Simulacros, simulações e patologias sociais modernas: entrevista com Matheus Borges

“O que talvez exista de maior afinidade entre Mil Placebos e essas narrativas da virada do século é a gradual percepção de que há uma crise de futuros”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Niilismo. Conspiração. Ativismo anticapitalista. Esvaziamento de significados. Utilitarismo. Solidão. Estas são algumas das marcas que os leitores de Mil Placebos, de Matheus Borges, percebem durante a leitura de suas 192 páginas. Com uma escrita habilidosa, o autor desenha o perfil dos indivíduos contemporâneos, suas doenças sociais e seus sofrimentos mentais ao apresentar uma realidade pálida que só ganha contornos definidos quando dominada pela paranoia da vida hiperconectada, em que as simulações parecem mais reais do que as coisas reais.

Nesta entrevista exclusiva, o autor fala sobre o longo e cuidadoso processo de escrita do romance, a influência dos eventos econômicos e políticos sobre a sua ficção e as investigações sociais às quais sua escrita se dedica. Boa leitura!

A leitura de Mil Placebos torna evidente que houve um trabalho minucioso e inteligente com a narrativa e todas as suas camadas de significados. Como nasceu a história, como a escrita se desenvolveu? Você sabia desde o princípio qual era a história que você queria contar?
O que eu sabia, no começo, eram os temas que eu gostaria de abordar, determinadas situações ou imagens. O começo, nesse caso, é o final de 2013, logo após as manifestações de junho, que eu acompanhei mais à distância, através das redes, do que nas ruas. Todo dia havia um novo factoide, uma nova teoria, enfim. Queria tratar desse tipo de testemunho e também da maneira como as pessoas se relacionavam não apenas com as redes sociais, mas com esse intenso tráfego de informação que, justamente por ser constante, ininterrupto, não permitia que algo fosse verdadeiro por muito tempo. Ainda assim, não tinha uma ideia formada e fui trabalhando quase de capítulo em capítulo, plantando algumas informações para que o Matheus do futuro pudesse retornar e desenvolver mais tarde. À medida que o livro foi sendo escrito, também essas camadas de significados foram aumentando. Concluí a primeira versão do livro pouco após a eleição do Trump, o que foi marcante. Subitamente todos esses temas que eu julgava subterrâneos chegavam ao debate público. Em algum nível, senti que vinha escrevendo uma fábula em tempo real sobre o que acontecia e estava prestes a acontecer. Um certo desconforto geral com a verdade e a informação em si.

Fale-nos de sua relação com a deep web, uma realidade que o romance penetra com muita propriedade.
Sempre foi algo que esteve na minha zona de interesses, especialmente porque costumo ler creepypastas e relatos apócrifos desde que comecei a usar a internet. E a minha geração, sou de 1992, foi a última que precisou de fato começar a usar a internet. Na prática, a deep web é um canal mais seguro e privativo do que a web superficial, então tem grande serventia para especialistas em tecnologia da informação, jornalistas investigativos, enfim, pessoas que precisam dessa privacidade para trabalhar. Por outro lado, permite o tráfego de conteúdo ilícito. Então a minha relação com a deep web é mais de interesse folclórico, justamente a dimensão que eu queria abordar com Mil Placebos. Eu queria tratar a dimensão mítica, das lendas urbanas, talvez recriar a sensação de navegar pela internet às duas da manhã de um sábado e chegar sabe-se lá como a um website esquisito e ler um relato obscuro escrito por sabe-se lá quem.

À exceção das sequências em Porto Alegre, o livro nunca deixa claro em que cidade a história transcorre, refletindo uma realidade que pode ser transferida para qualquer metrópole do mundo. Como foi trabalhar com um universo geográfico que pode ser qualquer um e ao mesmo tempo nenhum? O que isso diz sobre o nosso mundo?
Algo que me orientou durante a escrita é a ideia de que o narrador gostaria de permanecer anônimo, então ele nunca mencionaria seu nome ou o lugar de onde escreve. É um cara que se define pela própria história e sua história se confunde com outras histórias. Por outro lado, ele nunca menciona onde vive porque isso, na prática, não faz muita diferença. São poucas as interações em que divide o mesmo espaço geográfico com seus interlocutores. Em grande parte da história, seu interesse está nesses eventos que, ao mesmo tempo em que ocorrem em Washington, Vancouver, Tóquio, Moscou, não pertencem exclusiva ou inerentemente a qualquer um desses lugares, mas ao espaço da internet, porque esse deslocamento geográfico é uma parte fundamental da nossa experiência com a internet.

O protagonista/narrador parece ter algumas marcações que o situariam dentro do espectro autista, como hiperfoco, introspecção e dificuldade de comunicação; depressão e suicídio também são temas reincidentes na história. Como o romance trabalha questões como neurodiversidade e saúde mental?
A construção desse narrador parte de uma certa investigação psíquica do capitalismo tardio, de como a depressão e outros transtornos psíquicos podem ser observados como subprodutos da estrutura socioeconômica do mundo. Nesse sentido, pesou muito a leitura de autores como Mark Fisher e Franco Berardi. Quanto ao narrador, a ideia de ele estar situado no espectro autista é uma leitura possível, especialmente quando ele próprio menciona ter sido diagnosticado com personalidade esquizoide. Ainda assim, nunca foi algo planejado, não de maneira consciente. Era importante, para mim, trazer esses traços de personalidade, não o diagnóstico em si.

“Todos eles com emprego estável e segurança financeira, ainda assim reféns de uma infelicidade inexplicável que paira acima de seus dias como uma nuvem sombria, que são forçados a esconder no ambiente de trabalho para não comprometer produtividade e eficiência. Cada um com sua infelicidade particular. Pois, assim como dizem a respeito dos flocos de neve, não há no mundo uma infelicidade igual à outra”
Mil Placebos, p.157

Há muitos momentos em Mil Placebos que podem ser percebidos como uma crítica a aspectos do mundo contemporâneo, como a toxicidade do ambiente corporativo e o imperativo neoliberal. Este é um posicionamento do autor?
Digamos que são os momentos em que autor e narrador se confundem de maneira mais evidente. Não faria sentido para mim colocar certas opiniões minhas dentro da história se eu sentisse que estivessem fugindo ao personagem, afinal estou escrevendo uma obra de ficção. Mas o narrador de Mil Placebos é um narrador peculiar, muito opinativo, cheio de ideias, e algumas dessas ideias encontram consonância no meu pensamento. Não todas, é claro.

A história de Mil Placebos tem elementos paranóicos e conspiratórios, como em Matrix, e cínicos e desiludidos, como em O Clube da Luta. As narrativas hollywoodianas da virada do século tiveram alguma influência na escrita?
Influência, de maneira consciente, não. Até porque eu tento me isolar das histórias que conheço quando sento para escrever, o que é sempre muito difícil, claro. Mas é possível traçar alguns paralelos. No caso de Matrix, que gosto muito, existe essa ideia de uma relação parasítica entre as máquinas e a humanidade, que dentro do filme ocorre de modo superlativo. O que talvez exista de maior afinidade entre Mil Placebos e essas narrativas da virada do século é a gradual percepção de que há uma crise de futuros. A ideia de que chegamos num ponto que imaginávamos ser o futuro e se torna cada vez mais difícil conceber como viveremos daqui a alguns anos, nos moldes que as gerações anteriores deixaram para nós.

Mil Placebos
Matheus Borges
192 p.
R$ 49,90
Editora Uboro Lopes
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