Maiara Alvarez: A guerra é uma bela bosta

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Desta vez, coloquei as leituras sobre a cama e fiquei em dúvida. Escolher a resenha para o Literatura RS é algo que me demanda, em geral, pouco esforço, já que é a representação de algo que me tocou profundamente. Na maioria das vezes, isso se revela por uma admiração certa, de pouco questionamento quanto à escrita, já que são leituras que provocaram sensações propositivas, emocionais, profundas, que tento expressar aqui pela escrita. Um olhar de cavalo sobre fundo vermelho chamava a minha atenção.

Escolher a leitura desta semana se tornou um pouco mais complexo. Posso dizer que gostei do livro escolhido? Honestamente, não sei como expressar algo tão simples como gostar, um verbo que não comporta níveis, entretanto, para o qual buscamos matizes para classificar diferentes graus.

Ao ler Minuano, de Tabajara Ruas, naveguei por esses diferentes matizes e me surpreendi com diferentes tons de guerra. Há muito pouco de escolha na guerra, as cores dos pampas sangrentos são primárias, e, nesse cenário, Tabajara inseriu sombras e realces que se revelam em quadro, para mim, inesperado.

Inesperado pois, dada a premissa — um cavalo manco que serve para que o General Bento Gonçalves retorne a sua tropa durante a guerra farroupilha —, o narrador — o próprio cavalo Minuano, em primeira pessoa —  e até o tamanho do livro — pouco mais de 100 rápidas páginas —, a simplicidade narrativa e a intensidade da aventura do ginete que via olhos como estrelas foi tudo, menos apenas atender as minhas pobres expectativas. Superou e muito.

O conceito de propriedade, para muitos farroupilhas revolucionários em posição de liderança, valia mais do que qualquer outra ideia ou conceito […].

As personagens retratadas ultrapassam em pouco tempo a mediocridade da guerra e dos que nela mandam, não há grandes definições em preto e branco e Minuano, que sempre tem medo do leão baio, seja ele da selva ou da arma, se vê indo para caminhos que pouco escolhe, mas que, dadas as suas atitudes, revelam o crescimento humanizado dos que cavalgam apesar dos cortes e contra a carga.

Só os idiotas vão para a guerra.

Nascido em Uruguaiana, Tabajara Ruas é escritor e cineasta que, tido como regional, ganhou reconhecimento nacional com obras escritas, roteirizadas e dirigidas por ele, como em Netto perde sua alma e A cabeça de Gumercindo Saraiva. Ruas também é autor de O fascínio (Record, 1997), O amor de Pedro por João (Record, 1998), a triologia Os varões assinalados (L&PM, 1985), entre outros.

Minuano
Tabajara Ruas
Novela
104 p.
14 x 21 cm
Edições BesouroBox
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Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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