Rodrigo Mizunski Peres e o tempo que a tudo devora

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

“Hoje não me imagino escritor se eu não puder revisitar os quartos do passado, as gavetas da infância. Há muita coisa para remexer e escondida embaixo da roupa dobrada, e acabei descobrindo nisso uma forma de bem me expressar, aliando vivência e ficção, o que sempre empresta algum charme à narrativa – nem sempre a realidade é assim tão atraente”. O tempo que a tudo consome é um dos temas centrais de Mundos Paralelos, coletânea de contos de Rodrigo Mizunski Peres. Dividida em duas partes, a obra trata da impermanência das experiências e dos relacionamentos, em qualquer fase da vida. Com personagens e narrativas construídas desde 1993, Mundos Paralelos revela um autor preocupado em reter e eternizar no papel as limitações da vida, com todas as suas contradições e frustrações, através da simultaneidade e do paralelismo entre passado e presente.

Nesta entrevista exclusiva, Mizunski, que é também apoiador LRS, fala sobre sua trajetória criativa, visão de mundo, influências literárias e muito mais. Boa leitura!

Os contos de Mundos Paralelos foram escritos entre 1993 e 2019 e publicados em 2020. Porque esse intervalo tão grande entre o início da escrita e a publicação?
Já em 1993, ao publicar O poeta de plantão, eu tinha um livro de contos pronto, chamado Os invasores da avenida Goethe, projeto esse que permaneceu no gatilho durante todo esse tempo – novos textos foram entrando e com ele o livro, como unidade, foi perdendo o sentido. E tornou-se um tanto anacrônico, sem se apresentar como algo reminiscente, mas apenas um livro fora de sua época. E eu nunca o considerava “pronto”, tampouco via nele a possibilidade de publicação. Evidente, de lá para cá muita coisa mudou na minha vida: troquei de emprego, me formei, casei, tive filha, me separei, reatei o casamento me mudei uma penca de vezes, inclusive de cidade e de Estado, e a literatura foi ficando para trás, guardada na gaveta. Parecia que o escritor havia nascido, se apresentado e morrido com o livro de poesias de 1993. Aliás, a esse respeito, cheguei uns anos depois a escrever o que seria minha última poesia (o adeus do poeta errado), o que acabou se transformando numa sequência de poemas do poeta em direção ao inferno – cheio de referências a Dante Alighieri. Foi o momento em que procurava marcar, para mim mesmo, a transição do lirismo para a prosa. Para montar o livro escolhi alguns contos de um total de cerca de 90 textos que foram se acumulando durante esse tempo em que cuidei de tantos outros projetos mas me descurei da literatura. E aí vem a quarentena, a pandemia, causar algo bom: estava na hora de voltar à velha forma, como escritor, com outra roupagem, outro estilo, outra proposta, e disso nasceu o Mundos Paralelos.

As relações amorosas entre homens e mulheres associadas à frustração e à fugacidade permeiam toda a obra. Você acha que a sua escrita registra os amores líquidos dos quais fala Zygmunt Bauman?
Penso que os amores líquidos de Bauman refletem muito mais o desgaste do “tecido social” que enlaça as pessoas, do que propriamente individualidade do relacionamento cujo tema é recorrente no meu livro. Os contos retratam a condição humana do se relacionar e as frustrações advindas desse relacionamento, talvez aí um ponto de convergência com a obra do filósofo polonês. Difícil mesmo fugir das hipóteses estabelecidas por Bauman, porém as causas em Mundos Paralelos parecem-me mais intrínsecas ao indivíduo do que extrínsecas, relativas ao mundo moderno propriamente dito. Nos amores líquidos, o relacionamento é visto parte como um investimento e seu fracasso advém da falta de comunicação. Nas minhas histórias a frustação faz parte do próprio personagem.

Paula Dip, amiga e biógrafa de Caio Fernando Abreu, assina a apresentação, indicando que seus contos carregam muito da tradição do autor já falecido. Qual o tamanho da influência que Caio teve na sua escrita e na sua relação com a literatura?
Aos 15 anos eu descobri Caio Fernando Abreu na biblioteca do Sesc, no Centro de Porto Alegre. Na época, eu tirava quatro livros que tinha que devolver em duas semanas. Em geral, devolvia três lidos e um eu renovava, pegando mais três novos. Mantive esse ritmo durante algum tempo na minha vida, creio que pelo menos um ano e meio. Li muita coisa e, dentre essas, acabou passando pelas minhas mãos o Os dragões não conhecem o paraíso. Fiquei paralisado com o estilo do Caio. Naquela época eu já começava a escrever alguma coisa de prosa, mas sem saber muito a diferença do conto para a crônica. No entanto, ler Caio me fez pensar, resoluto: eu quero escrever assim. E logo em seguida achei num sebo a edição da Brasiliense de Morangos Mofados, da série Cantadas Literárias, lembro que paguei pelo livro algo como um cruzeiro!! E naquela época o Caio aparecia de vez em quando em programas da TV Cultura e da Bandeirantes, foi uma quebra de paradigmas. Até então eu não me imaginava lendo um autor que abordava a temática gay, ou os relacionamentos dúbios vividos pelos personagens de Caio, aquela coisa de sexo despudorado, e isso não era um problema pra mim, naquela época eu havia lido Sexus, do Henry Miller, e tudo isso no meio daquela coisa toda da explosão da AIDS, mas era tão bom ler um autor que não tinha nada de vergonha de ser ele mesmo. Caio passou a ser fundamental, a ponto de eu estar sempre atrás de alguma matéria em algum suplemento cultural que ele assinava, ou de uma crônica no jornal ou na revista, ou uma crítica de cinema ou de literatura – através dele cheguei ao cubano Reinaldo Arenas, e odiei Fidel, odiei até mesmo García Márquez, alcaguete do regime totalitário na Ilha (ao menos como dito por Arenas). Lembro como esperei a chegada do romance Onde Andará Dulce Veiga? e que para ler indiquei sua compra na biblioteca que frequentava (e que está relatada no conto Uns dias, do Mundos…). Todo o seu calvário, desde o anúncio da doença, à época premonitório da morte, até ela propriamente dita, fui acompanhando pelas mídias disponíveis, a sua morte foi definitiva para eu estabelecer rumos nos meus conceitos e, principalmente, nos preconceitos que eu carregava comigo. Desde então, meus textos nunca mais foram os mesmos e se tornaram cada vez mais uma espécie de confidentes ao Caio.

A nostalgia é um sentimento frequente em muitos dos seus contos, suas histórias ocorrem em décadas passadas ou seus personagens estão apegados a relações e experiências já vividas. Por que essa escolha narrativa?
Uma outra influência literária que tenho, que não entrou no livro para que eu não fugisse à unidade temática, é a do escritor mineiro Fernando Sabino. Assim como a do Caio, li toda a sua obra. E Sabino é marcadamente um escritor que retratou o seu tempo com a maestria do cronista de jornal. Sua obra mais notável, e é meu livro de cabeceira desde os 17 anos, é O Encontro Marcado, em que o personagem principal, escrito à sua imagem e semelhança, lá pelas tantas reconhece que na vida não nos é dado escolher, mas que somos escolhidos, e a partir daí não há mais volta. Não sou tão definitivo nem dramático, mas creio que é o que ocorre sobre esse tema: fui escolhido. Mas talvez diga muito sobre o tema central que nos leva ao título do livro, o presente e passado como mundos paralelos, jamais perpendiculares, por mais que em algum momento, fatalmente, se entrecruzem.

Há alguns contos protagonizados por crianças ou adolescentes e que revelam um olhar muito delicado do autor com essa fase da vida. Qual o impacto que a infância e a puberdade têm na sua escrita?
Tem aquela máxima, pra lá de surrada, de que “recordar é viver”. A memória como chama viva daquilo que se vive no passado e faz parte indissolúvel da nossa essência. Quer dizer, essa pergunta tem muito a ver com a anterior, mas talvez sem a infância e a puberdade da maneira que vivi, e principalmente como a percebo hoje, com o distanciamento de três ou quatro décadas, eu seria outra pessoa, talvez não me sentisse como escritor. Talvez por isso mesmo durante muito tempo me questionei se eu era escritor de uma única obra, ao invés de perder esse tempo me publicando. Mas eu não estava pronto, meu eu infantil e adolescente não me avisaram que eu estava pronto, ou se não estava pronto, era hora de publicar novamente. Na minha adolescência, enquanto meus amigos queriam uma Garelli, eu queria uma máquina de escrever. Hoje não me imagino escritor se eu não puder revisitar os quartos do passado, as gavetas da infância. Há muita coisa para remexer e escondida embaixo da roupa dobrada, e acabei descobrindo nisso uma forma de bem me expressar, aliando vivência e ficção, o que sempre empresta algum charme à narrativa – nem sempre a realidade é assim tão atraente.

O que mudou na carreira de um escritor independente desde seu primeiro livro Poeta de Plantão, em 1993, até hoje?
Em setembro de 1993 fui convidado, por ofícios de um tio médico famoso na cidade, a participar da Feira do Livro de São Lourenço do Sul. A influência do parentesco foi tão grande que no programa da sessão de autógrafos meu nome aparecia antes do Barbosa Lessa, com quem tive o prazer de dividir a tarde – e lamento não ter bebido mais daquela fonte. Foram meus minutinhos de fama, sendo apresentado a uma excursão de colégio como “escritor de Porto Alegre”. Fui entrevistado pelo Jornal do Almoço local e a repórter me perguntou duas coisas: quem era o poeta de plantão e se era muito difícil publicar um livro de poesias. Eu não sabia, eu tinha 23 anos e acabei engatilhando um “poeta de plantão somos todos nós que lidamos com dúvidas, sentimentos”, algo nesse sentido. E ainda precisava responder a pergunta se era muito difícil publicar, eu não fazia a menor ideia, nunca tinha submetido meu trabalho a nenhuma avaliação editorial, apenas pegara parte do dinheiro que tinha recebido numa rescisão trabalhista ao desistir de ser bancário e resolvera investir no livro. Eu o vendia nos bares do Bom Fim e da Goethe, inspirado e ajudado pelo meu amigo Pedro Marodin, inclusive não tive sequer vergonha de copiar a ideia de colocar fotos no livro de poesia. Rendeu bem, vivi, mal e parcamente, é verdade, em parte daquele livro pelos dois anos seguintes, até me formar. E não me imaginava publicando novamente naqueles moldes, de poeta rebelde, o preço do livro é o de uma cerveja, mas ao mesmo tempo não via chances de ingressar via editora. Em 1998 concluí meu primeiro romance e o submeti a algumas editoras, quase todas sequer se deram ao trabalho de me responder e à medida que o tempo foi passando, comecei a achar o texto muito fraco. Hoje o acho muito ruim e talvez pretenda jamais publicá-lo. Mas de fato vejo atualmente o cenário editorial, o mercado e as próprias possibilidades de se autopublicar, com as facilidades que as ferramentas da internet proporcionam, como muito mais fácil e acessível ao autor. Hoje não preciso percorrer as mesas dos bares e importunar as pessoas tentando vender aquilo que posso chamar minha arte, há outros canais disponíveis pra isso, e qualquer momento é momento de comprar um livro. Infelizmente, não creio que temos mais leitores. Soa um tanto paradoxal isso.

Porto Alegre e o Rio Grande do Sul constituem um espaço de muita produção, estudo, circulação e de muitos recursos para o desenvolvimento de uma carreira na literatura, talvez um caso único no Brasil. Você sente essa influência na sua vida de leitor e escritor?
As oportunidades artísticas em Porto Alegre, especialmente, por ser a aldeia onde vivi a maior parte da minha vida, chamam, de fato, a atenção de quem gosta de consumir e quer produzir alguma cultura. Nesse tempo todo tive vários projetos, talvez mais “quase-ideias”, interrompidos, mas que eram viáveis pela circulação desses meios de produção artística. O conto que dá título ao livro chegou a ser rascunhado para ser um curta metragem para concorrer no Curtas Gaúchos da RBS; em 1996, durante um trabalho voluntário, comecei a escrever uma peça teatral chamada Delírio, baseada na música homônima dos Secos & Molhados, que seria interpretada somente por travestis e queríamos apresentar no Poa em Cena; por duas vezes levei meus rascunhos de projetos literários – Os Invasores da Avenida Goehte e o romance, A Busca, para concorrer no Fumproarte da Prefeitura de Porto Alegre… quer dizer, Porto Alegre já foi assim, de produzir e consumir arte numa simbiose perfeita, mas de alguns muitos anos para cá isso parece que se perdeu tanto – de tudo que falei hoje ainda resiste o bravo Poa em Cena, cada vez maior e melhor, por sinal.

Por que você escolheu como epígrafe de Mundos Paralelos o trecho de um artigo do astrofísico Ethan Siegel?
Confesso que foi bem por acaso, ou talvez nem tanto assim. Com o livro de contos pronto, estou trabalhando em novos projetos literários – um romance e um livro de contos mais extensos, e nesse romance abordo temas que não domino, especialmente astrofísica e filosofia. E aí, pesquisando coisas para esse livro (o título provisório é Mônadas e traz elementos fortemente inspirados em A morte de Ivan Ílich (como eu gostaria de ter escrito essa novela), do Tolstói, e Um Conto de Natal, do Dickens, e é engraçado que trata de temas como Deus e vida após a morte, que é tudo no que eu não acredito, e daí o desafio. Pois bem, lá pelas calendas, tentando entender o conceito de mônadas trabalhado pelo filósofo alemão Leibniz, me deparei com aquele trecho do Siegel, e pensei, desconectando o pensamento do tema que eu procurava e estacionando direto para a epígrafe de Mundo…. Penso que muita coisa na criação literária se dá por um acaso meio que direcionado, às vezes é como se recebêssemos um sinal, é preciso aproveitá-los.

Quais livros e autores você recomendaria e por quê?
A minha vontade é responder “todos” e “porque sim”. Sempre tenho algum receio de recomendar leituras porque penso ser uma responsabilidade muito grande, tipo, uau, a pessoa quer saber o que eu acho que os outros devem ler, e ao mesmo tempo me apavora que isso esteja restrito aos meus próprios limites, quer dizer, eu posso recomendar aquilo que li e não o que não li mas que todos recomendam. Evidente que se a pessoa me perguntar se deve ler Os Irmãos Karamázov, eu vou dizer que sim, mas antes deve ler Crime e Castigo, porque esse já li – e aí vou correndo ler Os irmãos…. Mas vamos lá, dentro do meu universo de escritores e livros preferidos, eu entendo que todo mundo deveria ler Sábato. Sobre heróis e tumbas é, talvez, o maior romance já escrito, isso dito por mim, evidentemente. Mas é tão marcante que um de seus capítulos, essencial para a narrativa, é o Tratado Sobre os Cegos, levou o incensado Saramago a escrever o não menos genial Ensaio sobre a Cegueira”. E devem ler O Túnel, também do centenário escritor argentino. E atravessar o oceano para ler Hermann Hesse: O Lobo da Estepe é outro romance obrigatório, existencialista pacas, que eu li com vinte, reli com trinta, quando cometi a asneira de emprestá-lo e somente ano passado, às vésperas dos cinquenta, é que readquiri um exemplar e o re-reli uma vez e novamente, e sempre sob uma nova perspectiva, sempre descobrindo no lobo um traço antes imperceptível que vai te marcando com a passagem do tempo – é uma loucura, talvez literal. Tem que ler Fante (Pergunte ao pó, Sonhos de Bunker Hill, A Irmandade da Uva), confessadamente adorado por Bukowski (esse também é preciso estar na estante, indico Crônicas de um amor louco). Hemingway, dos clássicos, o que mais demorei para ler, Paris é uma Festa dá vontade de pegar o primeiro ônibus na João Pessoa para a Cidade-Luz; É preciso ler Shakespeare (Rei Lear, Hamlet, A Megera Domada) para se sentir lírico, crítico e ácido. Só os clássicos!! E evidentemente não posso deixar de asseverar os nacionais e já citados Caio e Sabino, além de Scliar, Clarice, Rubem Braga, Rubem Fonseca. Mas me ressinto de não estar aqui mencionando (ao menos com propriedade) autores modernos e locais, como Paulo Scott e Jeferson Tenório que se destacam com uma temática tão escondida das prateleiras das livrarias como a negra, ou a visão trans da Atena Beauvoir, ando muito curioso para ler Babá, esse depravado negro que amou e O crush de Álvares de Azevedo, ambos do Jandiro Adriano Koch – autores que aliás passei a ter acesso e a me interessar justamente quando lá em abril comecei acompanhar o trabalho do Literatura RS. Posso dizer sem medo que faz parte da minha retomada de rumo na escrita.

Mundos Paralelos
Contos
Rodrigo Mizunski Peres
136 p.
R$ 48
Edição do autor
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