Deivison Campos: “Era tudo tão singelo!”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de Tânia Meinerz

“Em nossos últimos encontros, falava sempre de seu interesse em aprofundar seu conhecimento da cultura congo-angola. Essa é uma discussão bastante periférica, mas importante sobre cultura brasileira

“Belas memórias. Era tudo tão singelo. Que preciosidade vivemos!” O comentário de Bel Clavelin, jornalista e militante feminista, em uma postagem que fiz no dia 16, em que Oliveira Silveira completaria 80 anos de nascimento, tem me acompanhado desde então. Havia postado um retrato de Oliveira debruçado no parapeito de uma das janelas da Casa de Cultura, feito pelo fotógrafo Neco Varella para o Estadão, que circula livremente nas redes sociais. Aquela tarde, junto com Bel, foi a última vez que estive por mais tempo com ele.

Mais que memória, Oliveira Silveira vive! Vive em sua obra e em todos com os quais planejou, ou realizou algum projeto literário, cultural, artístico, político, acadêmico. A literatura sempre foi sua grande forma de expressão e acreditava na potência política da escrita. Sua produção literária tem sido mais estudada atualmente, mas entendo que ainda deve ser mais tensionada frente aos diferentes contextos de luta em que esteve envolvido.

Sempre quando penso em Oliveira lembro daquela figura cuja presença produzia um contexto de tranquilidade. Carregava sempre um sorriso tímido e, ao mesmo tempo, acolhedor. Falava pausadamente e com voz suave, baixa e gentil, mas sempre com ideias muito claras. Se impunha, portanto, pelo que tinha a dizer e pelo acúmulo de experiência de estar em grupo e atuar dessa forma. Por muito tempo, busquei sintetizar essa experiência em sua companhia e, realmente, era tudo tão singelo.

Em anos de conversa e algumas horas de gravação, não lembro de ouvi-lo falar em primeira pessoa. Talvez nos primeiros anos do século quando vivia com entusiasmo a experiência de avô de Thales e seu tempo estava ligado a demandas do neto. Sempre sorria e referia, quando falava do 20, por exemplo, que a escolha sempre foi Palmares. Queria, portanto, ser mais um, mas tornou-se um que sempre estava articulando, ou participando diretamente das coisas que interessavam. Este é seu testamento.

Quando estava produzindo minha dissertação, um dia comentei com Moacyr Scliar nos corredores da rádio Gaúcha. Não lembro o contexto em que a conversa aconteceu. Referiu que conheceu Oliveira muito jovem em encontros literários e perguntou o quanto a escrita do poeta entraria no texto, pois entendia sua relevância. Os encontros prosseguiram por décadas, assim como os desencontros. Scliar foi institucionalizado. A obra de Oliveira precisou do tempo e, apesar da circulação possível, teve suas melhores edições póstumas.

Ligado ao movimento estudantil, no período da Legalidade, Oliveria descobriu a literatura negra ainda no ensino médio, enquanto cursava o Clássico no Julinho. Me contou que foi a professora e poetisa Nara Lemos quem lhe apresentou o livro Reflexões sobre o Racismo, organizado por Sartre. O texto de Léopold Senghor, articulador da Negritude, originalmente prefácio de Antologia da nova poesia negra e malgaxe de língua francesa, foi o que mais lhe impactou. Além disso, teve contato com autores negros de África e da diáspora. Solano Trindade e Cruz e Souza lhe trouxeram para realidade brasileira. Foi quando articulou literatura, militância e negritude.

Esse é o início da história. Em nossos últimos encontros, falava sempre de seu interesse em aprofundar seu conhecimento da cultura congo-angola. Essa é uma discussão bastante periférica, mas importante sobre cultura brasileira. Integrantes do quarto ciclo de escravização, os nagôs/iorubás mantiveram elementos vivos de sua cultura no Brasil, como a religião dos Orixás e Voduns. No entanto, foram os bantus que inventaram a cultura brasileira – hábitos, fazeres e língua. Há quem diga que o “nagocentrismo” foi criação da missão francesa, principalmente, Roger Bastide, que chegou a se iniciar no Candomblé da Bahia.

Oliveira já estava atento ao debate, mas não teve tempo de trazê-lo à luz naquele momento – algo sabido, mas não dito. A centralidade da discussão no processo de redescobrimento do Brasil tem mobilizado intelectuais como Nei Lopes e Spirito Santo – deste último, acredito que todos deveriam ler Do Samba ao Funk de Jorjão. A presença de Oliveira, portanto, extrapola muito o norte político do movimento negro brasileiro contemporâneo que é a evocação do 20 de Novembro. É essa presença que atemoriza os negacionistas.

Não haveria outro tema para escrever do que os primeiros 80 anos de Oliveira no ano em que a evocação do 20 completa 50. Tens razão Bel, “Que preciosidade vivemos!”

SARTRE, Jean Paul. Reflexões Sobre o Racismo – Reflexões Sobre a Questão Judaica/Orfeu Negro. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1965.

SANTO, Spirito. Do samba ao funk de Jorjão. 2ª ed. Rio de Janeiro, Rosasespiritos/Incubadora Cultural: 2016

Deivison Moacir Cezar de Campos é jornalista, doutor em Ciências da Comunicação e doutorando em História. Professor do PPG em Educação e dos cursos de Comunicação da Ulbra. É pesquisador vinculado aos grupos de Comunicação e Mídia da ABPN; Estéticas, Políticas do Corpo e Gênero da Intercom. Integra o Coletivo Casa de Joana – afro-empreendedorismo e cultura negra, e é conselheiro de Cultura de Canoas. Ritmista da União da Vila do Iapi, cultiva um amor tátil pelos livros.

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