Maiara Alvarez: Zine e o Paulista

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Ultimamente tenho achado inspiração no meio do caos (Felipe Deds)

Era 2018 ou 2019, eu não lembro bem. A gente tava ali na escadaria da Borges, na frente de um bar. Era aniversário de alguém. Eu não sei ao certo se antes ou depois é que olhei para os postes antigos, em que a proteção circular faz com que a luz da lâmpada pareça uma lua à noite. E foi aí que a poesia nos invadiu. Entenda, eu sou a favor do consentimento. Mas há alguns tipos de invasões que se fazem necessárias. A de terras não produtivas e a dos meus ouvidos por poemas.

Mas eu já contei essa história por aqui e não vou contar ela de novo. Esta resenha tampouco é uma resenha, pois quero falar mais do que da obra citada. É só um desabafo. A obra eu comprei ali, na frente do bar do Paulista, em alguma sexta ou sábado de algum dos intervalos entre uma variante e outra da Covid. Quando a Mariana me entregou o zine na mão (que eu paguei por pix, olha só, tecnologia usada na troca pelo artigo artesanal), confesso que deu uma dorzinha no coração.

Não vai ser de primeira, mas vai dar certo.
Não vai sentir firmeza, mas é concreto. (Dickel)

A dorzinha de saber que esse mundão tá cada vez mais estranho, cada vez mais incômodo, e que os Poetas Vivos estavam ali, na rua, mas a entrega do poema não vinha de suas cordas vocais abafadas por máscaras. Do outro lado o alívio de que, de alguma forma, eles estão ali, então a força criativa não se perdeu. Mas é foda também pensar em força criativa quando o salário mínimo é mais de 5x menor do que deveria ser na prática e tem um bando de gente que não tá recebendo nem isso.

Zines, como o Fique Bem, Fique Vive, dos Poetas Vivos, são uma forma de resistência. Uma forma de existir além de ISBN e ficha catalográfica, além de capa dura, além de 254 páginas. E uma forma de arrecadar dinheiro direto, na hora, e todo mundo precisa de dinheiro.

Ventania
Virulenta vassourando
Viscerais vestígios
Vi ventanias voarem
Vi ventanias vociferarem
Vírus versa vozes
Vi vendavais virais
Vivarem vestígios
Vozes virulentas
Vento varre vírus
Ventanias viscerais
Verticalizam Vozes (Natalia Pagot)

Colecionar zines é o privilégio de ver em primeira mão (literalmente) as experimentações verbais e gráficas de autores. Mas até esse privilégio dá uma dorzinha, porque eu queria um livrão, meus autores preferidos contemporâneos nadando em ganhos e, poxa, poder ouvir um poema no meio da rua de novo.

Ainda assim, isto aqui é, sim, uma ode ao zine. Um ode à lembrança de que vai ter poema, vai ter literatura, e que existem maneiras de tentar quebrar o gate keeping de escolher quem pode ou não publicar. Uma ode a apoiar os artistas no meio de um luto mundial pela(s) vida(s) que a gente perdeu. A lembrança de, como poemou Paco Urondo: (…) ser perseverantes e tenazes, escrever religiosamente todos os dias, todas as tardes, todas as noites. / Ainda sustentados em teimosias se a fé desmoronar. / Nisso, não haverá trégua para ninguém. / A poesia dói nesses filhos da puta.

Sobre os autores
O Coletivo Poetas Vivos é uma iniciativa cultural que utiliza a arte para criar estratégias de enfrentamento à opressão e desumanização diária causada pelo racismo. Fique Bem, Fique Vive é um zine escrito por DaNova, Felipe Deds, Dickel, Natalia Pagot e Mikaa e realizado pelo próprio coletivo em 2021.

Fique Bem, Fique Vive
Poetas Vivos
14 p.
R$ 10
Edição independente

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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