Ana Paula Cecato: Muito além de ler ou de não ler: porque PDF não democratiza a leitura

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Este texto versa sobre uma polêmica, mais antiga que a pandemia da COVID-19, cujo debate tem acontecido com mais frequência nestes tempos, em virtude do ensino remoto emergencial: a distribuição ilegal de PDFs de livros literários na rede. Antes de conduzi-los aos argumentos para defender minha tese, a de que PDF não democratiza a leitura, quero definir meu recorte: estou tratando aqui dos livros literários, sobretudo da produção para a infância e adolescência, que vem a ser a que mais circula nas escolas de Educação Básica.

1. Falta de acesso, uma premissa excludente
Os tempos pandêmicos – que acabaram por restringir nossos deslocamentos por mais tempo do que esperávamos em março – fizeram com que as escolas adotassem o ensino remoto emergencial. Com as tecnologias mediando o processo de ensino-aprendizagem, encontramos uma premissa excludente de uma parte considerável de estudantes, os quais, sem acesso a dados de internet, equipamentos e espaço físico adequados, têm seu direito à educação negado. Logo, disponibilizar PDFs é uma medida de exclusão, uma vez que poucos alunos (sobretudo da rede pública) terão condições de acesso a tal material.

2. Uma visão utilitarista da literatura
Ao disponibilizarmos os PDFs de livros, estamos corroborando para uma visão utilitarista da literatura (ler para circular substantivos e adjetivos é uma atitude bem radical, mas ler para fazer um trabalho também é). Quem é professor(a)-mediador(a) de leitura, sabe que essa prática leitura seguida de atividade cansa o(a) professor(a) e os(as) estudantes e desestimula o prazer que a leitura pode oferecer ao leitor e leitora. Há estudantes que, depois de uma leitura, já perguntam “O que a gente vai ter que fazer agora?”.

3. Livro não dá em árvore: a cadeia do livro
O processo de criação e publicação de um livro é bastante complexo e vários agentes estão envolvidos nele: escritores(as), ilustradores(as), editores(as), projetistas gráficos, diagramadores(as), bibliotecários(as) (a página de serviço de um livro nomeia todos eles e elas). Ao mediar a leitura de livros, muitos professores(as) não apresentam essa equipe editorial aos seus alunos e suas alunas. Assim como um concerto didático, que visa a formar um público que conheça o que é uma orquestra, precisamos ensinar quem faz o quê e por que faz num livro. Além desses profissionais, temos outros, os quais se envolvem na venda do livro: divulgador(a), editora, distribuidora, livraria, livreiro(a), e a cadeia mediadora, composta por educadores(as), bibliotecários(as), contadores(as) de histórias, e outros mediadores de leitura. Por isso, temos grande responsabilidade com a sobrevivência dos livros num futuro bem próximo, mas este é um papo lá para o fim do texto.

4. A formação de um consumidor de livros
A publicidade forma consumidores de vários produtos, porém, não assistimos a um comercial na TV em que livros são vendidos. Muitas famílias acham o livro caro, porém gastam horrores com outros produtos de menor qualidade e relevância na vida das crianças e dos jovens. Trata-se de uma relação com o imaginário social, que desvaloriza o livro enquanto produto comercializado. A proposta da formação de uma comunidade de leitores também pode passar por formar consumidores de livros, sobretudo quando atuamos junto a adolescentes: ao ir a uma feira de livros, preparar-se com antecedência; mobilizar atividades comunitárias para angariar verbas para compra de livros para a biblioteca e para os alunos; pesquisar preços, analisar a relação custo benefício de um livro (em termos de qualidade editorial e estética).

5. PDF e livro digital não são a mesma coisa
PDF não é livro digital, PDF não é plataforma de livros digitais, PDF não é fanfic, tampouco livros grátis disponibilizados por editoras. PDF é uma prática ilegal, que fere os direitos autorais. Escritores e ilustradores recebem, em média, 10% do preço de capa de um livro de direitos de direitos. Há publicações que os(as) autores(as) dividem essa porcentagem, noutras, ela é menor para o(a) ilustrador(a), noutras ainda o(a) profissional das imagens recebe um valor fixo pelas ilustrações e não recebe direito autoral. Os acertos dos direitos são feitos com determinada periodicidade, e o recebimento está vinculado ao número de exemplares vendidos. Vale lembrar que muitas editoras, que são as empresas que detêm os direitos de uso das obras, disponibilizaram gratuitamente, neste período, alguns títulos para leitura on-line, portanto, há formas de possibilitar a leitura com respeito à legalidade e aos autores e autoras. 

6. PDF não forma leitor
Sobretudo no período de desenvolvimento da formação leitora, a materialidade do livro é imprescindível. As crianças pequenas gostam de participar da história, apontando para as ilustrações e brincando com o som das palavras. Sem o livro, o gesto de leitura perde muito, comprometendo uma trajetória que está apenas no início. Há como se formar leitores através de outros eventos de letramento literário, que não envolvem a materialidade do livro, como a contação de histórias, porém, a opacidade de um PDF não é uma delas. Sabemos que muitos e muitas adolescentes chegam a essa fase sem um percurso formativo de leitura, e a materialidade do livro é um componente importante para desenvolver o comportamento leitor e as habilidades de leitura como processo imersivo.

7. Para que tenhamos livros no futuro
Sonhamos com dias melhores na educação, não é mesmo? Para isso, é preciso imaginação e ação política. Engajarmo-nos nas lutas coletivas a favor de políticas públicas para a área do livro, da leitura e da literatura. Hoje os debates se concentram sobre a possível taxação dos livros, mas existem outros debates a serem feitos, como os programas de incentivo à leitura que vêm sendo descaracterizados e a diminuição ou o corte de recursos para compra de acervos das bibliotecas.
Engana-se fortemente quem diz que PDF ou fotocópia de livros democratiza a leitura, pois, se não batalharmos para que mais livros estejam em nossas bibliotecas e salas de aula e, principalmente, na mão dos leitores, não restarão nem os PDFs para contar essa história e as novas histórias que ainda não foram publicadas. Outra questão pertinente sobre a democratização é entender que as políticas públicas implementadas nos últimos anos, institucionalizadas pelo Plano Nacional do Livro e Leitura e pelo Plano Nacional de Leitura e Escrita, impulsionaram novas publicações e casas editoriais, muitas delas especializadas em literatura de autoria negra, indígena, feminina, LGBTQI+.

A fim de encaminhar proposições que se colocam como alternativas aos PDFs, sugiro aqui algumas iniciativas que podem ser feitas neste período pandêmico:

·       Colocar livros como um item das cestas básicas distribuídas para as famílias dos e das estudantes. É possível conseguir os livros através de doações ou compra de acervo por parte das secretarias de educação, usando as verbas dos programas de leitura, cujos encontros não poderão ocorrer devido à suspensão das aulas presenciais;
·       Uma iniciativa criativa da EMEF Afonso Guerreiro Lima, de Porto Alegre: uma estante de pegue e leve na entrada da escola, para que as famílias possam levar os livros para suas casas;
·       Colocar nos planejamentos livros digitais disponibilizados legalmente pelas editoras e autores independentes. Estamos ensinando muito ao fazermos essa escolha.
·       Colocar nos planejamentos materiais audiovisuais, jogos e outras releituras que dialoguem com obras literárias clássicas em domínio público, quando já se passaram setenta anos da morte do(a) autor(a).

Ana Paula Cecato é graduada e mestra em Letras e professora de Letras – Português/Inglês do IFRS – Campus Rolante. Fez parte da equipe da Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, trabalhando na curadoria da programação, nos programas de incentivo à leitura e na formação de mediadores de leitura. Coordena o curso de extensão “Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura”. Foi jurada do Prêmio Jabuti em 2019 na categoria Fomento à Leitura.
Foto: Acervo pessoal.

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