Guilherme Smee: Top 10 quadrinhos de super-heróis que li em 2021

“Todos os materiais aqui presentes contém histórias inéditas ou parcialmente inéditas no Brasil, embora alguns deles tenham sido publicados originalmente nos Estados Unidos há mais de 20 anos”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Esta coluna irá tratar de uma lista dos dez melhores quadrinhos de super-heróis que li em 2021. Sou um ávido leitor desse gênero de histórias em quadrinhos e por isso fica fácil construir esta lista. A ideia é que mais para frente saia uma lista em duas partes dos 20 melhores quadrinhos que li em 2021 e que não são do gênero super-heróis.

O leitor irá perceber que todos os quadrinhos listados aqui são publicados no Brasil pela Panini Comics Brasil, que detém o monopólio, nem sempre saudável, de publicar os materiais das editoras DC e Marvel Comics, as principais editoras mundiais de super-heróis.

O leitor também irá perceber que na lista de melhores do ano que passou estão presentes títulos que aludem a super-heróis que recentemente ganharam espaço nos cinemas e na televisão, mesmo aqueles mais desconhecidos como Os Eternos e Shang-Chi. Essa é uma forma das editoras e dos estúdios jogarem os holofotes para concentrar a maior atenção possível do público nesses personagens, dedicando a eles os seus melhores escritores e artistas.

A prática da subsidiária da Panini no Brasil é a mesma, que traz às lojas títulos que, não fossem os filmes e séries, não teriam espaço em seu catálogo. Todos os materiais aqui presentes contém histórias inéditas ou parcialmente inéditas no Brasil, embora alguns deles tenham sido publicados originalmente nos Estados Unidos há mais de 20 anos. Dito isso, vamos à lista, que não possui uma ordenação de melhor para pior.

ETERNOS: SÓ A MORTE É ETERNA, DE KIERON GILLEN E ESAD RIBIC
Com o surgimento do filme de Os Eternos nos cinemas do Marvel Studios, a Marvel Comics resolveu investir também nos quadrinhos da raça de seres superiores, criados pelos celestiais, com a missão de defender os humanos e a Terra. Para essa missão, a Marvel Comics incumbiu dois pesos-pesados da indústria: Kieron Gillen e Esad Ribic. O resultado é muito bom. Gillen usa recursos de paratextos para contar uma nova história dos Eternos, que tem a ver com a Máquina do Mundo, que está com defeito. O problema é que essa máquina é a própria Terra. E é ela quem narra essa história em quadrinhos, de uma maneira que podemos ver seu gradual perecimento, conforme os defeitos vão sendo acentuados. É também uma história de investigação de assassinato, uma vez que sem os poderes da máquina do mundo os Eternos não conseguem ressuscitar para continuar vivendo suas vidas imortais. Zuras, o líder dos Eternos, é assassinado por Thanos, mas alguém dentro dos próprios Eternos está trabalhando ao lado do Titã Louco. Um segredo há muito guardado pelos Eternos está prestes a ser revelado e tem a ver com seu ciclo de ressurreição. A arte de Ribic combina perfeitamente com o clima da história, parece ter sido feita sob medida para o enredo, muito mais que qualquer outra HQ que o artista já trabalhou. Eternos é uma ótima nova série em quadrinhos para se acompanhar.

VIÚVA NEGRA: LAÇOS QUE UNEM, DE KELLY THOMPSON, CARLOS GÓMEZ, ELENA CASAGRANDE E RAFAEL DE LA TORRE
Esta nova fase de Viúva Negra está arrebatadora! E se você pensa que é porque é escrita por Kelly Thompson vai ter diálogos engraçadinhos e situações descoladas, está bem enganado. A escritora conseguiu se reinventar para escrever essa nova fase da Viúva Negra, trabalhando uma bela história de espionagem e reparação. Natasha Romanoff sofre uma lavagem cerebral por um grupo de seus maiores inimigos e acaba vivendo uma vida perfeita, inventada, com marido e filho. Mas algo está nublado em suas memórias e isso a desconcerta. Enquanto isso, seus amigos o Gavião Arqueiro, o Soldado Invernal e Yelena Belova, a outra Viúva Negra, refletem se devem interferir no idílio de Natasha. O que acontece depois disso é spoiler então não vou revelar, mas é bem interessante. E quando a gente acha que a autora vai usar o recurso das mulheres na geladeira ao contrário, ela surpreende. A arte de Elena Casagrande também é um belo item que esse encadernado nos proporciona, muito agradável e tudo a ver com o clima que a história se propõe.

FLASH POR GRANT MORRISON E MARK MILLAR
O Flash é um herói bastante subestimado no mercado brasileiro. Ele tem histórias sensacionais, mas não são republicadas por aqui, não sei por que cargas d’água, apesar de o herói ter uma fanbase importante devido à série de TV. Este encadernado compilando a fase de Grant Morrison e Mark Millar no velocista escarlate é uma prova dessas boas histórias. Muito da primeira fase de Mark Waid no Flash é aproveitado aqui. O encadernado acaba trazendo todos os arcos da fase Morrison/Millar. O primeiro, Parada de Emergência, explora como é ser o Flash quando se acaba em uma cadeira de rodas. O segundo, Morte no Topo do Mundo, traz um divertido crossover entre Wally e o Arqueiro e o Lanterna Verde da época. A Corrida Pela Vida talvez seja o melhor arco desse encadernado, mostrando Wally como campeão da Terra em uma disputa entre os maiores corredores do universo. O Flash Negro é o arco mais fraco deste volume, mas ainda assim, um arco bom, sobre a entidade que representa a morte dos Flashes. Outras pequenas histórias complementam esse encadernado de mais de 300 páginas, que é uma jornada muito recompensadora de se fazer. Os desenhos nessa edição não são lá essas coisas, não, são bastante genéricos e por vezes feios, mas os roteiros compensam bastante.

CAPITÃO AMÉRICA: A VERDADE, DE ROBERT MORALES E KYLE BAKER
Que quadrinho lindo e necessário, bem escrito e criticamente consciente! Ainda mais usando um “símbolo pátrio” estadunidense como o Capitão América para criticar exatamente os “símbolos pátrios” daquele país, sua construção, seu uso e a hipocrisia envolvendo esses movimentos. Confesso que de início estranhei um tanto o traço cartunesco de Kyle Barker em uma história em quadrinhos supostamente de super-heróis. Mas o fato é que Verdade é bem mais que uma simples história de super-heróis, ela coloca em destaque o racismo encalacrado nos Estados Unidos desde sempre e que em dias de #BlackLivesMatter é uma discussão ainda mais necessária e potente. Simplesmente, numa narrativa retcon, coloca que o primeiro (ou os primeiros) Capitão América eram negros, cadetes do exército submetidos à experiências desumanas por serem negros e considerados inferiores pelo governo dos EUA. O mesmo governo que foi responsável pelo estopim da Segunda Guerra Mundial, aliado aos nazistas em experimentos eugenistas, com o propósito de higienizar e melhorar a humanidade. Conforme o quadrinho avança em suas páginas, a soma das críticas ao cidadão médio estadunidense e à própria instituição dos EUA se proliferam e se acumulam, deixando o próprio Steve Rogers, o Capitão América oficial, espantado. A série saiu em 2003 pelo selo adulto MAX lá nos Estados Unidos, e só foi estrear no Brasil por causa da ligação com a série Falcão & Soldado Invernal. A HQ Verdade é um potente instrumento de empoderamento e transformação social, que traz uma crítica extremamente necessária em todos os tempos da humanidade: as consequências de tratar quem é diferente por inferior

ACADEMIA DO ESTRANHO: PRIMEIRA CLASSE, DE SKOTTIE YOUNG E HUMBERTO RAMOS
Que quadrinho divertido e gostoso de se ler! Não curtia tanto uma história em quadrinhos de adolescentes nos universos supers desde Fugitivos e Academia dos Vingadores. Claro, é impossível não comparar a Academia de Artes Místicas da Marvel com a Hogwarts de Harry Potter. O universo da Academia do Estranho é bem desenvolvido assim como todos os seus alunos, personagens novíssimos, trazidos especialmente para essa série. A dinâmica entre eles também é muito bem estabelecida e a grande maioria guarda segredos bastante tenebrosos que este primeiro volume só arranhou a superfície. Os professores da Academia do Estranho também guardam os seus mistérios, mas em geral, os alunos conseguem escapar deles para viver suas próprias aventuras. Assim como faziam os Novos Mutantes em suas primeiras histórias. Quando a gente acha que das histórias de super-heróis não sai nada novo e diferente, eis que surge a Academia do Estranho! Skottie Young e Humberto Ramos estão de parabéns! Destaque também para as páginas extras de cada edição que mergulha mais fundo na apresentação desse universo para os leitores. E é demais!

ESQUADRÃO SUICIDA: PROVAÇÃO POR FOGO, DE JOHN OSTRANDER E LUKE MACDOWELL
Minha introdução ao Esquadrão Suicida, infelizmente, foi através dos Novos 52, por isso nunca gostei muito das histórias do grupo. Contudo, sempre ouvi falarem muito bem da fase John Ostrander, mas eu era muito novo para ter acompanhado quando saiu no Brasil. Com esse encadernado da Panini pude conhecê-las, só não sabia que era tão boa assim. Certamente um dos melhores títulos de “super-heróis” que li nesse ano. Ostrander desenvolve uma dinâmica extremamente interessante entre os personagens que escolheu para trabalhar, utilizando de maneira cirúrgica e magistral as habilidades de cada um. Presta uma homenagem ao Esquadrão Suicida original, usa com sagacidade intrigas internacionais e as artimanhas que envolvem toda essa mitologia de agentes secretos. Mais que isso, ele põe o dedo na ferida da política internacional, da política doméstica dos Estados Unidos e na história de Guilherme Hell, assustadoramente atual, mostra como falsos heróis políticos são construídos através de discursos de ódio. A arte de Luke McDowell é competente, mas o que segura mesmo a publicação é o roteiro de Ostrander.

MULHER-MARAVILHA: TERRA MORTA, DE DANIEL WARREN JOHNSON
SOOOOK! TWAPT! VUUUUPT! Não, não é o seriado do Batman dos anos 1960, mas sim as incríveis onomatopeias que funcionam também como linhas de ação feitas pelo autor Daniel Warren Johnson em Mulher-Maravilha: Terra Morta. Se a Princesa de Themyscira precisava de um quadrinho que mostrasse um futuro em que nossa protagonista demonstra toda a sua capacidade, Mulher-Maravilha: Terra Morta com certeza é um deles. É sensacional a dinâmica posta em ação na primeira parte deste quadrinho realizada pelas onomatopeias e pelo traçado em pincel grosso de Johnson. É vibração atrás de vibração enquanto acompanhamos Diana descobrindo o que aconteceu com aquele planeta desolado e os derradeiros esforços de Batman e Superman para manterem a paz no cenário que se tornaria a Terra Morta. Se por um lado as onomatopeias de Johnson nos colocam em vibração, as letras escolhidas pela Panini para compor os balões deixam um pouco a desejar: não são muito legíveis e são pequenas demais. Contudo, se você quer uma ação à la Mad Max, homenagens aos quadrinhos de super-heróis, terras desoladas e luta pela sobrevivência mesclada com horror atômico, Mulher-Maravilha: Terra Morta é para você!

DCOMPOSIÇÃO, DE TOM TAYLOR E TREVOR HAIRSINE
Somente Tom Taylor para transformar o que parecia ser uma história de zumbis e super-heróis extremamente caça-níqueis para se tornar um épico tocante sobre sobrevivência dos seres humanos em meio ao caos. DComposição, que foi uma boa sacada da Panini para o título original DCeased traz roteiros de Tom Taylor, que já nos convenceu que quadrinhos de videogames podem ser legais com Injustiça, e desenhos de Trevor Hairsine, que desenvolveu Pesadelo Supremo com Warren Ellis. Tudo começa, quando enfrentando Darkseid, Cyborg acaba disseminando um vírus que é transmitido através das redes sociais. Todos aqueles que estavam conectados no momento da transmissão se transformam em zumbis. Cabe aos heróis da Liga da Justiça e aliados tentar resolver este problema, nem que seja fugindo do próprio Planeta Terra. Claro, não sem antes acontecerem diversas perdas e baixas para o lado dos super-humanos. De toda a forma, Tom Taylor sabe lidar com os personagens, por mais que ele execute transformações neles, sua essência permanece, o respeito à cronologia e quem eles são permanece, diferente da execução trivial das histórias em quadrinhos neste novo milênio.

GAVIÃ ARQUEIRA: DETETIVE PARTICULAR, DE KELLY THOMPSON, MICHAEL WALSH E LEONARDO ROMERO
Apesar de esta “nova” fase de Gaviã Arqueira guardar algumas semelhanças com a fase de Matt Fraction e de David Aja — o que é bom —, Kelly Thompson e o brasileiro Leonardo Romero, com a ajuda de Michael Walsh, conseguem imprimir um estilo muito próprio na série — o que é sensacional. A série da Gaviã Arqueira é divertida, engraçada, esperta, envolvente, isso falando apenas dos roteiros de Kelly Thompson. A arte de Leonardo Romero consegue ser ao mesmo tempo retrô e atual, com algumas construções de layouts que, somadas a isso, lembram um pouco o trabalho de Darwyn Cooke. Isso fica ainda mais perceptível quando as páginas são feitas por Walsh e não Romero: há um jogo narrativo muito mais interessante nas concepções do brasileiro para a trama. O que deixou os leitores tristes foi a demora da Panini em trazer essa publicação. Está “fora do momento cronológico” como os editores gostam de dizer. Ainda assim, o formato Teens, menor e com muito mais páginas, me agradou bastante. E parece agradar ao resto do público já que temos muitos materiais programados. Uma ótima leitura esta fase da Gaviã Arqueira, que mostra a dupla Thompson/Romero em seu melhor.

SHANG-CHI: IRMÃOS & IRMÃS, DE GENE LUEN YANG, PHILIP TAN E DIKE RUAN
Na minha concepção, Shang-Chi era um personagem datado. Fruto da Guerra Fria, ele era uma espécie de James Bond misturado com Bruce Lee, com uma história que, por mais que os mais velhos que eu elogiem, eu não conseguia encontrar o ponto. Com a decisão do Marvel Studios em fazer um filme do herói, a Marvel rapidamente tratou de atualizá-lo nos quadrinhos. E, diferente das tentativas anteriores, dessa vez chamou um autor que entende da cultura e da realidade chinesa. Gene Luen Yang é o premiado roteirista de O Chinês Americano e o introdutor do Super-Man chinês na DC Comics, onde desenvolveu uma run incrível e deliciosa de ser ler. Luen teve de contornar o fato de que o pai original de Shang-Chi, Fu Manchu, está envolvido em um imbróglio de direitos autorais sobre a herança do escritor Sax Rohmer. Assim, foi preciso criar uma nova origem para o personagem, sem abandonar outros elementos como seu passado trabalhando na espionagem ao lado da amada, Leiko Wu no MI-6. Yang, ao lado dos desenhistas Philip Tan e Dike Ruan, trabalha uma narrativa que vai e vem no tempo, e discorre uma história de legados (ao estilo Punho de Ferro, de Ed Brubaker, outra nova visão dos filmes de exploitation do kung-fu) e de clãs (ao estilo dos Renegados, trabalhados por Jeff Lemire em Arqueiro Verde). O primeiro volume de Shang-Chi, então, se mostra uma história acessível a novos leitores e que pode também agradar aos antigos ao adicionar mais camadas na sua mitologia. Um trabalho muitíssimo competente da equipe criativa.

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges

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