Versos fumageiros

Poemas de Claudine Zingler celebram o cultivo do tabaco no RS

Edição: Vitor Diel sobre texto da assessoria
Arte: Giovani Urio sobre foto de Amanda Mendonça

Já está disponível gratuitamente os poemas e entrevistas do projeto Etnografia Poética do Tabaco: a memória é uma corda bamba, criação da jornalista e escritora Claudine Zingler que mantém viva a história e a cultura do tabaco na região do Vale do Rio Pardo, no Rio Grande do Sul.

“Eu nasci e cresci no Vale do Rio Pardo, em Santa Cruz do Sul e Vera Cruz, respectivamente. Nessa região existe a predominância massiva da cultura do tabaco, gerando impactos muito significativos na vida das pessoas da região. Todo mundo que mora por aqui tem algum tipo de relação com o tabaco – desde algum parente que é agricultor até a pessoa mesmo que trabalha em uma empresa fumageira. O comércio todo se move ao redor do período da safra em que estamos. Olhando superficialmente parece que foi sempre assim, mas na verdade tudo isso foi surgindo a partir de um investimento maciço de dinheiro das multinacionais que se instalaram por aqui”, revela a jornalista.

O cultivo do tabaco para exportação é massivo na região do Vale do Rio Pardo, tendo iniciado desde a época da chegada dos primeiros imigrantes germânicos. Posteriormente, a fumicultura tomou proporções de monocultura, que além de ser agressiva à saúde física e psicológica de agricultores e suas famílias, os torna reféns de multinacionais tabagistas e de insumos agrotóxicos que precisam ser aplicados na lavoura, conjuntura que implica inclusive na alta taxa de suicídio na região central do estado. Atualmente, o tabaco é a principal fonte de renda da maioria dos agricultores na região. A fumicultura é uma das atividades que mais impactam na economia do Vale do Rio Pardo, a partir da presença de multinacionais e o trabalho informal de trabalhadores na lavoura, que depois remunerados, gastam seu salário majoritariamente no comércio local.

Partindo da vivência, de reflexões e de pesquisas sobre o tema, foram compostos seis poemas cujo o pano de fundo é fumicultura e seus aspectos históricos, sociais e políticos. Muito do que encontramos na série poética também surge por conta da própria vivência de Claudine, já que durante toda sua vida conviveu com essa realidade, assistindo diversos parentes vivendo a cultura do fumo, e vai em busca de muitas outras vivências que são atravessadas por esta realidade em suas subjetividades e historicidades, não apenas no Vale, mas até mesmo em outros países que têm o tabaco como um de seus principais cultivos.

“Apesar de ser um tema bastante presente no cotidiano da população, principalmente do Vale do Rio Pardo, não são feitas quaisquer reflexões ou problematizações acerca das consequências da cultura do tabaco. Pensando nisto, esta proposta tem o intuito de criar um trabalho artístico de forma a ressignificar este tema pouco abordado na arte e que, em que pese sua importância econômica, causa problemas sociais, psicológicos e de saúde para a população envolvida direta e indiretamente”, revela.

De acordo com a autora, “a partir da proposta poética as pessoas poderão ter outra possibilidade de enxergar um tipo de realidade com a qual talvez não estejam familiarizadas, e as que estão, poderão aprofundar seu entendimento e sua sensibilidade sobre o assunto”. O projeto também fornecerá informação confiável sobre a cultura do tabaco, a partir da publicação das entrevistas feitas com pessoas envolvidas nesta realidade de alguma maneira, disponíveis no site. Claudine entrevistou Fabiano Pisoni, coordenador de projetos da Cooperfumos, ligada ao Movimento dos Pequenos Agricultores, em Santa Cruz do Sul, Mateus Silva Skolaude, professor do curso de História da Universidade de Santa Cruz do Sul, Nilsa Machado, agricultora e dona de casa e o professor Rogério Leandro Lima da Silveira. Ele atua na pós-graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). “Para além de tudo isto, escrever sobre esta vivência se mostra fundamental como forma de documentar um tipo de experiência dentre tantas outras possíveis em relação à fumicultura”, afirma.

Com a equipe de trabalho formada inteiramente por mulheres, Etnografia Poética do Tabaco conta com identidade visual de Carolina Moraes Marchese, desenvolvimento do site pela Idea Contenido (Kika Simone e Olivia Caetano), fotografia de Amanda Mendonça, assessoria de imprensa de Bruna Paulin, consultoria de redes sociais de Caroline Albaini (Bendita Comunicação) e brindes criados por Marília Bianchini.

Os poemas e entrevistas estão disponíveis no site da autora (link externo).

O projeto foi viabilizado via Edital Criação e Formação Diversidade das Culturas, realizado com recursos da Lei Aldir Blanc nº 14.017/2020.

Sobre a autora
Claudine Zingler é formada em jornalismo pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e tem a literatura como um modo de existir no mundo, seja por meio da experiência como mediadora do clube de leitura Leia Mulheres ou pela publicação de textos de sua autoria, tanto em poesia quanto em prosa. Já publicou a zine Xoxotas de Pelotas pela Editora Caseira e escreve a newsletter Divaganças, na qual faz reflexões acerca da vida cotidiana, compartilha poemas e dá dicas culturais. Tem vivência direta com a cultura do tabaco, pois nasceu e cresceu na região do Vale do Rio Parto e sua família é formada por pessoas ligadas à fumicultura, como agricultores e operários de empresas do ramo. O projeto Etnografia Poética do Tabaco: a memória é uma corda bamba servirá como base para a produção, experimentação, criação e exposição virtual de poemas criados a partir da pesquisa, da reflexão e da vivência em relação à fumicultura

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