Maiara Alvarez: Entre ser e estar

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Se você abriu este livro em busca de um passo-a-passo, apresento-lhe minhas inquietações… (p.80)

Este será um texto complexo e sinto que tenho começado alguns dos últimos assim. Não é surpresa para mim. Depois de um ano e meio publicando resenhas por aqui, já tava mais do que na hora de eu me repetir. E será que já não o fiz antes?

Então, sim, a psicologia social tem esse costume de desfazer as coisas que fazem com que as outras áreas digam: como assim, vai sair e deixar tudo bagunçado? (p.119)

Bom, e por que uma escrita complexa de uma leitura idem? Pelo simples motivo de me desafiar. Longe de mim que todas as minhas leituras sejam complexas. Leio livros rápidos, livros fáceis, livros confortáveis, livros divertidos e, vez ou outra, me sento com algo que vai me fazer alongar a média de uma página por minuto. Porque, antes de quebrar a cabeça, Pajubá-Terapia, da psicóloga Sofia Favero, é um livro que vai abalar algumas estruturas e derrubar algumas coisas e depois usar essa base para mais um puxadinho que eu vou amar com carinho.

O problema está menos na pergunta e mais na crença de que, ao saber quando começou, se pudesse traçar uma coerência em relação a algo que é incoerente por natureza: o gênero, o sujeito, a identidade. (p.19)

Eu e Sofia temos muitas diferenças. Ela é doutoranda e eu larguei a academia depois de uma pós lato sensu. Ela é ativista e eu não faço mais que textões na internet: leia-se estas resenhas aqui mesmo. Favero veio do Nordeste e eu só conheço o que é emigrar de uma cidade de colonização alemã para uma de italianos — e tudo aqui no Sul. Sofia fala, ainda, de dois espaços que só conheço por observação: o de transexual e o de psicóloga.

Nós, infelizmente, somos as que pagamos o preço. Às vezes, abdicando do curso. Outras vezes, suportando. Prefiro trabalhar com o termo “suportar” do que com aquele viciado conceito de resiliência, que, para mim, soa mais como uma forma de culpabilizar o indivíduo. (p.27)

Dos espaços do que ela é e está, dividimos um de existência: somos mulheres. E, ávida pela teoria feminista, o livro de Sofia cai como (um tapa de) luva sobre minhas pesquisas leigas: fala muito do que interessa a mim, como ser humano, e como feminista. O de me entender nos espaços que sou e que estou e o de alguns possíveis caminhos a trilhar no futuro como uma pessoa… melhor? Mais feliz?

Acredite, no campo dos estudos de gênero, uma arena violentíssima para mulheres falarem, as coisas precisam estar esmiuçadas — caso contrário, as repercussões podem ser bastante feias. Acha mesmo que só no movimento LGBT é que existe mal-estar? Se surpreenderia, então, com o potencial destrutivo da academia brasileira para com as escritoras (trans)femininas. (p.50)

Digo melhor, pois, como estabelece Sofia neste livro, não quero ser (nem quero que ninguém seja) laboratório para humanização de ninguém. Meus experimentos, que são apenas meus, se dão por critérios muito subjetivos e sem necessidade de avaliação quali ou quantitativa. Se olho para um ou outro número, eles pouco significam, apenas alguns marcadores de caminhos trilhados.

Me interessam mais as palavras, e Sofia escolhe justamente o texto literário, sem invisibilizar, mas justamente humanizando conteúdos que, via de regra — e não de prática, como ela mesmo mostra — seriam acadêmicos. Um texto — sim, eu digo — teórico, pois teoriza sobre a constante mobilização que exige a nossa postura atenta: no caso de Pajubá-Terapia, da cisnormatividade; e nos casos mais amplos, de todos os outros pontos normativo-opressores.

E, como ela pediu, coloquei o livro na seção de feminismo, onde ela é e está. Obrigada, Sofia.

Sobre a autora
Sofia Favero é psicóloga. Doutoranda em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS (PPGPSI), local onde também adquiriu o título de mestra. Faz parte da Associação e Movimento Sergipano de Transexuais e Travestis (AMOSERTRANS) e do Núcleo de Pesquisa em Gênero e Sexualidade (NUPSEX). Atualmente, representa o CRP-RS no Comitê Técnico de Saúde LGBT do Rio Grande do Sul e se interessa por temas como infância, clínica e diagnóstico.

Sobre a editora
A Nemesis Editora está situada na cidade de Porto Alegre, estado do Rio Grande do Sul. Foi criada em janeiro de 2019 com o propósito de publicar e dar visibilidade às obras produzidas por pessoas transgêneras, transexuais e travestis – binárias e não binárias. Em seu Conselho Editorial, conta com Atena Beauvoir e Luz Gonçalves Brito.

Pajubá-Terapia: ensaios sobre a cisnorma
Sofia Favero
132 p.
R$ 40
Nemesis Editora

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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