Cristiano Fretta: Manuel Bandeira e o dia em que ofereci cerveja a Elton John

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre fotos de acervo pessoal

“Caramba, eu ofereci cerveja ao Elton John, pensei comigo antes de adormecer”

Se um dia eu ousasse escrever um romance sobre a avenida em que nasci, talvez ele começasse assim: “Baratas histéricas saem dos bueiros e correm pelo meio fio da Avenida Sertório: a noite é silenciosa, um ou outro carro em alta velocidade passa assustando as baratas histéricas”. Ou talvez assim: “Quem por dentro dos carros passa pela Avenida Sertório jamais pode supor que inúmeras baratas histéricas fogem dos bueiros e correm sem rumo pelo asfalto ainda quente do dia”. Ou quem sabe algo mais econômico: “Na noite da Avenida Sertório, baratas histéricas correm pelo chão”. De qualquer forma, não consigo me livrar da ideia de baratas histéricas, e essa imagem me remete a algo difuso entre a barata-linguagem de A paixão Segundo GH e a barata-agonia (sim, eu sei, um inseto), de A metamorfose. Aliás, deve ser por isso que as minhas baratas da Avenida Sertório são histéricas: longe de um confortável apartamento no Rio de Janeiro ou de um centro cultural europeu, elas não sabem o que metaforizar no prosaísmo decadente da zona norte de Porto Alegre e, portanto, vagam sem rumo pela noite, como se estivessem em algum livro de João Gilberto Noll.

Ensinar aos meus alunos que o prosaico também pode ser detentor de um imenso poder estético sempre foi para mim mais do que um desafio, mas, sobretudo, uma crença alicerçada em minha história de vida. Nascido e criado na zona norte de Porto Alegre, em meio à deterioração dos velhos prédios residenciais art déco, aprendi que o reboco caindo das paredes, a fumaça e o barulho insistentes dos ônibus continham tanto poder estético quanto a maioria dos clássicos literários que eu viria a ler na faculdade de Letras. Isso é Paulo Freire, sentado comigo em algum boteco sujo da Assis Brasil, tomando uma cerveja e comendo um croquete gorduroso, dizendo que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, enquanto o Chácara das Pedras passa entupido de gente em uma tarde qualquer. Manuel Bandeira me propicia a possibilidade de eu chutar o pau da barraca em sala de aula e dizer que toda aquela poesia do século 19 é uma imposição curricular baseada na crença de que, quanto mais difícil, mais esteticamente elevada é uma obra literária. Então eu pergunto aos meus alunos: quem sentiu prazer em ler Olavo Bilac, Gonçalves Dias ou Álvares de Azevedo no 2º ano do Ensino Médio? E vou além: quem, de fato, leu algum deles no ano anterior? É claro que essa atitude é muito mais transgressiva para mim do que para eles. Todo o meu intuito é preparar o terreno para estudar Manuel Bandeira e logo em seguida Carlos Drummond de Andrade, situando os poetas de forma paralela e de certa forma consequente aos radicalismos de 22, livre dos arcaísmos academicistas do século 19 e dos ímpetos profundamente vanguardistas da primeira geração modernista. Então eu faço todas as tentativas de ligar o cotidiano à poesia. Em geral eu levo as turmas para um passeio pela escola, pedindo a eles para observar e fazer qualquer tipo de verso sobre coisas que eles julguem rotineiras no ambiente escolar. Em geral as produções versam sobre os bancos do pátio, as folhas das árvores, o canteiro de flores, mas já houve agradáveis surpresas, como o semblante da moça da faxina, o desgaste dos degraus e um que me marcou muito: a memória do corrimão. Depois voltamos para a sala de aula e fazemos algumas leituras conjuntas dos textos recém produzidos. A partir disso, introduzo Manuel Bandeira, apresentando sua biografia, mostrando inúmeras fotos, situando-o no panorama da poesia brasileira – e enchendo um quadro, algo que sempre é importante, fica a dica. Depois começo a falar sobre Porto Alegre e como nós idealizamos a nossa cidade. A seguir critico o bairrismo, pego meu violão e toco “Deu pra ti”. Depois vêm as baratas histéricas. Sim, elas mesmas, as baratas histéricas. Eu digo para meus alunos que Porto Alegre, mais do que a música de Kleiton & Kledir, significa baratas histéricas. Então, conto um pouco da história da minha vida e da minha relação com a zona norte. Eu sou um professor e, portanto, gosto de contar a história da minha vida. O próximo passo é pedir para narrarem um pouco sobre como é a relação deles com a cidade. Normalmente em torno de 4 ou 5 por turma falam. É então que eu leio – tudo isso está sendo projetado em uma lousa virtual – o poema Evocação do Recife e tento fazer os links com a história da minha vida, com os poemas que eles escreveram e, mais uma vez, critico toda a tradição da poesia do século 19 – que eu mesmo ajudei a perpetuar por meio das aulas do ano anterior. Tudo isso funciona bem, desde que boa parte da turma não pegue no sono, ou não converse, ou não haja uma palestra no horário, ou não tenham prova de física no período seguinte. De qualquer forma, eu sigo na minha convicção: é preciso perceber que a arte não se encontra empacotada somente para aqueles que possuem uma rebuscada chave para abrir a embalagem.

Foi no dia 05 de abril de 2017 quando pela primeira vez eu testei esse planejamento de aula, em uma escola privada de Porto Alegre, na qual atualmente não mais trabalho. Quando cheguei em casa, no início da tarde, após uma manhã inteira falando, sentia-me cansado física e mentalmente. Nem por isso dormi. Descansei depois do almoço, li um pouco, corrigi provas e fui ao supermercado. Perto das nove horas da noite, recebi uma mensagem de um amigo, dono de um bar na Edu Chaves, quase esquina com a Sertório. A proximidade com o pecado já é metade do pecado. E, para completar, no dia seguinte eu só daria aula nos dois últimos períodos da manhã. Apenas uma, pensei comigo, já atravessando a movimentada avenida. Cerca de vinte minutos depois, eu já estava devidamente abancado na cadeira vermelha de plástico, conversando amenidades com meu amigo enquanto ouvia a sinfonia de sons de carros misturados com o barulho dos aviões decolando do aeroporto. E, claro, já abria a minha segunda cerveja. A realidade começava a se tornar lânguida e alegre, o ar entrava fácil pelos pulmões, o líquido gelado me descia pela garganta como uma espécie de transgressão boa àquela noite. O prosaísmo daquele bar me fazia bem. As mesas de plásticos, o balcão engordurado, os amigos malvestidos me mostravam que a vida podia ser boa daquele jeito, com gargalhadas altas e sem cuidado com a própria saúde. Envoltos em um hedonismo regado a uma urbanidade prosaica e com cheiro de asfalto, íamos dizendo a nós mesmos que a vida de chinelos de dedo era mais garbosa que os saltos-altos do Moinhos de Vento, que a espontaneidade dos palavrões era mais honesta que os comedimentos hipócritas dos convencionalismos da Padre Chagas e que a embriaguez na zona norte era mais embriaguez,  porque ali estávamos, sobretudo, bêbados de mundo, porque estávamos em contato com um mundo que se revelava na simplicidade das coisas denotativas: a crueza humana dos ônibus levando as pessoas do Centro para o Sarandi enquanto os prédios art déco continuavam na sua lenta deterioração de décadas, assistindo impassíveis a essa desafinada porém harmônica sinfonia da vida urbana. O bar estava cheio, já eram mais de dez horas da noite, nós conversávamos sobre qualquer coisa, eu abria mais uma cerveja. Manuel Bandeira surgiu imenso na minha cabeça: “Não a Veneza Americana / Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais / Não o Recife que aprendi a amar depois / – Recife das revoluções libertárias / Mas o Recife sem história nem literatura / Recife sem mais nada / Recife da minha infância / A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado”. Uma paráfrase dos versos me surgiu natural: “Não a mais europeia das capitais brasileiras / Não o povo mais politizado do Brasil / Não o pôr do sol mais lindo do mundo / – Porto Alegre que resistiu aos farrapos / Mas Porto Alegre sem idealizações nem heróis / Porto Alegre da minha infância / A Avenida Sertório onde à noite surgem baratas histéricas”, e neste ponto eu parei, sentindo-me ridículo. Eu estava meio bêbado e os versos me pareceram muito ruins.  

Conforme o tempo passava, o bar se enchia de gente. Os assuntos se entrecruzavam e se alternavam nas nossas falas já meio arrastadas pelo álcool, e nem sempre era fácil seguir o caminho reto de um raciocínio complexo. Por isso, em um fluxo de consciência etílico, nunca sabíamos onde uma conversa recém iniciada iria parar. Foi assim que, de alguma forma, chegamos a Elton John. Sim, ele mesmo: Elton John. Não consigo me lembrar qual foi o mote inicial, mas desconfio que tenha sido algo bem distante do cantor inglês. No entanto, a evocação do autor de Sacrifice fazia sentido, na medida em que naquele exato dia e momento ele estava se apresentando no Anfiteatro Beira-Rio, em seu segundo show em Porto Alegre. Estávamos de pé em volta da mesa, copo na mão e cabeça rodando, naquela submissão bêbada que nos faz elogiar alguém que julgamos muito talentoso. O ápice do nosso raciocínio aleatório foi quando começamos a conjecturar qual era a sua fortuna, e eu peguei meu celular e procurei no Google: em torno de 2,7 bilhões de reais. Os meus amigos ficaram surpresos com o montante, e eu mostrei a tela do celular para eles. Eu disse que dava para comprar muita cerveja artesanal com aquele dinheiro e, quem sabe, até mesmo o bar inteiro. Eles riram. Estávamos rindo de qualquer coisa. 

Eu resolvi dar um tempo na cerveja, ou pelo menos diminuir o ritmo de ingestão. Olhei o relógio e já passava da meia noite. Era impressionante como o tempo havia passado rápido. Há cinco minutos eram 22h, mas a cerveja havia comprimido essas duas horas em conversas e na sensação de que era na noite que algum tipo de verdade visceral residia. Eu pensava na aula que eu havia dado durante a manhã e nos dois períodos que logo mais eu teria que ministrar e o sol que invadiria as salas de aula iluminando alunos uniformizados parecia contrastar de forma surreal com aquele bar cheio de gente bêbada naquela já madrugada na zona norte. O que meus alunos pensariam se me vissem naquele local, de bermuda e copo na mão? No dia seguinte seria necessário fazer a chamada, preencher o diário de classe, dar minha aula, enfim, o dia seguinte seria vida normal e convencional – mas ele esconderia a noite que passou, e ela era uma oposição, uma espécie de subconsciente sujo e prosaico àquela lógica aparafusada do dia a dia com sol.  Quero antes o lirismo dos loucos, quero antes o lirismo dos bêbados, pensei comigo. 

Algum tempo depois, quando o cansaço já começava a tomar conta do meu corpo e a algazarra já havia começado a diminuir, um barulho de sirenes se fez ouvir na já deserta rua. Havia EPTC, Brigada Militar, carros e uma van, como se fosse uma escolta. Fomos bem próximos ao meio-fio da calçada ver o que se tratava, e alguém sentenciou: só pode ser o Elton John voltando do show. Então, como se todos tivéssemos combinado, pegamos os nossos copos e os levantamos, aos gritos, em saudação. Eu me aproximei bastante da van, mas não o suficiente para correr o risco de ser reprimido pela EPTC ou pela Brigada. Os vidros eram muito escuros. Impossível era ver qualquer vulto lá dentro, mas julgo ser provável que ele tenha nos visto, ali na esquina da Sertório com a  Edu Chaves, debaixo da decadência dos prédios art déco. Eu estava a apenas alguns metros de Elton John. Naquele gesto havia um pedido de aproximação que eu nunca havia conseguido atingir em todos os anos de sala de aula. Naquele gesto, eu esperava conectar o inatingível de uma megaestrela da música ao cheiro de mofo dos apartamentos da zona norte, como que a dizer: vem aqui, eu sei que tu é um ser humano como eu, seu Elton, vem aqui, entra na minha casa, deixa eu te oferecer uma bolacha e um café recém passado, deixa eu te mostrar que da areazinha dá para ver os aviões decolarem, seu Elton, deixa eu te mostrar que este prédio foi construído em 1956 e até hoje ninguém mudou o sistema elétrico, é um perigo isso daqui, deixa eu te mostrar esta mancha na parede, já falei com o vizinho de cima umas três vezes, seu Elton, se tu visse o perigo que são essas sacadas aqui então, tu não passaria por baixo, o gringo do bar aqui da esquina rouba luz do condomínio, todo mundo sabe mas ninguém faz nada, mês que vem vai ser aprovada uma chamada extra para trocar a caixa d´água, eu tenho até medo, desculpa, seu Elton, eu te ofereci uma cerveja, mas não devia, me esqueci da tua relação com as drogas, as calçadas daqui continuam com os mesmos problemas de décadas, já faz 17 anos que minha vó morreu e o meio fio em que ela tropeçou e se estatelou no chão continua torto, nenhum prefeito arrumou, essa esquina aqui está afundando, seu Elton, isso tudo era um banhado, até os anos 40 essa rua aqui nem saída tinha, até capivara deveria ter por aqui, deve ser por isso que quando chove alaga tudo, é um inferno, quando eu era criança, cansei de perder aula por causa dos alagamentos, é um desrespeito total. Teríamos ficado muito mais tempo ali, a alguns metros de um bilionário, naquele espetáculo prosaico e improvável. No entanto a sinaleira abriu. Eles seguiram em direção ao aeroporto. Nós, felizes, abaixamos os copos, nos despedimos uns dos outros e fomos para nossas casas, como se o propósito daquela noite houvesse sido atingido na bizarrice daquele momento.

Quando me deitei em minha cama, a cabeça girava, e eu achei graça de tudo aquilo. Caramba, eu ofereci cerveja ao Elton John, pensei comigo antes de adormecer. Sim, o dia havia valido a pena. Eu dormi pesado e sonhei coisas desconexas. Acordei às 9h30, com a bexiga estourando e com dor de cabeça. Assim que pulei da cama, prometi para mim mesmo que eu iria me matricular na academia e que nunca mais beberia daquele jeito em um dia de semana. Enquanto dirigia para a escola, o locutor de um programa de rádio dizia que o show de Elton John havia sido magnífico e elencava com detalhes a execução de todos os seus sucessos.

Na sala dos professores, tomei vários cafés pretos, na tentativa de tirar de mim qualquer resquício da noite anterior. Impressionantemente eu me sentia melhor do que eu poderia supor. O sinal das 11h10 tocou e eu me encaminhei para a sala de aula. O sol pelos corredores contrastava com a noite de horas atrás, que parecia ter existido somente no reino da fantasia. 

Entrei em uma das turmas que no dia anterior eu havia feito a introdução sobre Manuel Bandeira, com o passeio pela escola, com os textos. Demorei bastante tempo para conseguir silêncio. A seguir, contei a eles toda a história da noite anterior, obviamente omitindo o álcool envolvido. A turma pareceu não dar a mínima para a narrativa. Por isso, eu a abreviei. Logo em seguida, distribuí uma seleção de poemas de Manuel Bandeira. Minha ideia era, a partir dos poemas, identificar os principais eixos temáticos envolvidos na produção do poeta. O dia estava lindo. Resolvi levá-los, mais uma vez, para o pátio, com o objetivo de fazermos uma leitura conjunta. A aula transcorreu com poucos percalços. Quando às 12h50 eu terminava a chamada e me preparava para voltar para casa, um pensamento me passou pela cabeça: o que estaria, naquele momento, fazendo Elton John? Será que a milhares de quilômetros dali, descansando em alguma mansão sem infiltrações e sem mofo o riquíssimo cantor lembraria dos vultos de estranhos desconhecidos que em uma madrugada em uma cidade ao sul do Brasil ofereceram cerveja a ele? Talvez fosse bom ser bilionário, longe da zona norte e de seu prosaísmo. Os versos de Manuel Bandeira vieram fortes: “Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei / Lá tenho a mulher que eu quero / Na cama que escolherei / Vou-me embora pra Pasárgada.”. Eu, no entanto, fui para a casa e dormi boa parte da tarde.

Cristiano Fretta tem 34 anos, é mestre em Letras pela UFRGS, músico, compositor e professor de Literatura e Língua Portuguesa em escolas privadas de Porto Alegre. É autor das obras Chão de Areia, Tortos Caminhos e A luz que entrava pela janela. Também colabora com as revistas digitais Parêntese, do grupo Matinal Jornalismo, Passa Palavra e com o jornal Extra Classe. 

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