Maiara Alvarez: Abismo de oceano inteiro

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

De todas as generalizações que fazemos, a de “homens” tentando incluir homens negros e brancos é a que mais me instiga e confunde. Há um abismo. Há também, obviamente, um abismo quando generalizamos mulheres, tentando encaixar mulheres negras e brancas (não entro em mais especificações para não me alongar). Entretanto, são abismos diferentes. O primeiro é mais longo, mais distante e mais profundo.

Esse abismo se fez visível através de uma comparação. Se você leu a última resenha que publiquei aqui no LRS, viu que falei sobre o livro Raízes: Resgate Ancestral, publicado pela Venas Abiertas. Ao mesmo tempo e pela mesma editora, saiu a coletânea Ancestralidades. A primeira, escrita inteiramente por mulheres negras, a segunda, por homens e pessoas não binárias, negros.

Entre as muitas semelhanças que se podem traçar entre as obras, está a presença da narrativa sobre a mulher negra. Mães, avós, em sua maioria, às vezes companheiras e amigas, ambos os livros tratam da temática da mulher. A mulher está presente em grande parte da primeira obra, a escrita por mulheres, e também em grande parte (embora menor) na segunda, escrita por homens. 

É o que relata o ator e escritor Bruno Cardoso de Mattos no seu poema Ondas, em que evoca o mar como força das mulheres de sua vida.

Me senti perdido
Não enxergava minha existência na
ausência daquelas ondas

O homem negro, que vê na mulher negra sua principal fonte de vida, de criança à vida adulta. De quem é arrancado pelo mundo, como conta o escritor Tônio Caetano em um dos contos mais belíssimos que já tive a oportunidade de ler:

Pegou meu menino pelos encaracolados como se eu não estivesse ali, como se eu não tivesse pés de cruzar mundo, braços de manter casa em pé.

Se você se pergunta onde está o homem negro na narrativa do autor homem negro, o próprio livro Ancestralidades traz a resposta. A resposta da tentativa de um resgate que não é apenas ancestral, é atual. E é aí que o abismo de que falo se intensifica. Se a todas as pessoas negras foi negado o direito de serem visíveis, aos homens negros foi negado, primeiro, o direito de existir. Em um país escravagista, que via nas mulheres negras uma possível presença dentro das casas de pessoas brancas (cuidar dos afazeres domésticos e das crianças), o homem negro, que era obrigado a trabalhar no campo, viu sua mão de obra ser rapidamente substituída pelo imigrante europeu, que, além do trabalho, traria a “cara” esperada para o futuro do país. Fora do contexto escravo, nunca houve espaço para o homem negro no Brasil. 

Os trabalhos dos homens negros, passaram, então — e como pensado pelo homem branco —, a estar a serviço do progresso capitalista do homem branco, sempre em trabalhos que imigrantes brancos não fariam, ou que não possuíam mão de obra suficiente para tanto: garis, pedreiros, construtores de ferrovias e estradas… E não muito mais que isso, evidentemente, nem trabalho com salário de fome havia para todos. A pobreza do homem negro era (e é) um planejamento.

Ao mesmo tempo, a cruel meritocracia do capitalismo exige desse homem “vencer na vida”. Que mantenha a família (mesmo sem emprego), que seja exemplo (mesmo sem perspectiva), que seja moral e servil da lei (mesmo sem escolha). O planejamento não dito diz que o homem negro deve morrer: pela bala do Estado, pela fome, pelo crime, pelo álcool, pelo abandono, pelo que se torna o homem a quem a sensibilidade é negada.

Aos que conseguem sobreviver, e muitos o conseguem, restam as marcas apontadas pelo escritor José Falero.

Nem todas as marcas do cidadão de periferia são pra se ver; algumas são pra se ouvir, ou pra serem sentidas, ou ainda pra serem remoídas na mais fina filosofia.

É o conto de um país, de um estado e de uma cidade, que, nas mão do poeta Duan Kissonde, ganham ares de final imprevisível: não é o fato dele morrer, mas sim, como morre que é a surpresa.

Na esquina com a Cel. Vicente, Augusto atravessou correndo. Sinal vermelho. Achou que dava tempo.

Guardo o livro assinado com o carinho de homens que procuram se reinventar, se reencontrar, se reerguer, que aceitam os homens que são, como escreveu o paulista Igor Chico, “apesar dos patrões, apesar dos padrões, apesar da pátria”. Aos homens a quem foi negado até o direito de sensibilizar e de sofrer e que o fazem ainda e especialmente assim. 

Sou de sair a pé. Algumas pessoas me perguntam o porquê de me arriscar tanto. Eu não acho que me arrisco. Mas ando com medo, sim. A cada esquina, tenho medo. Ninguém quer ver a morte, saber da morte, doer a morte. E, se eu virar a esquina, quantos homens negros vão morrer? 

Bruno Cardoso de Mattos, Duan Kissonde, José Falero e Tônio Caetano são os representantes sul-rio-grandenses da coletânea Ancestralidades, publicada pela editora Venas Abiertas no final de 2019. São quatro entre os vinte e dois autores negros contemporâneos que compõem a obra que, entre poemas, poesia moderna, contos e outros escritos de observação, traçam um recorte da visão atual dos homens negros brasileiros.

Ancestralidades – Escritores Negros
Vários autores
198 p.
14 x 21 cm
978-85-54149-11-6
R$ 40,00
Editora Venas Abiertas

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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