Entrevista com Taiane Santi Martins, vencedora do Prêmio Sesc

Romance da autora nascida em Vacaria conta história de três gerações de mulheres em torno da guerra civil de Moçambique

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Foram revelados na tarde de sexta-feira, 20 de maio, os dois vencedores do Prêmio Sesc de Literatura 2022. O paraense Pedro Augusto Baía, com Corpos benzidos em metal pesado, foi selecionado na categoria conto, e a gaúcha Taiane Santi Martins, com o romance Mikaia. A obra narra a história de três gerações de mulheres que viveram e fugiram da guerra civil moçambicana. Enquanto Mikaia — uma dançarina de ballet que sofre uma amnésia repentina — quer lembrar, sua irmã, Simi, quer esquecer e sua avó, Shaira, decide silenciar. Neste ano, o Prêmio Sesc de Literatura recebeu a inscrição de 1.632 livros, sendo 844 em Conto e 788 em Romance.

Literatura RS conversou com a autora sobre sua trajetória na literatura, o processo de criação de Mikaia e sua expectativa com a publicação do romance pela Record no final do ano. Confira!

Você vem somar ao grupo de autores do Rio Grande do Sul vencedores do Prêmio Sesc, ao lado de Tobias Carvalho, Tônio Caetano e Luísa Geisler — esta, mais de uma vez. Ao que você atribui o sucesso dos escritores de nosso estado nesse prêmio?
Não acredito em cenários ideias, tampouco em fórmulas mágicas; acredito no comprometimento com o texto e é isso que vejo em quem já ganhou o Prêmio Sesc, mas não apenas neles. Premiações são importantes, eu estou felicíssima, muitas vezes são responsáveis por alavancar a carreira de alguém; mas também nunca são absolutas, não é só o livro vencedor que tem qualidade literária; conheço muita gente boa aqui no estado que ainda não ganhou prêmio, ou ganhou outros prêmios, outros reconhecimentos. O que vejo é que temos um cenário cultural que favorece quem quer apostar de forma séria na escrita. A Oficina de Criação do Assis Brasil, por exemplo, é pioneira e se destaca no cenário nacional; mas há várias outras. A PUCRS se tornou um pólo para quem quer se tornar escritor, não apenas através da pós-graduação, e mais recentemente graduação, em Escrita Criativa, também pelo Instituto de Cultura que promove regularmente e de forma gratuita encontros, conversas, workshops com escritores renomados. Destaco a PUCRS porque esta é a minha casa; mas a pós-graduação da UFGRS, onde fiz meu mestrado, também vem investindo na Escrita Criativa como linha de pesquisa. Até onde sei a Feevale também oferece uma especialização. Para sair da região metropolitana, destaco o trabalho da escritora Andréia Pires através da FURG e da Concha, editora que investe e potencializa a literatura da região do Cassino. E não são apenas oficinas e formações, temos o trabalho da Nanni Rios, através da livraria Baleia, sempre investindo forte na literatura. A programação da Feira do Livro, a Feira Além da Feira, o Rastros do Verão, o próprio trabalho de vocês, do Literatura RS. Me dou conta que falei muito da região metropolitana de Porto Alegre e pouco do restante do estado, mas estou falando do que conheço e conheço pouco.

Como foi o processo de escrita de Mikaia e em que momento você percebeu que a história poderia ter potencial para disputar e vencer o Prêmio Sesc?
Muita gente que eu admiro acreditou em Mikaia, às vezes mais do que eu. O romance é parte do que compõe minha tese de doutorado, ou seja, foi escrito num contexto acadêmico e foi defendido perante uma banca excepcional, o que certamente me deu segurança. Mas antes disso acreditei na personagem e na História que existe por trás dessa personagem, com letra maiúscula porque me refiro à História de Moçambique. Costumo dizer que Mikaia me levou para Moçambique, me apresentou as mulheres macua, me fez estudar a guerra civil e ampliou meu mundo.

Fale-nos da sua atuação no campo da literatura, que não é recente e é marcada pelo seu trabalho com a revista literária Travessa em Três Tempos.
Sou formada em Letras, com mestrado e doutorado em Letras, mas também sou historiadora e, por incrível que pareça, foi sempre a História que traçou meu caminho pela literatura. A Travessa em Três Tempos foi idealizada por mim, em 2010, junto a alguns amigos historiadores, éramos todos estudantes e a ideia era usar a ficção para propor reflexões sobre a escrita historiográfica. Publicamos dois números independentes e fomos convidados pela universidade, a FAED/UDESC, para transformar a revista em projeto de extensão, o que aconteceu e segui a frente do projeto até minha formatura em 2013. Depois disso o projeto não teve continuidade, mas a revista seguiu comigo. À medida que fui me desenvolvendo na literatura, ela foi sendo reelaborada sem nunca perder de vista a essência de quando foi fundada. Hoje ela é um espaço de possibilidade e diálogos diversos e acessíveis. Editada por Andrezza Postay, Fred Linardi, María Elena Morán, além de mim, sabemos a importância de veículos que acolham a produção literária de quem está começando. Estamos fechando a edição de número 24 e agora abrimos espaço para textos que reflitam sobre processos criativos, para a edição anterior recebemos mais de 500 submissões e tivemos de dividir em dois números para dar conta dos textos selecionados.

Com a publicação de Mikaia pela Record e a participação nos circuitos culturais do Sesc, seu nome ganhará projeção nacional — e talvez internacional. Preparada para alcançar muito mais leitores?
Não sei se alguém, algum dia, se sente completamente preparado. Acho que apostar numa carreira literária significa entender que é preciso se preparar para qualquer tipo de reação, o elogio, a crítica e a indiferença. E acho que essa preparação começa a partir da escolha em seguir em frente, mas não sei se existe um momento que ela acaba. Me sinto preparada para continuar aprendendo com o caminho, isso sim.

Alguma dica para escritores inseguros quanto à inscrição em edições vindouras do prêmio?
O bom e velho clichê: vai com medo mesmo, quando não se ganha o prêmio, se ganha experiência. Gosto de pensar que o melhor lugar para eu permanecer é o de aprendiz, se inscrever em prêmios é aprendizado, mas fazer oficinas literárias, procurar uma leitura crítica, compartilhar seus textos com outras pessoas, se expor, também são. Acho que uma dica importante é estar aberto para ouvir o que os outros tem a dizer sobre o seu texto, se questionar sobre suas escolhas, usar tudo isso como oportunidade de crescimento e seguir em frente.

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