Ana Paula Cecato: Atividades para quem gosta de ler, mas ainda não sabe (parte 2)

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

“Neste mês, escrevo sobre algumas sugestões de atividades já realizadas com turmas de estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental, mas que podem ser adaptadas e desenvolvidas em outros níveis de ensino”

No mês anterior, compartilhei algumas reflexões que me conduzem a planejar e realizar práticas de leitura que considerem, como ponto de chegada, a – utópica – ideia de que todos e todas se descubram leitores e leitoras de literatura. Naquele texto, também trouxe algumas referências teóricas e metodológicas do campo da leitura literária e os três movimentos como professora que vão do diagnóstico ao planejamento de ações e projetos de leitura.

Neste mês, escrevo sobre algumas sugestões de atividades já realizadas com turmas de estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental, mas que podem ser adaptadas e desenvolvidas em outros níveis de ensino.

Escritas e leituras de si: projeto para o início do ano letivo, estruturado em três módulos: sou leitor, sou contador e ouvinte de histórias, sou escritor. O gênero estruturante do projeto é a escrita autobiográfica. No primeiro módulo, a turma faz uma dobradura de bichos-leitores (materiais: revistas velhas, cola, tesoura e canetinhas), em que cada estudante ilustra, à sua maneira, um “boneco” leitor (imagine um quadrado ilustrado com um rosto, braços e pernas, e um livro dobrado nas mãos). Os bonecos são todos afixados na sala de aula, com a hashtag #souleitor. Nessas produções, é interessante perceber, nos livros que ficam nas mãos dos bonecos, as predileções dos tipos de narrativas que agradam as crianças e os adolescentes. No segundo momento, a turma se organiza em círculo, e ali começam a debater sobre as narrativas que mais curtem, ou outras que viveram, mobilizadas pelas cartas com pedidos como “Conta uma história de um evento marcante de sua vida”, “Descreva o lugar onde você vivia quando era criança”, “Conte sobre alguém que você admira e por quê”. Nas aulas seguintes, os e as estudantes escolhem livros da biblioteca da escola a partir dos seus interesses, e as escolhas são socializadas entre seus pares no círculo de leitura. O módulo final é a produção de um livro autobiográfico, em que cada estudante produz a sua autobiografia, mas a partir de várias linguagens e produções: autorretrato, texto autobiográfico, e outros textos escolhidos pela própria turma (por exemplo, lista de músicas, videogames, comidas favoritas; a sua vida na escola, na família, entre outros). O projeto não se encerra, mas funciona como um ponto de partida, disparador para a continuidade e progressão de novas leituras e escritas. Obras literárias que poderão ser lidas na continuidade do projeto: A bolsa amarela, de Lygia Bojunga; Memórias de índio, de Daniel Munduruku; Quando me descobri negra, de Bianca Santana; O livreiro do Alemão, de Otávio Jr.

Caderno itinerante de leituras: em projetos de estudo da obra de um autor, é difícil encontrar vários exemplares do mesmo título para ler em sala de aula. Então, a proposta é promover a circulação de obras diferentes de mesma autoria, fazendo com que os e as estudantes levem para a casa os livros e, ao longo da semana, circule também um caderno para registro da experiência de leitura, através de uma produção visual ou escrita. É possível determinar um período de três dias para leituras curtas e uma semana para leituras longas. Cada estudante escolhe o livro que levará para casa. Como socialização final, uma roda de leitura é feita para que a turma possa conversar sobre as leituras que fizeram.

Memórias de leitura: na direção da proposta anterior, é possível construir, desde a primeira infância, um caderno de memórias de leitura de cada estudante, com registros das suas experiências de leitura. O caderno poderá atravessar os anos e conter experiências de leitura compartilhadas com a família, na leitura em casa.

Desafio literário: a atividade tem o propósito de vincular as leituras da biblioteca com a sala de aula. Cada estudante recebe um livreto (uma folha A4 dobrada em seis partes) em que são colocadas cinco propostas de atividades a partir de livros de diferentes gêneros literários: livro de poemas, literatura fantástica, livro de autoria feminina, livro-imagem, história em quadrinhos… Ao terminarem as cinco leituras, o livreto é devolvido para a professora e, no fim do ciclo, é feito um levantamento das entregas e das leituras.

Itinerários (roteiros) de leitura: para leituras mais longas realizadas em sala de aula, o itinerário conduz a turma para as atividades que serão realizadas ao longo dos encontros. Assim como as estratégias de leitura utilizadas podem ser variadas, as atividades também poderão ser feitas em pares, em grupos, dependendo de cada proposta.

Círculos de leitura: em outra coluna, trouxe a importância da leitura compartilhada em sala de aula. Bons livros oferecem boas conversas, reforçam vínculos entre a professora e a turma, apontam possibilidades para futuros projetos, incluindo os e as estudantes no processo de ensino e aprendizagem. Uma atividade simples, mas que depende de planejamento do antes, durante e depois da leitura, não de forma a monitorar a discussão, mas de possibilitar que as camadas de sentido oferecidas pela leitura possam ser desveladas e discutidas pelo grupo.

Embora não haja receita pronta, alguns princípios podem colaborar com o planejamento e a estruturação de projetos e ações de leitura: propor atividades que dialoguem com a subjetividade do aluno, de modo a produzir sentidos para o que se lê; privilegiar leituras integrais em sala de aula, usando diferentes estratégias; criar a necessidade de ler, seja por prazer ou por obrigação, para que assim o aluno possa construir seu comportamento leitor; pensar a literatura como conhecimento sensível e intelectual, mas, antes de tudo, como arte. Não didatizar a literatura, mas investigar os mecanismos que estruturam a linguagem e o discurso literário; pensar a leitura e a escrita como práticas indissociáveis; relacionar a literatura com outras linguagens e letramentos; e estruturar a formação de uma comunidade de leitores.

Ana Paula Cecato é graduada e mestra em Letras e professora de Letras – Português/Inglês do IFRS – Campus Rolante. Fez parte da equipe da Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, trabalhando na curadoria da programação, nos programas de incentivo à leitura e na formação de mediadores de leitura. Coordena o curso de extensão “Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura”. Foi jurada do Prêmio Jabuti em 2019 na categoria Fomento à Leitura.
Foto: Acervo pessoal.

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