Deivison Campos: Coisas que não devemos esquecer

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

“Álvares de Azevedo e Machado de Assis NÃO SÃO PARA ADOLESCENTES!” A postagem de Felipe Neto ainda não completou duas semanas no Twitter, mas as pessoas não falam mais sobre ela e a maioria nem lembra da mobilização que gerou nas redes. Talvez por se autodeclarar mimizeiro e hipócrita, a postagem deva realmente ser esquecida. No entanto, me interessa refletir sobre os sentidos produzidos e, principalmente, os contextos a partir dos quais ela é proferida.

A velocidade com que o esquecimento se impõe é uma das características de nosso tempo e está latente na opinião do influencer. Mesmo com uma legenda de imagem que diz “crie uma treta literária e saia”, a exclamação aponta para a valorização do permanente devir em detrimento de tudo e qualquer coisa que foi, mesmo que na curta duração, como a postagem engolida em sua própria lógica.

A cultura contemporânea segue na modernidade-colonial, por mais que diferentes manifestos a declarem pós. Nessa versão, exacerbada pela tecnologia, o progresso, rebatizado de inovação, se mantém como principal valor. Aliada a velocidade de circulação, a inovação acaba por desautorizar, nas relações cotidianas, qualquer conhecimento anterior, as pessoas que legitimam o conhecimento e até mesmo os lugares de conhecimento.

Essa característica se deve à prevalência de uma tecnocultura na qual são borrados no senso comum os limites entre influencers e intelectuais, opinião e informação, propaganda e conhecimento, escrever e ser escritor. Aguarda-se a próxima postagem, comentário, meme, ou mesmo fake news. Neste contexto, questiona-se, mais do que a disciplina, a escola como um lugar de conhecimento válido para esse novo tempo, afinal – leia com ironia, “os produtores de conteúdo da internet conseguiram responder de maneira adequada às demandas de conhecimento do contexto tecnológico.”

Bourdieu, num texto dos anos 70 sobre opinião pública, apontava como falso o postulado – referindo-se às pesquisas, que “supõe que todo mundo pode ter uma opinião, ou, em outras palavras, que a produção de uma opinião está ao alcance de todos”. A crítica torna-se criticada em nosso tempo, assim como o conhecimento, pois o que “eu acho” tornou-se mais importante, seja sobre a covid, seja sobre literatura.

A postagem contém também uma autorreferenciação não dita, característica ampliada na mídia em rede, de que influencers sabem melhor do que professores o que é adequado em termos de conhecimento aos adolescentes e os milhões de seguidores são prova disso. Usa-se então a exclusão do outro como estratégia de autopromoção. Mais do que isso, seus posts ofereceriam melhores instrumentos para viver nesse permanente devir do que os cânones.

No entanto, colocar Machado de Assis no mesmo patamar de Álvares de Azevedo, o que nem mesmo ele depois de um mergulho a Noite na Taverna concordaria, mostra a fragilidade da opinião e a relação preconceituosa com os cânones e os leitores adolescentes. Também se mostra superficial em negar a diversidade de sentidos e experiências possíveis com a leitura de obras do Romantismo e do Realismo. Precisamos de referências e repertório para atuar no mundo, pois como diz minha vó, a Tuli, “saco vazio não para em pé”.

A referência a Machado de Assis faz emergir igualmente sentidos racialistas de negação e recalcamento em relação ao escritor, reconhecidamente o “maior nome da literatura brasileira”, sendo apontado em diferentes contextos como gênio da literatura mundial. A negação de sua validade surge num contexto em que sua pertença racial foi recuperada por ação política do movimento negro que, ao mesmo tempo, denuncia as matrizes eugênicas e racistas de um escritor reconhecido por suas obras para a faixa etária em questão.

Ignorar a dimensão política da questão é uma manifestação de branquitude que é, segundo Liv Sovik, “atributo de quem ocupa um lugar social no alto da pirâmide, é uma prática social e o exercício de uma função que reforça e reproduz instituições”. Num país em que existe uma vergonhosa legislação que obriga que sua história e cultura seja ensinada – e não só a versão europeia, Machado de Assis é uma personificação possível para a lei 10639/2003. É a síntese de um projeto possível de nação.

A negação e o recalcamento são dois dos fatores pelo qual o racismo estrutura as instituições, entendidas como “modo de fazer e pensar independente do indivíduo” se manifesta conforme Muniz Sodré. Ao mesmo tempo que se nega a existência de racismo, se omite aspectos identitários positivos das culturas negras. Outro operador do racismo é a indiferença dos envolvidos que, nestes casos, normalizam as relações racialistas. Não refletir sobre isso é manter as coisas como são, fomentando o que Cida Bento denominou de pacto narcísico da branquitude.

Neste sentido, esqueça o post e esqueça a coluna. Não esqueça do lugar construído por este homem negro em meio a uma sociedade escravista. Sua negritude e contribuição não podem mais ser silenciadas.

Deivison Moacir Cezar de Campos é jornalista, doutor em Ciências da Comunicação e doutorando em História. Professor do PPG em Educação e dos cursos de Comunicação da Ulbra. É pesquisador vinculado aos grupos de Comunicação e Mídia da ABPN; Estéticas, Políticas do Corpo e Gênero da Intercom. Integra o Coletivo Casa de Joana – afro-empreendedorismo e cultura negra, e é conselheiro de Cultura de Canoas. Ritmista da União da Vila do Iapi, cultiva um amor tátil pelos livros.

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