Cristiano Fretta: Em defesa de Machado de Assis

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre fotos de acervo pessoal

No dia 23 de janeiro, o youtuber Felipe Neto, de 33 anos, publicou no Twitter que “Forçar adolescentes a lerem romantismo e realismo brasileiro é um desserviço das escolas para a literatura. Álvares de Azevedo e Machado de Assis NÃO SÃO PARA ADOLESCENTES! E forçar isso gera jovens que acham literatura um saco”. Logo mais, fez outra postagem: “O fato de VOCÊ ser, ou ter sido, um adolescente fora da curva que ama romantismo e realismo brasileiro não significa nada perto do mar de jovens odiando livros por aí. E um dos motivos é justamente a forma como a maioria das escolas aplica a literatura como matéria”. Levando em conta que o influenciador tem cerca de 41 milhões de seguidores nas redes sociais – isso equivale a 11 vezes a população do Uruguai, para se ter uma ideia – e que boa parte de seu público é formado por jovens, as publicações ganharam repercussão e importância imediata. Até o dia 27/01, a primeira postagem contava com nada menos do que 48,4 mil reações, quase 24 mil compartilhamentos e cerca de 8,1 mil comentários.

É evidente que um dos pontos nevrálgicos da educação e cultura brasileira é a leitura. Sua defesa é uma das poucas unanimidades em nossa sociedade: todos a julgam importante – mesmo os que não a praticam – e a consideram uma ferramenta de emancipação intelectual e emocional. Segundo a pesquisa Retratos de Leitura no Brasil, de 2015 a 2019 a porcentagem de leitores caiu de 56% para 52%. O dado mais estarrecedor, no entanto, é a constatação de que cerca de 93 milhões de brasileiros não leram nenhum livro, nem mesmo em parte, nos últimos três meses antes da pesquisa. Digo estarrecedor em termos numéricos, pois basta pensarmos em nossos familiares e amigos para nos darmos conta de que boa parte deles simplesmente não lê. Ainda segundo a Retratos da Leitura no Brasil, o brasileiro lê em média 2,5 livros inteiros por ano. A Bíblia é apontada como o livro mais lido pelos entrevistados. É muito fácil tentarmos explicar esses números vexatórios com base na argumentação de que o brasileiro é preguiçoso e não lê porque não quer. No entanto, por detrás desse argumento falacioso e vira-lata há a realidade de um vazio estrutural – nas mais diversas esferas – que impossibilita que a leitura se perspective como prática social cotidiana no nosso país. Não se trata somente de vontade de ler, mas também de condições sócio-político-culturais para que o ato da leitura se torne um hábito cultural nacional.

As afirmações de Felipe Neto culpabilizam o sistema de ensino – a “escola”, no seu sentido mais amplo – pelo desinteresse de boa parte dos jovens pela leitura, como se a tradição escolar brasileira fosse a responsável por gerar traumas literários. Traz como exemplo duas escolas literárias (Romantismo e Realismo) e dois autores (Álvares de Azevedo e Machado de Assis). Confesso que é muito difícil para mim pensar o currículo da educação básica brasileira sem Machado. Machado de Assis é um gênio. E muito mais do que isso: é um gênio universal e, acima de tudo, brasileiro. Machado é um autor negro na sociedade do final do século 19. Isso, por si só, já não é pouca coisa. Além disso, ele renovou a prosa brasileira, foi um profundo analista da nossa sociedade e da psicologia humana, criou personagens extremamente complexos e representou um ponto de chegada e maturidade de nossa literatura, na medida em que condensou todas as influências da literatura europeia de forma a produzir uma prosa que temática e esteticamente estabelecia uma relação dialética com a nossa sociedade. Machado de Assis é um patrimônio da cultura brasileira, motivo de orgulho e autoestima na nossa construção de nação. Onde mais boa parte da sociedade poderia conhecê-lo e estudá-lo se não na escola?

A provocação do influenciador é paradoxal: seu nível de influência é imenso e, portanto, pode ser positivo, mas, ao mesmo tempo, Felipe Neto não é uma autoridade no assunto para ser assim tão assertivo, utilizando-se inclusive de letras em caixa alta. Sem perceber, ele cai na vala comum de boa parte da população brasileira, que se julga empoderada para dar pitaco em qualquer tipo de assunto que se refira à educação. É claro que ela é um bem comum da sociedade e que todos nós, pelo menos em alguma medida, tivemos contato com ambientes educativos em nossa trajetória. No entanto, há a necessidade de um respeito categórico em relação àqueles que pensam e praticam a educação no dia a dia. Em outras palavras, o fato de você e seus amigos não gostarem de ler Machado de Assis não lhes dá autoridade intelectual para questionar todo o sistema educativo brasileiro. Isso não quer dizer que ele não seja falho – e o é, nas mais diversas esferas -, mas é importante termos claro que fazer educação é uma das tarefas mais difíceis e desafiadores de ser perspectivada no dia de qualquer ambiente, por mais preparado que ele esteja.

A queixa de Felipe Neto é antiga no mundo das letras: o que se deve priorizar, a leitura enquanto fruição estética e entretenimento ou o estudo da historiografia da literatura brasileira, baseada no cânone – que é eminentemente branco e masculino e, portanto, ideológico? Segundo Ítalo Calvino, “Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ´Estou relendo…´ e nunca ´estou lendo´”. Ou seja, um clássico é uma obra que nunca termina, emana sentido em múltiplas formas, é lacunar, aguça a nossa subjetividade e na maioria das vezes tem a capacidade de se colar ao contexto em nossa volta. Isso significa que, apesar da dificuldade que determinados clássicos possam mostrar em termos de estrutura, não podemos nos furtar ao fato de admitirmos qualidades estéticas. E não é um dos deveres da escola aguçar o olhar dos alunos em relação a qualidades estéticas de uma obra de arte?

Felipe Neto é muito genérico ao se referir a escolas. De que escola ele está falando? Da pública – e mesmo essa tem diferenças abismais nos mais diversos estados brasileiros, tanto em termos de estrutura física quanto remuneração dos professores – ou da privada? Em qual estado? Qual faixa etária? Chamar tudo de “escola” é uma generalidade ingênua e que pasteuriza as mais diversas realidades possíveis em um país extremamente desigual como o Brasil.

Também é preciso salientar que a leitura se perspectiva como prática desafiadora. Isso não significa que o sofrimento seja um pré-requisito necessário para, por exemplo, se terminar de ler um romance, mas o longo caminho entre a decifração de palavras e a percepção de um gênero coeso requer muito trabalho mental. É pedagogicamente romântica a ideia de que é possível formarmos saberes acadêmicos por meio de pura diversão. Isso não significa, claro, que devamos transformar o currículo em um cartesianismo puro e simples, mas sim que a ludicidade não pode ser uma ditadura a nenhum tipo de organização escolar, na medida em que a grande maioria do conhecimento humano só foi possível graças à observação e ao erro.

Sabemos, porém, que a linguagem polida de Machado de Assis está muito longe de ser semelhante às nossas formas de comunicação em 2021. Como diria Sartre, em Que é a Literatura?, “Os autores também são históricos; e é justamente por isso que alguns deles almejam escapar à história para um salto na eternidade. Entre esses homens mergulhados na mesma história e que contribuem do mesmo modo para fazê-la, um contato histórico se estabelece por meio do livro. Escritura e leitura são as duas faces de um mesmo fato histórico, e a liberdade à qual o escritor nos incita não é uma pura consciência abstrata de ser livre. (…)”. Dessa forma, compreende-se que o contexto é um agente da própria estrutura, nos sentidos linguísticos mais amplos, da escolha lexical ao gênero utilizado. O mestre Antonio Candido disse que “a própria literatura hermética apresenta fenômenos que a tornam tão social, para o sociólogo, quanto a poesia política ou o romance de costumes (…)”. Ou seja, a forma machadiana é profundamente social. Machado de Assis é essencial, portanto, para se entender o Brasil do século 19. E o Brasil do século 19 é essencial para se compreender o Brasil de hoje. E não é uma das funções da literatura justamente dar acesso aos discursos sociais que se organizam em torno da linguagem?

No entanto, o grande vazio argumentativo de Felipe Neto reside em não perceber o alto grau de dinamismo que uma aula de literatura pode ter. Recai sobre o professor, neste sentido, a responsabilidade de saber extrair das leituras clássicas não só a estrutura de um mundo diferente do nosso, mas também mostrar as possibilidades de diálogo com o presente. Dessa forma, uma aula sobre Parnasianismo pode suscitar a discussão em torno, por exemplo, da aptidão da política brasileira a formalismos vazios; o Simbolismo pode ser relacionado com as frias manhãs porto-alegrenses, repletas de neblina na zona norte. Obviamente isso são apenas exemplos. Mas o que impede que um professor trabalhe ao mesmo tempo Memórias Póstumas de Brás Cubas e A menina que roubava livros ou qualquer outro livro proposto pelos próprios estudantes? O meio termo entre uma abordagem canônica e outra mais centrada na fruição da leitura é perfeitamente possível, por meio da lista de leituras, da condução das aulas e dos processos avaliativos. Nada impede este meio termo.

Outra questão muito espinhosa – isso mais no caso da escola particular – é relativa ao uso de material didático. Como os sistemas de ensino costumam ter valores muito altos no orçamento das famílias, pesa sobre o professor a responsabilidade de usar o material inteiro, e assim justificar o investimento feito. Em outras palavras, sim, é necessário utilizar todo aquele capítulo sobre as cantigas portuguesas. Não conheço nenhum sistema de ensino que tenha material de literatura totalmente descolado da historiografia literária. Isso porque os materiais não são feitos de forma aleatória, mas sim obedecem à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) bem como a exigências mercadológicas baseadas no Enem e nos mais diversos vestibulares.

A culpabilização das escolas e dos professores só é possível caso houvesse estruturas físicas e curriculares adequadas, salários justos e tempo de planejamento disponível. Cobrar a leitura de Machado de Assis é, portanto, uma necessidade pedagógica básica da escola brasileira. E isso não inviabiliza que autores contemporâneos sejam trabalhados ou mesmo que os próprios estudantes tragam as suas experiências de linguagem para o ambiente escolar. Que Machado e Emicida possam coabitar a sala de aula sem serem excludentes.

Cristiano Fretta tem 33 anos, é mestre em Letras pela UFRGS, músico, compositor e professor de Literatura e Língua Portuguesa em escolas privadas de Porto Alegre. É autor das obras Chão de Areia, Tortos Caminhos e A luz que entrava pela janela. Também colabora com as revistas digitais Parêntese, do grupo Matinal Jornalismo, e Passa Palavra.

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