Ana Paula Cecato: Mulheres negras em primeira pessoa (por Dhayana da Rosa e Taissa Gomes Cardoso)

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio
sobre foto de Bruno Xavier Silveira/EMEF Nossa Senhora de Fátima

Neste mês, a coluna é escrita por Taissa Gomes Cardoso e Dhayana da Rosa, e conta a experiência do projeto de educação antirracista Quilombonja, coordenado pelo professor e mestre em Geografia Bruno Xavier Silveira, na EMEF Nossa Senhora de Fátima, em Porto Alegre.

Escrever é tirar da gente uma parte da gente

O QuilomBonja é um grupo de pesquisa que surgiu no ano de 2017, trazendo como objetivo contar a história do Bairro Bom Jesus e suas origens, a partir da nossa voz, e a gente fez isso com entrevistas, dando espaço para os moradores falarem sobre o lugar onde moram. Essa pesquisa trouxe vários benefícios para nosso desenvolvimento mudando nossa forma de pensar sobre nosso bairro, e sobre nós mesmas.

Vários dos alunos tinham uma baixa autoestima sobre o seu bairro, e os estereótipos se estendiam sobre ele. É comum pensarem o nosso bairro, que é uma periferia, num único acontecimento, um ponto negativo e isso se tornar um “único perfil do bairro”. E a nossa ideia era dizer e mostrar às pessoas de fora e principalmente aos moradores que não era e não é só isso. Nosso bairro tem história e nós somos a história do nosso bairro.

Quando o QuilomBonja surgiu, tudo aquilo que construímos, praticamos e pensamos a partir dele mudou a nossa visão de mundo, digamos. Foi quando percebemos que nós, sendo mulheres negras neste país, ou virávamos resistência ou não “sobreviveríamos”.

Participar do projeto abriu vários pensamentos, lapidou o que já havia em nós de força e a vontade de lutar contra esse sistema racista, machista e preconceituoso. Em dois anos de participação descobrimos que o silenciamento não faz parte da nossa história, e começamos a ter voz, paramos de nos calar para muitas coisas que antes do QuilomBonja nos pareciam normais do cotidiano.

O professor Bruno e as alunas Keila, Dhayana e Taissa.
Foto: Bruno Xavier Silveira/EMEF Nossa Senhora de Fátima

Durante essas montanhas de atividades do projeto, mergulhamos cada vez mais no conhecimento sobre gênero e cidade, e achamos Carolina Maria de Jesus, uma mulher negra de periferia que catava papel pra sobreviver. Vimos a resistência em pessoa recontada num livro, sentimos o peso de ser mulher na cidade, e também vivenciamos nas falas do seu diário um pouco do cotidiano do nosso bairro, e muitas das lutas feitas por mulheres daqui, como sendo lutas das Carolinas.

Depois de estudarmos Carolina, surgiu a ideia de um projeto feito pelas três meninas do QuilomBonja: “Mulheres Negras em Primeira Pessoa”. Essa oficina foi criada por nós, que assinamos essa escrita, junto com a Keila Soares: três adolescentes negras de periferia! Da Bonja Pro Mundo, pela presença feminina no bairro, com rostos de mulheres que mudaram e continuam transformando a Bonja, o Brasil e o Mundo e nas palavras de Chimamanda, “precisamos encorajar mais mulheres a se atreverem a mudar o mundo”… Assim a gente vai aprendendo a ser nós mesmas. Nas negras vozes da professora e rapper Negra Jaque, da cantora Iza e da tão jovem cantora Elis, a gente se inspira e segue em frente.

Eu sou Dhayana da Rosa, tenho 13 anos e pro futuro tenho muitos sonhos. Um deles é ser médica pediatra.

Eu sou Taissa Gomes Cardoso, tenho 16 anos e no futuro eu quero ser escritora e poder dizer aos jovens negros e pobres o quanto são capazes assim como tive a oportunidade de viver sobre isso com 13 anos. Poder passar minha experiência como aluna através da escrita, fazer com que isso chegue às periferias. E que eles tenham o acesso ao que a maioria tive na minha idade!

Ana Paula Cecato é graduada e mestre em Letras. É professora de Língua Portuguesa e atua no Núcleo de Formação de Mediadores de Leitura na Câmara Rio-Grandense do Livro, coordenando os cursos de extensão Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura, e o Encontro de Práticas de Mediação de Leitura. Também coordena programas de leitura que levam autores a escolas públicas. Através do projeto Descobrinhança, visita escolas, bibliotecas, feiras de livros, ministrando encontros de formação para mediadores de leitura. Foi jurada do prêmio Jabuti de 2019, na categoria Fomento à Leitura.  www.facebook.com/descobrinhanca e anacecato@gmail.com.
Foto: Acervo pessoal.

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