Atena Beauvoir: Escritoras e escritores do mundo, uni-vos!

“Nunca a suposta missão de Escritoras e Escritores esteve tão explícita como agora. Muito além de abrir o peito e jogar para fora as montanhas de sentimentos e emoções

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

É tempo de desordem e caos. O mal sonda as esquinas e procura, afiado, mentes para alojarem-se como formigas em doces e cupim em madeira. De longe escuta-se o pranto dos que perderam a confiança na própria vida e buscam desordenados as intrincadas vozes do despenhadeiro, convidando-as para o mais longe de si mesmas, perdendo-se nos labirintos da loucura.

Outros ainda, buscam no exagero das próprias forças retardarem os movimentos do bem com a pessoal incúria de tudo experimentar, ignorando porém, que sendo parte da Natureza, todos os corpos e existências estão limitadas nas próprias condições físicas e materiais. Já se percebe que o tilintar do pix reverbera por entre os ouvidos acostumados com o lucro e atropelam-se entre os famintos da via pública de alimento e afeto, chocando-se com o vale da violência e do destemor. 

Tudo arde na chama acesa da ignorância e nada se perde do venenoso pensamento de que o aqui e o agora é onde encontramos a esquecida paz tão aspirada no prato com comida, no emprego digno e na comunidade familiar segura. 

Entretanto, olha novamente ao teu lado e perceberás papéis empilhados por entre as estantes e, uniformemente brochurados, encontrarás as memórias grafadas em páginas relegadas ao esquecimento, mas que ao contato de teus olhos ou de tuas mãos, haverão de iluminar-te a consciência. 

Quantos rastejam em busca de sonhos sem perceberem que nada se dá ao acaso do destino e que nenhum elemento se constitui à cata da gratuidade da vontade alheia. Contudo, as páginas escritas por alguém desconhecido podem te levar a caminhos antes também desconhecidos e quem sabe o que encontrará nessa trilha?

A quem do passado segurava pedregulhos e riscava linhas em grandes rochas, aos suaves pincéis de penas e tintas, para os vorazes lápis e seus grafites suaves para as intensas digitações na virtualidade, hoje, mais do que nunca, aos que dedicam suas vidas para a escrita, sabem reconhecer que auxiliam na literatura do mundo. Não somente as guerras que são estampadas na mídia mundial, nem somente as esquecidas guerras monumentais, mas na infinidade das guerras íntimas, subjetivas e profundamente vinculadas com as guerras existenciais. 

Nunca a suposta missão de Escritoras e Escritores esteve tão explícita como agora. Muito além de abrir o peito e jogar para fora as montanhas de sentimentos e emoções. Muito além dos poucos centavos que ganha-se na venda de um que outro exemplar. Muito além da utópica visão de que escrever é divino e religiosamente sagrado. Escrever em nosso mundo é falar com o mundo sobre tudo o que há para falar do mundo. 

E se pensas que estou errada, vá ao encontro das crianças e jovens nas escolas e vede com que frequência seus olhos se enchem de brilho observando e escutando autoras e autores falarem sobre seus trabalhos. Ande por entre as rodas de poesia nas praças públicas e escute, entre uma poeta e outra, as frases de luta contra a depressão, o alcoolismo e a exploração. Percorra as mais escuras vielas da amizade e identificarás que a escrita de contos, poesias e crônicas para muitas e muitos é a expressão mais contundente de que ainda vale viver nesse mundo. 

Escritoras e Escritores do mundo, uni-vos pois para que a nova ordem do mundo seja a do conhecimento não somente do corpo e sua extensão, mas da existência até o mais profundo do próprio coração.

Escrevamos até o fim!

Atena Beauvoir é escritora, professora e editora. Licenciada em Filosofia pela UFPEL, Mestranda em Antropologia pela UFRGS é autora de 6 obras entre contos e poesias e finalista do prêmio Minuano 2019 com a obra “Contos Transantropológicos”. É organizadora dos Slam do Gozo, Slam do Espinho e Slam da Voz. Recebeu menção honrosa em 2016 pela defesa da dignidade de pessoas LGBTS na cidade de Canoas/RS.

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