Tônio Caetano: “Na escrita, a personagem feminina me parece mais profunda”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de Rafael de Oliveira

“Eu poderia dizer que aqui é terra de escritor que tira leite de pedra, aquela verdade de ‘A pessoa é para o que nasce’, que eu vejo em muitos escritores com menos condições financeiras, mas que estão voando”. É com ponderação que o porto-alegrense Tônio Caetano vê a realidade da cena literária da capital gaúcha. Nascido em 1982 e servidor público municipal, Tônio é o vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2020 com Terra nos cabelos, livro de contos que percorre diferentes aspectos das existências femininas e que será publicado e distribuído pela Record. O anúncio foi feito no dia 19 de junho no Facebook e no site do prêmio.

Especialista em Literatura Brasileira pela PUC-RS e egresso do Curso de Formação de Escritores da Metamorfose, tem publicações em diversas antologias, como na coletânea Ancestralidades – Escritores Negros, lançada em outubro de 2019 e resenhada por Literatura RS.

O livro de Tônio foi escolhido entre 666 inscritos na categoria. A comissão final foi organizada no Rio de Janeiro e avaliou 30 obras pré-selecionadas. Os avaliadores foram Ana Paula Maia e Marcelo Moutinho para quem Terra nos cabelos “envolve o leitor em suas histórias, que iluminam o absurdo do cotidiano com muitas nuanças, numa prosa absolutamente vigorosa”. O avaliador ressaltou ainda a unidade entre os contos de Tônio: “o que faz com que o livro seja orgânico, não seja uma mera recolha de contos”, disse, em vídeo publicado no site do prêmio.

Segundo os organizadores do prêmio, a previsão é que os autores vencedores (Tônio e o carioca Caê Guimarães na categoria romance) sejam apresentados na Flip, como é de praxe a cada ano mas a pandemia de Covid-19 joga incertezas sobre o calendário do evento.

Nesta entrevista realizada por e-mail, Tônio fala sobre o processo de escrita do livro vencedor, suas expectativas com a vitória e mais. Confira!

Fale-nos de seu livro vencedor. O que os leitores podem esperar de Terra nos cabelos?
Terra nos cabelos contém 16 contos. É um livro com protagonistas femininas em diversas idades e situações. Durante meu crescimento – infância e adolescência –, as mulheres sempre estiveram mais no meu radar afetivo. Na escrita, a personagem feminina me parece mais profunda, com mais camadas, um desafio. É um objetivo pra mim escrever contos em que as histórias se sustentem sem auxílio da minha pessoa/biografia. Assim pensei esse livro. Espero ter conseguido. Espero também que as leitoras e leitores gostem.

Como foi o processo de escrita de Terra nos cabelos e em que momento você decidiu inscrevê-lo no Prêmio SESC?
Comecei a escrever Terra nos cabelos mais ou menos lá por 2017. Depois, quando entrei na Metamorfose Cursos e no Grupo de Escrita da Ana Mello, fui escrevendo mais e submetendo à leitura dos colegas. Então entrei numa neura de não querer me arrepender de publicar algo que ainda não estava pronto. Daí deixei os textos guardados. Depois, em 2019, procurei um olhar externo e uma amiga leu alguns dos contos e fez comentários. Reescrevi os textos até os minutos anteriores à inscrição no Prêmio SESC de Literatura.

O Prêmio SESC é provavelmente a distinção literária que mais contribui para o impulsionamento de uma carreira na literatura porque promove o vencedor em um circuito de eventos e viagens pelo Brasil pela rede do SESC. Você está preparado para cair na estrada?
Com certeza! É claro que vai ter o frio na barriga, tremedeira na hora de falar, branco e muito mais, mas é essa experiência toda de “cair na estrada” que eu busquei ao me inscrever no Prêmio SESC de Literatura.

Em anos recentes, o Rio Grande do Sul tem encontrado sucesso no Prêmio SESC, com as vitórias de Luisa Geisler e Tobias Carvalho. Ao que você atribui esse reconhecimento nacional à literatura produzida a partir do Rio Grande do Sul?
Não consigo responder de forma completa a esta pergunta. Poderia dizer que esse “reconhecimento” se deve às oficinas de escrita criativa, aos cursos específicos – como PPG da PUCRS, o de Formação da Metamorfose –, entre outros. Eu poderia dizer que aqui é terra de escritor que tira leite de pedra, aquela verdade de “A pessoa é para o que nasce”, que eu vejo em muitos escritores com menos condições financeiras, mas que estão voando. Mas tudo o que eu penso só me traz parte da resposta. Até quando eu tento reduzir o escopo do pensamento a Porto Alegre, não consigo encontrar um ponto de unificação. Tudo em Porto Alegre é desigual, cada bairro constitui um mundo com as suas circunstâncias. Enfim, talvez essa multiplicidade seja nossa característica, para o bom e para o ruim. Mas mesmo esta resposta me parece difícil, porque não tenho conhecimento das características dos outros Estados.  

Cite alguns dos escritores que você tem lido e admira.
Ana dos Santos, Ana Mello, Caio Fernando Abreu, Conceição Evaristo, Dalva Maria Soares, Dóris Soares, Fal Azevedo, Fernando Sabino, Filipe Smidt Nunes, James Baldwin, João Silvério Trevisan, José Falero, Karine Bassi, Lesley Nneka Arimah, Luiz Vilela, Marcia Denser, Nathallia Protazio, Oscar Henrique Cardoso, Raymond Carver e Sam Shepard.

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