estar chegando no final do ano, pode ser apoiado no site Catarse.

Cara-Unicórnio Volume 1
Adri A.
Quadrinhos
R$ 30
Edição do autor

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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