Minha rotina: Carolina Panta

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de acervo pessoal

“Esboço muitas árvores genealógicas e linhas do tempo antes de iniciar a escrita em si. Isso me ajuda muito para que meu tempo seja aproveitado na trama do texto”. Esta é uma das técnicas que a escritora Carolina Panta compartilha nesta entrevista, nova edição da série Minha rotina. Autora de Dois Nós (Metamorfose, 2019) e Olivetti Lettera 32 (Zouk, 2020), Carolina é também editora da La Loba Magazine, uma publicação mensal distribuída de forma digital pelo Instagram @lalobamagazine dedicada às autorias de mulheres artistas. A busca pela construção de uma coletividade de vozes de mulheres é um dos impulsos que movimentam a carreira da autora, uma vez que seus dois romances apresentam as subjetividades de personagens femininas como elementos centrais na narrativa.

Na conversa abaixo, Carolina revela alguns de seus processos de trabalho, sua organização para escrita, o desafio de equilibrar diferentes papéis sociais e profissionais e ainda manter-se criativamente produtiva.

Boa leitura!

Você tem uma rotina para escrita? Você escreve diariamente?
Se uma mulher escrevesse, teria de escrever na sala de estar comum. E isso quem disse foi a Woolf, Virginia, e não eu. Quem dera pudesse subverter as máximas de tantos anos passados. Mas sigo a cartilha: escrita na mesa de jantar, olho na criança, olho no papel. Ainda custo a acreditar em um ritual de escrita, como correr 10km e, depois, escrever um ou dois capítulos. Ainda me cobro com constância quando me separo do meu filho para seguir os passos dos personagens.

Tenho buscado uma escrita diária, mesmo que aconteça aos poucos nos espaços de tempo que o dia me oferece. Agora, em meio à preparação de um novo romance, ainda busco um ritmo para permitir que essa história jorre finalmente.

Fotos: acervo pessoal

Você elabora algum planejamento para a produção dos seus livros?
Mesmo sendo a rotina de escrita algo impossível à realidade nesse momento, procuro organizar uma estruturação da narrativa como uma escaleta de roteiro. Isso me permite maior objetividade nos momentos surgidos entre as refeições da criança e o meu trabalho formal como professora. Esboço muitas árvores genealógicas e linhas do tempo antes de iniciar a escrita em si. Isso me ajuda muito para que meu tempo seja aproveitado na trama do texto, nas inversões sintáticas e em outras teias textuais.

O que você faz para distrair-se do trabalho da escrita?
Eu conto o tempo para voltar a ele.

Qual plataforma ou editor de texto você utiliza para escrever? Por quê? E como organiza os arquivos?
Costumo utilizar o Google Docs, pois isso me permite trabalhar no texto em lugares que não a sala de casa. Faço menos downloads dos arquivos do que gostaria ou do que acredito ser prudente, mas o trabalho online me dá a oportunidade de trabalho em intervalos como a hora do almoço, por exemplo. Como forma de organização, tenho utilizado o Trello, uma plataforma de gerenciamento de projetos com os quadros, listas e cartões intuitivos.

Mas, na verdade, a espinha do texto nasce em folhas de papel. Mais exatamente em cadernos de capa preta, gramatura 150 e sem pauta. Sempre trabalho primeiro no papel. Por algum motivo, o movimento da caneta me dá sensação de poesia, algo que as teclas do computador não me trazem na primeira escrita.

O que uma escritora precisa para escrever?
Para escrever, uma mulher precisa de tempo. Mas muito mais do que isso: precisa aprender a encontrar o seu tempo. Precisa, também, deixar de lado as culpas históricas e praticar uma escrita selvagem, já que uma mulher inserida no campo intelectual muitas vezes é julgada ou por produzir uma arte vista como “menor” e mais “emocional” ou por trabalhar em sua carreira em detrimento à família.

Talvez, antes disso, uma escritora ou escritor precise ter fome de saber, de descobrir. É necessária uma consciência ampla das histórias, uma visão de que todas as narrativas possuem diversos lados em um prisma. Precisamos perseguir menos uma verdade, uma forma de fazer, e buscar exercitar a mente com os pés fincados na contemporaneidade.

Quais autores e autoras são os seus preferidos e quais livros vocês recomenda?
Tenho lido majoritariamente mulheres. Nessa lista, não pode faltar um nome como de Conceição Evaristo. Não perco uma Elena Ferrante. Ando ansiosa pela novo da Natália Borges Polesso. Wislawa Szymborska é de cabeceira. Também tenho me apegado a leituras sobre feminismos, como bell hooks, Audre Lorde e Silvia Federici. Há também aqueles homens que estão sensíveis e atrelados a uma visão mais contemporânea, como o Jeferson Tenório, por exemplo, que foi meu colega de faculdade.

Olivetti Lettera 32
Carolina Panta
178 p.
R$ 46,90
Compre aqui (link externo)

Dois Nós
Carolina Panta
135 p.
R$ 35
Compre aqui (link externo)

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Literatura RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s