Deivison Campos: Covid, ansiedade e coisas desse tempo estranho: quando conseguiremos respirar?

“Acho que o livro foi minha primeira percepção da existência de um mundo negro, de uma diáspora que dialogava de maneira muito intrínseca”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Vacine-se. Trata-se de um cuidado consigo e com o outro.

Apesar de termos adotado todos os cuidados e estarmos vacinados com a segunda dose, eu e minha família fomos contaminados pelo vírus da Covid-19 durante a viagem de Natal para a região de Bombinhas. Procuramos trechos mais vazios das praias, mantivemos o distanciamento, usamos a máscara mesmo na beira do mar, mas não foi o suficiente. Em algum momento na praia, ou em algum restaurante, entramos em contato com o vírus e isto foi o suficiente para a contaminação.

Mesmo vacinado, minha experiência com a doença foi muito aguda, tendo recebido pelo menos dois atendimentos médicos em emergência no período de aproximadamente 10 dias em que convivi com os sintomas da presença do vírus em meu organismo. A falta de ar, o cansaço permanente e as dores no corpo, agravado por profundas dores no peito, produziram uma experiência muito assustadora. Imagino o que devem ter sofrido as pessoas acometidas pela doença antes da vacina — enquanto era desenvolvida, seguida pelo negacionismo do governo federal.

Conversando com os profissionais de saúde, informaram que muitas pessoas que desenvolvem a doença apresentam crises de ansiedade pela impossibilidade de respirar normalmente; ou seja, a falta de ar produz a ansiedade. Essa, inclusive, foi uma das principais causas de intubação de pacientes durante o período sem vacina. Existem estudos sobre a relação, mas isso não é muito falado publicamente. Eu soube, inclusive, por ter sido acometido de diversas crises de ansiedade, que produziram a já referida dor no peito.

Enquanto estive isolado — respeitei os 15 dias anteriormente recomendados e só saí depois de negativar no teste, a ansiedade ganhou minha atenção e lembrei da ansiedade positiva em ler um livro cuja narrativa produz uma imersão profunda, ou de iniciar a próxima leitura. Lembro disso quando comecei a ler o conjunto de livros de alguns autores. Nessa época, lia diferentes livros ao mesmo tempo, pois quando terminava um terminava vários. Era sempre uma sucessão de prazer e ansiedade. Claro que se trata de uma ansiedade diferente. É do tipo que se tem antes de um beijo desejado, de um encontro com alguém especial, ou de um livro.

Talvez Jorge Amado tenha sido o primeiro a me envolver dessa forma em sua narrativa. Apesar da crítica a sua exaltação da morenice–mestiçagem, convivi com seus personagens com intensidade. É certo que Tenda dos Milagres e o ABC de Castro Alves são os que mais tenho em mim. O primeiro fazia muito sentido para um adolescente negro que havia nascido e frequentado batuques e sessões de umbanda nos anos 70 e 80 nas salas da família e de famílias amigas no Mont’Serrat, então um território negro da cidade. Acho que o livro foi minha primeira percepção da existência de um mundo negro, de uma diáspora que dialogava de maneira muito intrínseca. O segundo livro me encantou em sua forma e performance. A possibilidade de se escrever uma biografia — geralmente com características documentais e jornalísticas, que dialoguem com o contexto da personagem.

Lembrei dessas e de outras muitas ansiedades literárias enquanto me faltava o ar e acionava a outra ansiedade para inspirar o máximo de oxigênio possível. Também me causou muita afetação pensar nas mais de 600 mil vítimas fatais e de como a ciência, fomentada por políticas públicas, poderia ter evitado muitas dessas mortes. Essas são duas questões do nosso tempo que precisam ser discutidas e superadas. A forma como o governo federal e suas extensões estaduais e municipais, respaldadas por legislativos irresponsáveis, lidam com essas questões diz muito sobre nossa sociedade em que pelo menos 20% dos eleitores apoiam incondicionalmente tudo o que ocorre.

Se num primeiro momento, a “mamadeira de piroca” e a “terra plana” pareceram brincadeira, ou mesmo desconsideráveis, foi essa lógica negacionista que provocou a morte por asfixia de tantas pessoas. Em algum momento em que joio e trigo forem novamente separados, espero que logo, muitos dos que estiveram à frente do projeto protofascista e meta-conservador de governo serão responsabilizados. Enquanto isso, estamos socialmente sufocados pelo grupo que ignora absolutamente o que seja política e objetiva nos manter num passado que já não existe e não é mais possível nas mais diversas pautas sociais.

Esse é um projeto que mata. O horror produzido pelas mortes pela Covid tornou-se mais visível, mas existe todo um projeto de necropolítica em andamento que segue sendo tratado de forma episódica. Jovens negros, mulheres, LGBTQIA+ e muitos outros grupos vulneráveis são mortos de forma sistemática em nome desse meta-conservadorismo oficial e que autoriza simbolicamente que essa violência e recusa se estenda para as relações sociais.

Neste contexto, nos interessa o aprofundamento da ansiedade pela leitura. Aquela que nos oferece doses cavalares de prazer. Com a Covid e outras pandemias já anunciadas pela ciência, teremos que aprender a conviver. No entanto, essa ansiedade social, produzida pelo negacionismo, fake news e políticas meta-conservadoras, pode e deve ser erradicada. Vivemos um ano propenso a isso. A eleição é logo ali e a atenção ao voto legislativo e aos projetos de executivo devem estar no centro do debate público, mobilizando seus atores para que a coisa não fique como está, ou piore. Precisamos voltar a respirar.

Cuide-se. Proteja-se. Vacine-se.

AMADO, Jorge. Tenda dos Milagres. São Paulo: Cia das Letras, 2008/1969.

AMADO, Jorge. ABC de Castro Alves. São Paulo: Cia das Letras, 2010/1941.

Deivison Moacir Cezar de Campos é jornalista, doutor em Ciências da Comunicação e doutorando em História. Professor do PPG em Educação e dos cursos de Comunicação da Ulbra. É pesquisador vinculado aos grupos de Comunicação e Mídia da ABPN; Estéticas, Políticas do Corpo e Gênero da Intercom. Integra o Coletivo Casa de Joana – afro-empreendedorismo e cultura negra, e é conselheiro de Cultura de Canoas. Ritmista da União da Vila do Iapi, cultiva um amor tátil pelos livros.

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