Guilherme Smee: Todo super é intrinsecamente bom?

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre divulgação

Este mês vimos estrear a segunda e nova temporada do seriado The Boys, da Amazon Prime, baseado nos quadrinhos de Garth Ennis e Darick Robertson. A série, que critica os super-heróis, tem sido um sucesso mesmo entre aqueles que amam essas criaturas ficcionais. Vamos falar um pouco mais sobre essa série que está eletrizando as mentes e sobre noções de como um escritor que odeia super-heróis encontrou seu sucesso exatamente em uma série sobre eles.

A série começa com uma abertura parodística, imitando aquelas que são feitas pela DC e Marvel Comics em seus filmes, séries e animações, mostrando que os super-heróis, mesmo sendo reais naquele universo, pertencem a um conglomerado, a uma marca. Ironicamente, The Boys quase chegou a pertencer a uma destas grandes marcas de super-heróis, no caso, a DC Comics. Os números iniciais de The Boys foram publicados em 2006, pela Wildstorm, um selo da DC Comics. Mas, como a editora achou que a série não era de bom tom para suas audiências, resolveu cancelá-la e reverter os direitos de publicação para os autores, Ennis e Robertson, que mudaram para a então recém-formada Dynamite Entertainment.

O personagem principal, batizado nos quadrinhos como Hughie Mijão, era a cara do ator Simon Pegg, famoso na época por protagonizar Todo Mundo Quase Morto, paródia baseada na refilmagem de Madrugada dos Mortos por Zack Snyder. Ao meu ver, a personificação de Pegg deixava a série menos atrativa e deixava o leitor distante do personagem principal, quando devia se identificar com ele. Isso é nítido principalmente na cena inicial, quando a namorada de Hughie, Robyn, é morta pelo super Trem-Bala. O uso de Jack Quaid como um Hughie mais novo e atraente, foi acertado. Pegg, posteriormente, chegou a escrever prefácios para os encadernados de The Boys e encarna o pai de Quaid na série.

Reprodução

A série The Boys nos quadrinhos começa bastante desagradável para olhares mais sensíveis e moralizantes, mas vai ficando mais atenuada ao longo dos encadernados. Essa atenuação, na série para a televisão já está mais diluída mesmo a partir do primeiro episódio, na maneira e no ritmo como é contada. Esse tipo de recurso, de choque e de sensação, é algo típico da escrita do irlandês Garth Ennis. O escritor surgiu no Reino Unido com séries que desafiavam a moral e os bons costumes, os brios e a sensibilidade dos seres humanos comuns, como algo típico do humor inglês, a inversão dos valores morais. Não por acaso, ele trabalhou na revista 2000 a.D. com o personagem que por excelência trabalha a ironia e o sarcasmo do que deveria ser o bom-mocismo, o personagem britânico Juiz Dredd.

Vindo para o mercado dos Estados Unidos como um rescaldo da chamada Invasão Britânica aos comics, Ennis trabalhou primeiro como substituto de James Delano em John Constantine: Hellblazer. Lá ele desenvolveu uma mitologia mais extensa e ainda mais britânica para o anti-herói do selo adulto da DC Comics, o Vertigo. Nesta fase já podíamos ver algumas marcas de estilo características de Ennis como as consequências e motivações das guerras, a camaradagem masculina em detrimento de figuras femininas de destaque, mas, que ao mesmo tempo servia também para criticar a virilidade e o modo machão de ser. Também vemos muita influência do catolicismo em suas obras, sempre criticando a Igreja, mas ao mesmo tempo também mostrando a ironia nessa crítica.

Também pudera, Garth Ennis nasceu e cresceu em Belfast, capital da Irlanda do Norte, local de explosivas guerrilhas entre católicos e protestantes numa cruzada moderna pela oficialização de uma desimportante profissão de fé naquelas terras. Belfast se colocava como um último bastião entre a Irlanda católica e o Reino Unido protestante, sendo a Irlanda do Norte, território do então Reino Unido, ser alvo de atentados do Exército Revolucionário Republicano, o IRA, que queria reclamar as terras da Irlanda do Norte para a Irlanda. Essa guerra esteve na janela de Ennis desde que ele se entende por gente e influenciou bastante a sua obra seja nos motivos de suas obras como nas motivações de seus personagens, quase sempre perseguindo vinganças sem sentido ou então são tratados como sardônicos críticos da criação de um propósito para sua existência.

Essa visão de uma vida sem sentido, de que o ser humano não tem um propósito, está presente em The Boys. Ennis quis ir em uma direção diferente daquilo que os quadrinhos de super-heróis declaram e de que todos somos intrinsecamente bons, é só tentarmos mais um pouquinho. Ennis sempre foi um crítico ferrenho dos super-heróis e, por mais que tenha tentado se afastar deles, chegou a trabalhar com alguns anti-heróis como Etrigan, o demônio na DC Comics e Justiceiro, Hulk e até mesmo o Homem-Aranha na Marvel, sempre aplicando a eles sua visão peculiar.

Ao trabalhar com o Justiceiro, ele imprimiu um senso de moral enlouquecedor no personagem. Senso este que Frank Castle teria adquirido na Guerra do Vietnã, de onde voltou, modificado por defender seu país. Contudo, Frank não pode proteger sua família do assassinato por uma gangue mafiosa. O Justiceiro é o herói invertido enniseano. Enquanto outros personagens que ele tocou como Constantine, Hitman e Jesse Custer de Preacher são niilistas, que apertam o botão do “foda-se” para tudo, que são a ironia na vida dos outros, o Justiceiro é a própria ironia encarnada. O Justiceiro é aquele para quem a vida apertou o “foda-se” por buscar um significado nela. Talvez por isso tenha encantado e chamado a atenção de Ennis para escrevê-lo.

Mas a ironia também reverte para cima do criador, quando os “homens intrinsecamente maus” de Ennis revertem as mensagens que ele passa em seus gibis. Quando policiais se tatuam com ou usam do símbolo do Justiceiro para justificar suas matanças, ou quando participantes de satanismo se inspiram em Constantine para praticar atos violentos. Quando Juiz Dredd, Hitman e Jesse Custer são utilizados não como sinais e signos de ironia, mas de uma perversidade para com as minorias, de agressividade e uma visão errada da masculinidade. Essa utilização desses personagens está fazendo prevalecer tudo aquilo que Garth Ennis faz crítica em seus quadrinhos, que é o chauvinismo, a misoginia, a violência desmedida, e até mesmo a ironia. Isso pois quando a ironia não é entendida e interpretada superficialmente, o subtexto se dissipa e a ironia é invalidada.

Recentemente tivemos a revelação de que os donos da editora Dynamite, a casa de The Boys, estavam ligados a grupos de ódio de extrema direita e eram contra a diversidade nos quadrinhos. O jornal Valor Econômico noticiou que geeks, nerds, hackers e haters eram os principais apoiadores da nossa extrema direita no Brasil. Se os supers são intrinsecamente maus como pensa Ennis, logo e em breve a interpretação superficial de The Boys vai fazer suas vítimas e definir os seus heróis. Quem será o Homelander ou o Capitão Pátria tupiniquim? Quem dos nossos políticos é visto vestido de super-herói por seus amados fãs?

Não falta muito para que a extrema direita se aposse da iconografia da série para difundir suas ideias, já que, por mais irônicas que sejam as histórias de Juiz Dredd, Lobo, Hitman, Justiceiro e tantos outros, a extrema direita tem o poder de distorcer seus significados e de se apropriar deles para que signifiquem mais e para além do que a história em quadrinhos e a série de televisão criticam. O personagem sem o uso da crítica.

The Boys já existe no mundo como ela é, mesmo não existindo super-heróis no planeta Terra. É um pastiche, um simulacro de megacorporações que a todos domina, homens que abusam de mulheres, genocídios que ninguém se importa na verdade, de congregações religiosas tentando tirar proveito dos seus fiés, da corrupção política, do uso dos símbolos criados para o bem comum disseminando o mal por baixo dos panos, a distorção do que deveria ser moral e principalmente da ética em cargos públicos que deveriam zelar por todos. Se em The Boys nos perguntamos se “todo super é intrinsecamente bom”, também deveríamos nos perguntar no mundo real: “todo ser humano é intrinsecamente mau”?

Acho que depende do uso de como ele faz das informações e da cultura que ele recebe. Mas isso é só a minha opinião. E, na ordem do dia, ela não vale muito. Vamos esperar as reverberações na cultura da série, mas do jeito que as coisas estão se direcionando, será preciso uma crítica muito mais contumaz à sociedade para que, de alguma forma, ela aprenda a interpretar o que há detrás de seus mitos, messias e salvadores da pátria.

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges

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