Ana Paula Cecato: Ela é Bárbara!

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio
; fotos de Diego Lopes/CRL

“Bárbara Catarina é um nome forte na arte da contação de histórias no Rio Grande do Sul. Tem atuado há mais de vinte anos na Feira do Livro de Porto Alegre”

Ailton Krenak, nos seus livros Ideias para adiar o fim do mundo e A vida não é útil, traz a ideia dos paraquedas coloridos, referências que nos impulsionam para que as quedas e os fracassos da vida sejam menos dolorosos e servem para que se conte mais uma história, e seja possível adiar o fim do mundo. Foi com esse pensamento – e porque também ela é um dos meus paraquedas coloridos – que fiz uma pequena entrevista com a contadora de histórias e atriz Bárbara Catarina. Bárbara é um nome forte na arte da contação de histórias no Rio Grande do Sul. Tem atuado há mais de vinte anos na Feira do Livro de Porto Alegre, no espaço de contação de histórias para a primeira infância, e em outros eventos literários, sempre com seus bordões, inclusive aquele como é conhecida: a rainha do kekeké.

Bárbara se recupera de uma batalha contra a covid-19, após três meses de internação hospitalar, dois deles em coma, intubada. Ainda tem algumas sequelas motoras, para as quais tem feito fisioterapia diariamente, além de atendimentos médicos pelo SUS (Viva o SUS!). No seu depoimento, coletado em áudio, Bárbara faz um relato aberto e honesto sobre seu processo de recuperação, e demonstra toda sua força de viver e sua generosidade, que motivou uma potente rede de solidariedade de familiares, amigos e colegas.

Na última semana, Bárbara publicou seus primeiros vídeos contando histórias depois da doença. Em um deles, narra uma história escrita especialmente para ela: As aventuras de Bárbara Catarina, da escritora Simone Saueressig. Um conto de fadas, em que se faz presente o maravilhoso, explicado por Todorov como o gênero em que não é possível qualquer explicação racional para os fenômenos (sobre)naturais, se faz vida, renascida pela força do amor, do afeto e das histórias. O vídeo pode ser conferido aqui (link externo).

Antes da entrevista, recomendo aos leitores que se inscrevam no canal da Rainha do Kekeké no Youtube (link externo).

Ana: Bárbara, todo mundo já sabia que tu tinha nascido para ser contadora de histórias. Agora, ficamos sabendo que tu renasceu porque é contadora de histórias.
Bárbara: Tu falou uma palavra muito certa: renascimento. É assim que eu me sinto. Renascida e cheia de força. Foi tanto tempo, uma gestação longa, eu vivi cada segundo e senti tantas dores, mas hoje eu digo que são as dores do parto, eu mesma me parindo, eu mesma me trazendo de volta. Com a força que eu acredito, que é a força de Deus, com a força da fé, do carinho, do amor, das pessoas em volta. Então eu hoje me sinto agraciada pelo fato de ser uma contadora de histórias e de saber que as histórias me salvaram, que a literatura me salvou. Porque quando o médico disse “qual é a tua profissão?”, eu já tinha respondido tanta coisa pra ele, mas na hora deu um impacto que eu pensei “qual é a minha profissão?”, e aí, eu abrindo os olhos, enchi a boca pra dizer “contadora de histórias”. Eu achei que ele ia fazer alguma brincadeira, mas ele me olhou bem sério e disse “quer dizer que a senhora lê muito?” e eu disse que sim, e ele seguiu “então eu quero lhe informar que os livros lhe salvaram, por que seu corpo foi todo afetado pela covid, mas o seu cérebro tá intacto”. Naquele momento, eu fiquei pensando “meu cérebro tá intacto! Então quer dizer que todas as minhas histórias estão comigo, não perdi nenhuma, nenhuma lembrança, tá tudo comigo, tá tudo comigo, aqui” e nesse momento eu me senti viva, renascida e pronta pra começar uma grande batalha, que era a de estar novamente entre os meus, entre os meus amores, viver. Aí eu disse “É agora, Bárbara, vambora!” E aí, estou. É isso, flor.

Diego Lopes/CRL

Ana: Como têm sido teus dias? Tua rotina de recuperação? Como anda o kekeké?
Bárbara: O dia a dia da minha recuperação começou no dia em que eu saí do hospital. Eu cheguei em casa, passei debaixo das parreiras daqui de casa, coisa que eu achei que eu nunca mais ia ver, eu comecei a chorar, garoava e aquela água caía no meu rosto, e eu olhava pras parreiras. Quando entrei no meu quarto e vi a cama hospitalar, me colocaram na cama, meu filho se aproximou, a Bia (madrasta), eu senti: agora vai. E a partir dali já chegou a cuidadora, a Cleia, e começaram a me incentivar muito, porque eu não tinha nenhuma função. Quando eu cheguei do hospital, eu só mexia a cabeça. Eu precisava de tudo, de todos, o tempo todo. Tinham que me erguer, me virar… Meu filho fazia muita força, o Gabriel foi uma torre, pra mim. Nessa minha recuperação, nesse meu dia a dia, o que seria de mim sem o Gabriel. Gabriel 24h, direto, agora que ele relaxou um pouco. Porque agora eu tô mais independente. Ficar um mês inteiro na cama, pelo amor da Vaca Jersey, ninguém merece! E todos os dias eu tinha uma atividade. A minha irmã (Débora) aqui junto comigo me cuidando, me paparicando. A minha rotina era abrir os olhos e ficar cercada de pessoas que eu amava. Só que o dia ia passando e eu sentia uma tortura, porque não podia sair do quarto, eu tava presa. A sensação de estar presa, nessa rotina, era cruel demais. Tinha dias que eu dizia “Meu Deus, quero sair desse quarto!”, eu escutava as pessoas ao longe e pensava “eu quero tá lá, eu quero tá lá, vivendo isso”. Mas eu sei que fui superando, e a minha rotina foi mostrando que era um exercício do dia a dia. Que cada dia eu ia mexer um dedo, que cada dia eu ia mexer a cintura, que cada dia eu ia mexer o pé, que um dia eu ia botar os pés pra fora da cama. Imagina que eu só fui colocar meus pés no chão, em 2021, no início de maio. E hoje, hoje tá muito mais tranquilo. Hoje eu acordo, eu levanto, calço minhas sandálias, pego a minha bengala, venho até a cozinha, esquento o leite no micro-ondas, sento, tudo muito devagarinho, tudo muito pensadinho, porque eu tenho que cuidar o movimento das minhas pernas, porque eu posso tropicar e cair no chão. Sento e tomo o meu café. E não preciso chamar o Gabriel. Aí eu me arrumo e me visto com a ajuda do Gabriel, e me preparo pra chegada da fisioterapeuta ou dos médicos, ou ir pra academia do SUS. Quando eu volto o Gabriel já tá com o almoço pronto, a gente almoça junto, eu e ele, ele sentadinho, ele olhando no meu olho, eu olhando no olho dele, ele faz a comida, ele lava a louça, ele passa pano na casa, e eu fico de rainha, sentada, lendo. Lendo. É… Ana Paula, a melhor coisa do mundo é ler. Que maravilha é poder voltar a ler.

Ana: Quais são teus planos pro futuro? Sei que já tens gravado vídeos…
Bárbara: Bom, tô cheia de planos, né, porque comecei um novo momento. Agora, quero gravar mais vídeos para colocar na internet, porque eu quero ficar mais forte. Eu tenho que me atualizar do que tá acontecendo no mundo da contação de histórias: o que estão contando, o que estão lendo, o que tá sendo lançado. Quero me jogar pras feiras de livro, eu sei que Bento Gonçalves vai acontecer, eu quero voltar, se Deus quiser pra Feira do Livro de Porto Alegre também. Eu vou gravar um vídeo pro Instituto Ágora, da Sônia Zanchetta, pra passarem pras crianças, uma história bem divertida. E tenho a pretensão de fazer uma oficina on-line de contação de histórias. Quero fazer uma oficina de alguns dias, sobre uma temática que é super importante , quero falar sobre a covid dentro da contação de histórias. Como o contador de histórias fala sobre algo tão atual. A gente sabe que estão saindo muitos livros sobre essa temática, que eu vivi e vivo, e tem essa história da Simone, sou apaixonada por essa história, que eu conto e fala sobre isso. Essas são as minhas pretensões nesse momento: fazer a oficina, começar a me mostrar. Porque como tu falou, o contador de histórias vive muito da mídia, a gente precisa tá nas redes sociais, pra que as professoras e as pessoas vejam que tu tá atuante e que tu tá bem. E claro, eu não posso pegar ônibus, viajar pra longe, eu tô podendo fazer on- line, on-line é seguro, posso fazer atividades por uma tarde inteira. Quero me jogar nas contações de histórias, pegar uma história do Italo Calvino, contar histórias diferentes, como a da Simone, que, pra mim, foi um desafio. Porque era uma história que falava sobre meu estado e ao mesmo tempo que era contemporâneo, era um conto de fadas. Então foi algo diferente e eu me surpreendi com o efeito, porque eu gosto de me ver. Eu sou uma pessoa que não tenho medo de me ver na câmera, sou uma gordinha exibida, uma gordinária exibida, eu gosto de me ver. Eu acho que tá aí, onde mora a minha vaidade, é no meu trabalho. De resto, não sou uma pessoa vaidosa. Com meu trabalho eu sou muito cuidadosa, pelo menos tento ser. Esses são meus planos: quero estar na feira do livro de Bento, na feira do livro de Porto Alegre, nas escolas, quero voltar a falar com os divulgadores das editoras, que trabalham no miudinho com as escolas, e dizer que Barbara Catarina do kekeké está de volta.

Ana Paula Cecato é graduada e mestra em Letras e professora de Letras – Português/Inglês do IFRS – Campus Rolante. Fez parte da equipe da Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, trabalhando na curadoria da programação, nos programas de incentivo à leitura e na formação de mediadores de leitura. Coordena o curso de extensão “Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura”. Foi jurada do Prêmio Jabuti em 2019 na categoria Fomento à Leitura.
Foto: Acervo pessoal.

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