Contos para ver de perto

Novo livro de Isadora Dutra reúne 44 histórias de frases curtas e cenas ágeis

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre divulgação

Ciclope míope é um caleidoscópio narrativo. O livro reúne pequenos contos que descrevem cenas em que personagens sem nome ou história se debatem em situações insólitas. Cada cena é como um quadro que se relaciona com os demais num jogo caleidoscópico. Fragmentos de uma cena reaparecem em outra ligando os personagens no espaço e na experiência, por vezes dramática, de eventos e situações estranhas. A marca comum nos quadros é a dificuldade que os personagens encontram de ver e compor um todo que faça sentido.

Confira abaixo o conto Canudo:

12h:45min. O atendente da companhia aérea olha no relógio. Vinte minutos para almoçar. Uns sete minutos para tirar o carro do estacionamento, fazer o retorno embaixo do viaduto e pegar a avenida na mão certa de volta para o trabalho. Ele abre a embalagem de papel com pressa. Retira o canudo do saquinho de plástico, coloca o canudo no furo da tampa plástica de um copo de 500 ml. Abre potinhos de plástico, mergulha as batatas neles. Enfia as batatas na boca, depois o canudo. Abre a caixa maior de papel. Entre os dedos escorre o molho branco amarelado de dentro do pão entreaberto do sanduíche. Ele aperta tudo com a mão. Morde. Caem folhas de alface e pinga um molho vermelho em cima da bandeja. Cinco mensagens não lidas nos últimos dois minutos. Os dedos escorregam pela tela. O molho escorre pelo dedo. Morde. Gira tudo na boca. Canudo. Morde. Batatas no potinho. Enfia as batatas na boca. Canudo. Enquanto isso, os olhos percorrem a tela. Mais uma mensagem. Larga o sanduíche. Lambe o dedo cheio de molho e aperta o celular. Tecla uma resposta na hora. Gira o sanduíche na mão. Morde. Canudo. Batata. Canudo. Morde. Mensagem. Batata. Batata. Molho na batata. Morde. Toca o alarme do celular. Precisa sair para voltar a tempo. Morde. Canudo.

Às 13h chega mais do pessoal do aeroporto, quatro funcionários da companhia de energia elétrica, alguns engravatados e um grupo barulhento de estudantes em uniformes. Todos em volta de embalagens com música pop ambiente. O atendente da companhia aérea olha mais uma vez o relógio e faz um sinal afirmativo de cabeça para as colegas que estão à mesa com ele 93 olhando os celulares e mordendo sanduíches, batatas e canudos. Eles saem. Sobre a mesa resta a natureza morta das embalagens de plástico e papel manchadas de queijo amarelo, pacotes, guardanapos amassados, copos de papel, pequenos potes de plástico e latas com canudo na diagonal.

Sobre a autora
Isadora Dutra é formada em jornalismo e professora doutora em Teoria da Literatura. Durante o doutorado, passou um período de pesquisa na França e concluiu a tese na PUCRS. Nasceu no Rio de Janeiro e mora em Porto Alegre, colaborando atualmente nos projetos do IMADIN (Instituto Maria Dinorah). Atuou como docente substituta na UFRGS, depois de seis anos ministrando aulas de graduação e mestrado em diferentes universidades de Curitiba, cidade onde nasceu seu filho.

Ciclope míope
Isadora Dutra
102 p.
R$ 36
Editora Bestiário/Class
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