Maiara Alvarez: Eu sou velha ou eu sou ignorante ou os dois? Ou o Malandro 2.0

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Você vai até o mar, ignorando o fio de esgoto que deságua na espuma das ondas.
Vai tentar jogar o nome do marido nas ondas, que ele nunca mais seja, você vai dizer.
Não saberá a origem do pranto, mas os dois olhos cheios d’água no meio de tanta. (p.43)

Eu tenho a exata impressão (coisa estranha de se dizer, né? Exata — algo concreto, absoluto — impressão — uma noção, um palpite) de que eu já falei por aqui sobre a minha insegurança, medo, ou atitude responsável de não falar sobre livros dos quais eu não entendo de uma forma, diríamos, completa (seja lá o que isso venha significar).

Acho que deu pra notar que, nesta resenha, conceitos serão coisas soltas.

Aí que o Vitor, aka* editor-chefe deste site aqui que vos fala, me alcançou Txow, do Lucas Litrento, e disse: tu vai gostar desse livro. Então, o Vitor em geral acerta quando opina se vou gostar de algo ou não. O definir esse gostar que é difícil, mas, ainda assim, ele acerta. Comumente.

Como eu digo que eu gosto de alguma coisa? Por que me fez feliz? Me engajou? Eu li rápido, eu reli? Olha, eu sei lá. O fato é que eu nem entendi Txow na completude que eu imagino ele possa ser entendido, mas não é a impressão que tenho com a maioria dos livros que eu leio? Ainda assim, o fato de eu ter gostado do livro se coloca sem nenhuma sombra de dúvida.

Txow é um livro de contos. Como definiu Marcelino Freire no posfácio, “um conto não começa e não termina. Está em permanente movimento. É feito para pegar um ônibus. Nem precisa acenar. A mão abre a página (porta), e o inferno está lá (aberto)”. E é um livro organizado em partes, as partes têm um nexo, e tem um sumário bonitinho com diferentes níveis de títulos e eu adoro essas coisas organizadas. A leitura, entretanto, vai acontecendo de maneira fluida, ou seja, nem precisava do sumário, mas acho, no final, que esse tipo de cuidado é o que define a sensação de espontaneidade.

Mas tá que não é só isso, entende? É que também tem toda uma questão de linguagem que me perpassa tipo um fantasma de literatura clássica: eu consigo ver, ela está ali, mas me atravessa sem eu conseguir apreendê-la. Luiz Soares, mestrando em Antropologia Cultural pela Universidade Federal de Alagoas, apresenta a expressão txow como um malandro 2.0. — algo que é totalmente minha interpretação do que ele escreveu, afinal, eu não sei se eu sou velha ou ignorante ou distante demais para ter prévio conhecimento sobre essas gírias. Mas eu sei lá, eu fui lendo os contos e, pra mim, malandro é todo mundo — que levanta da cama e consegue terminar o dia — e não é ninguém — por que, afinal, quem se salva desse destino?

Mas o que é timidez, afinal? Ela vinha andando de cabeça tão erguida, um passo de cada vez. Timidez não é só a gente se reprimindo? Escondendo nossas marcas, sejam falsas ou não, escondendo até o nosso sotaque, dependendo dos brancos que aparecem. Eu sou o primeiro que eles fala quando voltam pro Mônaco depois de um dia de trabalho, tenho que responder no tom que a maioria gosta: calminho, olhando pra baixo fingindo demência ou subserviência, e principalmente usando a linguagem mais simples possível (subserviência, por exemplo, eles não podem nem sonhar que eu uso essa palavra; porteiro não diz isso, nós usamos “sim, senhor” e “pode entrar”). Imagine um porteiro que escreve, que faz deles personagens só pra matar todos eles em pelo menos uma realidade; nem na cabeça do mais criativo. (p.69)

O pixo TXOW aparece na direita; na esquerda está o brasão da Universidade Católica, a PUC, a do RS (sim, o bairrismo é propositadamente enfatizado, afinal, Lucas é alagoano). E é engraçado isso porque eu leio na mídia sobre a literatura da quebrada, a literatura que foge dos grandes centros, e meio que, em geral, é sob a égide do clássico conhecimento científico que ela se ergue. Acho que, para algumas pessoas, o que irrita é que isso não é uma negação, é uma construção conjunta, seria mais fácil se a literatura “de margem” nunca pusesse os pés na universidade, mas, em alguns casos, é justamente ali e embasada pelo conhecimento universitário que ela se desenvolve como técnica (e desenvolve a universidade também).

E aí a gente volta a Marcelino Freire, “Este livro é um raio solar, assombroso. Indo para qual direção? Todo mundo em contramão. […] Volte você à leitura para ver o que eu vi. Fiquei com essa imagem de espelho retrovisor, reflexo em perspectiva. Tipo aquele espelho interno de ônibus que fica perto do motorista”. E nas músicas que tocam na minha cabeça, eu termino com: “Eu olho muito pro céu, é que eu ando de ônibus” (Diego Moraes, Muderno).

Sobre o autor
Lucas Litrento nasceu em 1997, vive na parte alta de Maceió. É escritor, realizador cinematográfico e produtor cultural. Estuda Jornalismo na UFAL e integra os coletivos Mirante Cineclube e Pernoite. Lançou seu primeiro livro, Os meninos iam pretos porque iam, de poesia, em 2019. Em 2020, lançou o zine de poesia ROBYN, de forma independente. TXOW (2020), foi vencedor do primeiro Prêmio Delfos de Literatura e do Prêmio Malê de Literatura, publicado pela ediPUCRS. Realizou o curta-metragem círculos (2020), contemplado no edital Arte como Respiro, do Itaú Cultural. Assina roteiro e direção, com Janderson Felipe, do curta-metragem Samuel foi trabalhar (em produção). Tem textos jornalísticos e literários publicados em revistas eletrônicas e portais culturais. 

*aka = do inglês also known as, também conhecido como

TXOW
Lucas Litrento
140 p.
R$ 39,90
EdiPUCRS

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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