Maiara Alvarez: A pobreza é outro tipo de tragédia

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Incolor e sem cheiro, o mais bem-guardado dos segredos agora também era de seu conhecimento; doce e picante, diluía-se em seu espírito a mais energizante das percepções: para ter o que se quisesse, eis que bastava ser cruel o suficiente (p.221).

Na minha mais romântica ingenuidade, eu ia escrever essa resenha no formato de uma narrativa clássica, repleta de detalhes, do ponto de vista de um narrador onisciente e onipotente, mas também sagaz e com personalidade. Esse era o plano enquanto eu me aprofundava a partir das páginas de três dígitos na história de Pedro e Marques, Os supridores de José Falero. Bom, minha intenção — valem de alguma coisa as intenções? — era a de ser uma homenagem à altura da narrativa de Falero — que o faz, diferente de mim, com maestria —, mas nem sempre a gente cumpre ou consegue cumprir o que sonha nossa vã filosofia.

[…] embora, claro, ainda estivesse longe de conhecer palavras o suficiente para definir de alguma forma a aura radioativa que envolve uma criatura frustrada (p.31).

Extremamente universal e exclusivamente criativo, o que conta o autor ao descrever o romance dos amigos e colegas de trabalho é simples em sua estrutura e merecedor de aprofundada análise em seus detalhes. Simples porque a narrativa parece um filme: fornece informações em sua descrição, geralmente ao início dos capítulos, para que o cenário se construa imageticamente. Complexa, da mesma forma, por me lembrar do que de melhor há no cinema: assim como fazem os irmãos Cohen — eu não assisti a todos os filmes, mas roubo a afirmação de um crítico de cinema —, apresenta cenas necessárias apenas ao entendimento e absorção da história, não se preocupando em terminar causos ou fechar arcos de personagens além do que pede a construção da obra. E também porque

Sempre que a realidade mete o pé na porta, não há sorriso que não trate de escapulir pela janela. Todo felizardo é, antes de mais nada, um iludido (p.161).

E entre os classicismos desta narrativa, temos O Pedro, O Malandro Inveterado. Pedro é o tradicional boa praça, inteligente e esperto a ponto de sobrar e compartilhar. Mas, mais do que tudo, Pedro é um personagem de moral complexa e em constante evolução, que apresenta uma ética que dialoga com o contexto das cenas e cresce conforme o desenrolar do arco narrativo. E, além de tudo isso, Pedro é alguém que eu admiro, o mais humano dos personagens, e um espelho de um passado e de uma sensação atual que me são duramente familiares.

Uma criança de família pobre, pensava, tinha tantos sonhos quanto uma criança de família rica, mas, ao contrário desta, ia sepultando-os um a um ao longo dos anos, conforme ia amadurecendo […]. Não tinha podido dar um sítio para a mãe, como o prometido, nem viajar para a China, como o planejado, e assim muitas outras coisas tinham ficado apenas na vontade. Depois, até mesmo a vontade se fora: vendo que não realizava sonho algum, Pedro abandonara o hábito de sonhar (p.83-84).

Se você ler até o final — algo que eu recomendo fortemente que faça — vai entender.

Iniciava, confiante, a mais quixotesca das tentativas humanas: a de jamais tornar a chorar na vida (p.29).

Não vou entrar aqui em pormenores sobre a atualidade e relevância dos temas e cenários apresentados por Falero. Simplesmente porque apresentar temas relevantes é moralmente neutro (desculpe, eu tenho lido e estudado sobre isso e precisava achar um jeito de usar essa expressão), talvez o mínimo que uma pessoa escritora que almeja ser lida de maneira crítica deva fazer. O diferencial aqui (e o que torna um livro em uma obra clássica) não é o retrato temporal a que se encaixa, e sim em como a pessoa que o escreveu desenha os conflitos para que se tornem relevantes em outros tempos e cenários. E Falero, eu tenho a petulância de comprovar, sabe fazê-lo nas ruas de Porto Alegre e nas vielas de qualquer lugarejo em um mundo mágico e bucólico.

O fato, como disse Pedro, é que um avião não pode cair, a pobreza não pode existir, e temos que fazer todo o possível para que nenhum dos dois aconteça. E eu adiciono uma profecia: no dia que acabar a pobreza, nenhum avião mais cai.

Sobre o autor
José Falero nasceu em 1987, em Porto Alegre. Estreou, em 2019, com Vila Sapo, elogiada reunião de contos. Mantém uma crônica semanal na revista digital Parêntese. 

Os Supridores
José Falero
304 p.
R$ 64,90
Todavia
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Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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