Maiara Alvarez: “perto do mar, água nenhuma se doma”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Ao escrever resenhas, é sempre difícil não falar de mim. Como falo de outra escritura, e você faz a leitura, deveria falar de nós? Somos sempre muitas coincidências. Consigo aprender a falar a língua que não tem eu?

Os cavalos, eu pouco sei de cavalos. Encontrei cavalos umas três vezes na vida. Montei em uma apenas uma vez. Na Argentina, veja só. Aquelas bobagens que tu monta no cavalo e viramos um só, aí eu montei na égua e posso dizer: tudo verdade.

Além dos dois cavalos, tudo é mancha, a trajetória das coisas que o tempo não deixa fotografar.

Algumas famílias não se despedaçam como nas telenovelas latinas. Elas vão se desperdiçando com o tempo, já que o tempo passa sim ou sim.

O tempo tá aí, embaixo desses campos, dessas pedras, até embaixo do couro das vacas. Imagina só, os índios viviam aqui. A gente vive pisando em cima deles o tempo todo.

Um irmão sofre um acidente, de moto, à noite, na chuva, sozinho, e a culpa é nossa. Os médicos não atendem direito, querem pagamento extra, morremos na maca e a culpa é nossa. Existir deitado, da maca para a maca de aço, para o caixão, para a gaveta.

Mesmo depois de morta, a dor ainda se mexe dentro da cobra, e é também a dor balançando o rabo de um lado a outro.

Foi estranho ler Os donos do inverno, por Altair Martins. Confesso: eu tenho dificuldade com um nós quando eu não sei quem é a terceira pessoa. Não há resposta certa. Não, o autor não tem a resposta certa, não é assim que funciona. A gente coloca no papel, de forma metafórica, às vezes literal, e não é mais meu.

Sob a potência da terra, nossa alegria vai atrofiando.

Minha mãe me disse uma vez que algumas pessoas velhas são melancólicas por já terem acontecido. Elas não deixaram de acontecer, mas acumulamos tantos acontecidos que acontecer já pesa muito mais.

Ao Elias falta a língua, porque o português, depois de doloroso, não dá mais conta.

Ainda assim, é mais difícil quando a gente deixa de acontecer. O tempo passa, mas a gente não envelhece. O descompasso entre nós e o tempo nos afasta de algo essencial.

É absurdo: dividimos domingos, moedas de troco, perfume, moscas, água mineral. Só não acontecemos.

Eu, que, aqui entre nós, sou péssima em terminar: os projetos, o banho, a vida de qualquer animal, as resenhas, os livros… eu admiro essa ânsia de escrita que começa e termina e ainda encontra tempo para incluir em certo realismo fantástico e personagens verossímeis, honestos. Homens falando sobre homens. Mas aí te digo que talvez é o melhor que o homem pode fazer. E falar sobre irmãos e vida e gente que aconteceu com força e depois deixou de acontecer.

Da mesma editora, andei lendo umas coisas aí não tão legais. Sempre complicado, nesse meio tão pequeno quanto o da literatura e no qual eu escrevo pequenamente, nesse estado tão pequeno quanto o RS, nesta capital tão pequena quanto Porto Alegre, fazer essas declarações polêmicas. Ainda há esperança para, de vez em quando, abrir um livro que outro sobre cavalos e gente que se acha dona do inverno. Vai que sai uma coisa bonita desse jeito?

E nos sentimos exatamente assim: espremidos contra nós mesmos, cada vez mais dobrados pra dentro, recolhidos onde algo quente nos mantém.

Altair Martins nasceu em Porto Alegre, em 1975. Deu aulas no curso superior de Formação de Escritores da UNISINOS entre 2007 e 2010. É professor da PUC/RS, nos cursos de Escrita Criativa e Letras. Tem textos publicados em Portugal, Itália, França, Argentina e Espanha. Entre outros prêmios, ganhou o São Paulo de Literatura (2009, com o romance A parede no escuro) e o Moacyr Scliar (2012, com os contos de Enquanto água) e foi finalista do Jabuti quatro vezes. Os donos do inverno foi publicado em 2019 sob o selo da Não Editora, Dublinense.

Os donos do inverno
Altair Martins
Romance
256 p.
14 x 21 cm
978-85-6124-975-5
R$ 44,90 (R$ 22,90 e-book)
Não editora

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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