Priscila Ferraz Pasko: Danço, logo penso

“Sabe-se que a escrita e a leitura passam pelo corpo, pela sua disponibilidade, ou não, de dar vida à palavra, pelo desconforto, pela excitação, pelo cansaço, pela cor da pele”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Durante quase 15 anos exercendo o jornalismo, escrevi para muitos veículos e em diferentes formatos, mas eu ainda não havia ocupado uma coluna. O convite do Literatura RS para estar aqui, e que agradeço demais, apresenta uma porta nunca aberta por mim antes, e pela qual entro neste exato momento em que você me lê.

Então, uma vez por mês, estarei aqui, dividindo o espaço com colegas admiráveis para refletir sobre literatura e arte, levando em conta todos os atravessamentos que moldam essas áreas.

Bom, a porta está aberta e não tem chave. Fique à vontade.

De tempos em tempos volto a uma entrevista da escritora e artista interdisciplinar Grada Kilomba, concedida no ano de 2019, durante um grande evento literário aqui no Brasil. Em um dos trechos, a portuguesa conta da sua experiência como professora em universidades pela Europa. Ela observa que os alunos apreendem o conteúdo, os livros são comprados, lidos, as definições memorizadas, ainda assim, os estudantes não sabem o que fazer com tamanha informação, ela fica restrita ao nível cognitivo. Uma das grandes problemáticas, conforme a artista, do conceito fálico, patriarcal e branco do que é o conhecimento.

Grada nos faz lembrar que o enraizamento do dualismo cartesiano mente-corpo na cultura ocidental faz o corpo-sujeito ser visto, em geral, com desprestígio pelo meio intelectual, enquanto o corpo-objeto continua servindo a interesses, sejam eles meramente estéticos ou de mercado. É fácil constatar esta lógica dada a quase — uso aqui certa dose de ponderação e de esperança — ausência de profissionais da dança nos debates que trazem como pauta a cultura, a política, as questões sociais em geral ou a própria literatura; os mesmos eventos nos quais escritores/as, filósofos/as, historiadores/as, psicanalistas etc têm o seu lugar garantido. Não se trata de excluir ou hierarquizar segmentos, mas agregar. No caso da Literatura, há quem se arrisque no número solo e, a muito custo, trabalhe a dança como elemento dos estudos comparativistas.

Não é necessário que a polêmica da hora ronde a literatura para que um/a escritor/a se sinta autorizado/a a colaborar com a sua perspectiva em uma entrevista, coluna ou debate. Por que a dança e o corpo não são convocados também, já que eles contam a história do mundo tanto quanto a palavra — escrita ou falada? Na exploração econômica, nos processos de colonização e escravização; nas manifestações/controle político-religioso; nas discussões de gênero; na busca pela autonomia e liberdade de um povo; no vínculo com a natureza e com o sagrado; nas celebrações; no afeto; na dor; no prazer; na vida; na morte e na arte o corpo está presente, assim como a dança.

O coreógrafo, jornalista, coordenador do Grupo Experimental de Dança de Porto Alegre (Ged) e diretor do Centro Municipal de Dança, Airton Tomazzoni, é um dos críticos deste molde. Diz ele que, talvez, um dos pontos centrais seja a ideia de que não possa haver na dança um corpo reflexivo, complexo e propositivo nas produções. Isso me traz à memória a fala da coreógrafa, bailarina e uma das fundadoras do Instituto Sociocultural Afro-Sul Odomodê, aqui na Capital, Iara Deodoro, um dos maiores nomes da dança afro do Brasil. Em uma entrevista que fiz com a mestra, ela contou que, nos primeiros anos de atividade, na década de 1970, o grupo fora considerado alienado por “apenas dançar”. Na época, Iara contou com o apoio do poeta e professor Oliveira Silveira (1941-2009), o qual afirmou que dançar é tão ou mais importante do que os demais combates, pois a fala nem sempre é escutada, já o movimento sempre é visto.

Sabe-se que a escrita e a leitura passam pelo corpo, pela sua disponibilidade, ou não, de dar vida à palavra, pelo desconforto, pela excitação, pelo cansaço, pela cor da pele. E, fazendo coro à Grada Kilomba, é preciso buscar formas de abstrair o saber nas artes, na coreografia e no movimento. Transpor a leitura teórica para a performance, pois, faz parte do exercício da descolonização colocar corpo nas cabeças. Que cada vez mais os promotores de eventos e curadores ampliem o olhar e enxerguem nos corpos que dançam corpos que pensam.

Priscila Ferraz Pasko (1983 – Porto Alegre) é escritora e jornalista freelancer na área cultural. É autora do livro de contos “Solo rachado por dentro” (Figura de Linguagem, prelo), “Como se mata uma ilha” (Zouk, 2019) – Prêmio Açorianos 2020 na categoria conto. Também integra a coletânea “Novas contistas da literatura brasileira” (Zouk, 2018). Paralelamente, Priscila se dedica à dança contemporânea e a experimentos em videodança. Se interessa ainda por artes visuais, pelo processo criativo/vivência de artistas mulheres e sonhos. Divide o teto com os seus dois gatos, a Pemba e o Arruda.

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Uma resposta para “Priscila Ferraz Pasko: Danço, logo penso

  1. Lamento os “os/as” da ilustre colunista: “um/a”, “escritor/a”, “escritores/as”, “filósofos/as”, “historiadores/as”, etc. Adeptos dessa coqueluche linguageira, conseguem estragar o português. Perdeu este leitor.

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