Julgando pela capa: Não, não é bem isso, de Reginaldo Pujol Filho

Edição: Vitor Diel
Texto, fotos e arte: Giovani Urio

Como assim, a primeira análise é sobre o livro “Não, não é bem isso”? Me prometeram uma coluna sobre texturas, acabamentos e tantas outras possibilidades gráficas, e agora iniciam a coluna com um livro simples desses? E além disso, acho que até errado tá, colocaram o homem virado na capa, é isso mesmo?

Calma, querido e hipotético leitor. O livro de Reginaldo Pujol Filho com certeza é muito mais do que parece. Não, não é bem isso é editado pela Não e, como todos os livros da editora, possui um planejamento gráfico muito bem pensado, funcional e de excelente acabamento. Quem assina o projeto gráfico e a capa desta edição é a Luísa Zardo.

Iniciemos essa jornada gráfica pelo miolo. A fonte utilizada (Linux Libertine) é extremamente confortável à leitura, e mesmo com um tamanho um pouco maior do que usualmente se vê por aí, é convidativa e mantém a atenção sem cansar os olhos do leitor. Muito dessa sensação se deve ao fato de ser utilizada uma fonte serifada (essas perninhas que ficam para fora da letra) que são ótimas para textos longos. Outra característica bacana do livro é a mancha de texto – espaço que o texto ocupa numa página – cujas margens são suficientemente grandes para um bom manuseio das páginas sem comprimir o texto.

Mas pera aí! Achei outro erro ali ó, tem um conto que tá deitado e nem tem esse negócio de serifa, completamente diferente, pode isso?

Calma, leitor. É importante pontuar esse “erro” aí, assim como o homem virado na capa, mas primeiro vamos terminar o tour pelas características do livro que geram um padrão. Você chegou a observar que as aberturas de capítulos e algumas páginas iniciais possuem uma cor diferente, um tom acinzentado? Essa é uma característica importante para a dinâmica do livro, situando o leitor nas diferentes seções que a edição apresenta e deixando a leitura intuitiva, sem que ele precise pensar sobre em que ponto da leitura ele se encontra. Além disso, o título dos contos tem a localização padronizada no canto inferior esquerdo e com uma fonte em bold, fazendo com que seja imediatamente reconhecido.

No aspecto técnico, a capa do livro possui como acabamento, além dos vincos e dobras, plastificação fosca, que protege e não deixa aquela marca de dedo suado quando manuseado, e impressão só de um lado e colorida (na gráfica é chamado de 4×0). O miolo é impresso todo em preto e dos dois lados da página (ou 1×1), além de ser costurado (o que faz com que seu número de páginas seja múltiplo de 8).

Ixi, muita informação! Podemos falar do homem virado?

Tá bem, vamos para a capa então, mas antes de falar sobre a ilustração, vamos analisar as cores utilizadas. O vermelho é uma cor quente que faz com que seja uma das primeiras cores a serem identificadas pelo olho, o que é ótimo para chamar atenção nas prateleiras ou nas miniaturas do market place. Mas isso não quer dizer que um livro deva ser sempre vermelho, ou outra cor quente, para ser melhor identificado. O que está em jogo é o conceito, é fazer com que a identidade visual se comunique com a mensagem do autor e complemente o texto literário. E isso a Luísa Zardo fez muito bem, toda a linguagem irreverente do autor está refletida no projeto gráfico. O próprio vermelho da capa e contracapa é interrompido por um frio azul e branco na lombada, o que quebra a linearidade e a expectativa de um projeto gráfico padrão.

A quarta capa já avisa: “Reginaldo parece querer começar do zero após cada ponto final” e assim como os contos, que algumas vezes beiram uma divertida dislexia, toda a identidade visual reflete esse espírito de liberdade, incluindo a ilustração de capa, com esse homem que tem orelhas de nadadeira, olhar de laranja fatiada, nariz de tesoura, todo montado de recortes e, sim, de cabeça para baixo, porque essa é a melhor representação gráfica para os contos presentes no livro.

Ah, isso justifica até o conto deitado que parece uma página de Wikipedia! Muita licença poética, né?

Exatamente, caro leitor, exatamente.

Não, não é bem isso
Reginaldo Pujol Filho
160 p.
14 x 21 cm
Capa e projeto gráfico de Luísa Zardo
R$ 44,90 (R$ 29,90 e-book)
Não Editora (link externo)

Bacharel em Design, Giovani Urio nasceu em Passo Fundo, em 1983. É artista gráfico com ênfase na criação editorial. Foi diretor de arte da Revista da Cerveja e do Jornal do Mercado entre 2012 e 2017, com experiência em núcleos de marketing, agências de publicidade, escritórios de design, e assessorias de gestão pública. Como ilustrador, teve sua primeira exposição individual na Pinacoteca da AJURIS em Porto Alegre e participou da 19ª Mostra Sesc Cariri de Culturas na cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará. É Diretor de arte do Literatura RS. Foto: Vitor Diel

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