As alegorias de uma sociedade árida

Edição: Vitor Diel com texto da assessoria
Arte: Giovani Urio

As cidades fictíticas são um recurso alegórico utilizado por escritores como Gabriel García Márquez, com Macondo, Erico Verissimo, com Antares, ou Josué Guimarães, com Lagoa Branca, com a intenção de criar um espaço em que as metáforas possam correr livremente e, assim, estabelecer irrestritos paralelos com a sociedade em que vivemos. Luís Dill é mais um escritor que vem somar a esta inventiva tradição com seu romance mais recente.

Timbirupá se passa em dois dias de outubro de 1930, momento em que Getúlio Vargas está a caminho do Rio de Janeiro – então capital federal – para tomar o poder. Mas a revolução é só pano de fundo. A narrativa mostra o cotidiano da cidadezinha, localizada em região remota do Brasil e que empresta título ao romance. Naquele curto espaço de tempo, Timbirupá vê dois assassinatos, um tornado, e uma catástrofe dantesca. O livro conta com ilustrações de Beto Soares.

A cidade é banhada pelo Rio Kawe-poru, de águas traiçoeiras e misteriosas, onde se oculta o mítico coiteté, conhecido como o “vampiro dos rios”. Sua carne é saborosa e, segundo a tradição indígena, é um peixe que anda. Pelos céus de Timbirupá circula o mugum-três-cores, também em extinção. De plumagem negra e piado desagradável, é tida como ave de mau agouro, capaz de antecipar tragédias. É neste contexto rico em mitologias que Dill constrói uma narrativa repleta de paixões, superstições e truculências, instalada sobre uma geografia quente, árida e ameaçadora.

A obra marca os trinta anos de carreira de Luís Dill, autor reconhecido e premiado pelas suas narrativas cheias de ação direcionadas ao público juvenil. No trecho abaixo, o narrador introduz a atmosfera, que permeia a história, através de uma metáfora:

Timbirupá é um arbusto espinhoso, cheio de unhas em forma de meia-lua e espinhos agudos. Na língua Yatukuwé o nome significa “punho cerrado do mau” ou “punho fechado do diabo”.

Seu tronco é curto, ramificado, de casca rugosa, e nele predominam as curvas. A copa é arredondada, de forma oval e irregular. A espécie produz seiva leitosa que exsuda por toda a planta. A seiva quando fervida e destilada, transforma-se em aguardente ácida e poderosa.

Sobre o autor
Luís Dill nasceu em Porto Alegre em abril de 1965. É formado em Jornalismo pela PUC/RS e tem Pós-graduação lato sensu em Literatura Brasileira. Como escritor estreou em 1990 e, com Timbirupá, chega aos sessenta livros publicados. Entre suas premiações estão o Açorianos de Literatura e o Biblioteca Nacional. Alguns de seus títulos já foram adquiridos por governos municipais, estaduais e federal. Vários receberam o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, e fazem parte de seu acervo básico. Em sua atividade de escritor, participa de feiras do livro e de variados tipos de encontros com leitores em escolas e universidades. Pela Editora Casa 29, tem Minha camisa amarela de flanela, Guri do cimento e 100 mil seguidores (finalista do Prêmio Jabuti de Literatura 2020).

Timbirupá
Luís Dill
232 p.
14 x 21 cm
R$ 50
Casa 29

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Literatura RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s