Maiara Alvarez: Escritos antes de mim

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

O Horácio disse que pretende atender-me para o resto da vida se for necessário e que jamais vai me abandonar. Sinto-me melhor agora. Vou voltar para o diário. Disse que era apenas uma forma para desafogar um pouco alguma possível angústia.
Possível angústia.
Pos-sí-vel?
Como você é gentil, Horácio. (Outubro 26, Emir Rossoni).

23 de maio, 15h05min

Pensei em descrever uma bicicleta. Aí anotei isso e fiquei pensando sobre a palavra d-escrever.

A bicicleta, sabemos, possui duas rodas. Pelo menos as que eu conheço. Se pode adicionar rodinhas para melhor equilíbrio de novatos, mas a bicicleta continua sendo bicicleta apenas com as duas rodas, uma em cada ponta do… deixa eu pesquisar aqui. Uma em cada ponta do quadro. Tem um negócio na bicicleta chamado pedivela que eu ainda não sei o que é. Aqui em Porto Alegre tem umas criaturas que colocam pneu de neve, grosso, pra rodar no asfalto e nas ruas esburacadas. Vai entender. Eu que não entendo nada. De bicicleta, inclusive.

Meu deus, pensei quieta, com curiosidade, deve ser um inferno ter uma cabeça dessas (Dançando Ballet com Zelda Fitzgerald, Débora Ferraz).

23 de maio, 16h59min

Deixa eu anotar aqui o título rapidinho antes que eu esqueça.

23 de maio, 17h45min

Finalmente paro para escrever. O que significa abrir o livro e observar as páginas marcadas com adesivos coloridos e as anotações feitas nos post-its espalhadas. Um exemplo: “falar sobre a questão política da escrita” está anotado junto à página que relembra a história de Assis Brasil, que tinha ” intimidade com as leituras” — em três línguas diferentes além do português — desde que frequentava o Colégio Anchieta. Foi esse mesmo Assis que, anos depois (em 1985), fundou uma das primeiras oficinas de escrita criativa no Brasil. E aí chegamos na obra que tenho nas mãos, Como tudo começou. Jogo as ideias no arquivo digital.

Ao ler o que Fred Linardi escreveu sobre o professor, a palavra que me vem à cabeça é hacker. Assis Brasil hackeou a escrita literária. E é essa iniciativa que eu — de meu posto de pessoa que nunca frequentou sua oficina — imagino que ele compartilhe com seus alunos, junto a seu conhecimento, passando por seus erros e acertos ao que ele seleciona de relevante de suas vivências e livros, dele ou não. Eu acho isso porque, como leitora de alguns de seus alunos, vejo tanta gente interessante quanto escritos que eu honestamente desgosto saírem de lá. Afinal, o que o mestre compartilha não passa de informação. Como hackear essa informação fica à mercê dos ávidos pupilos. Acho que devem ser ávidos mesmo — eu, pelo menos, seria —, já que não é assim tão fácil entrar na oficina. Primeiro, tem a seleção. Depois, você precisa pagar as mensalidades. Eu morreria em algum dos dois passos atualmente.

— Sabes bater à máquina, Brizola? — me chamam assim pelas sobrancelhas, sempre esfiapadas.
— Com um dedo, doutor — fui sincero (O assessor, Guilherme Azambuja Castro).

23 de maio, 18h42min

Apaguei uma palavra do título, acho que ficou melhor assim.

É interessante ver como há uma mudança de estilo de escrita conforme os anos vão passando. Eu gosto mais dos mais recentes, não tenho muito como explicar o motivo.

Eu anotei todos os 38 títulos (dos 35 contos, mais três textos introdutórios) que compõem a obra organizada por Luis Roberto Amabile, Fred Linardi e Gabriela Richinitti. Em algum momento do dia, eu tinha anotado a brilhante ideia de fazer um texto que contivesse os títulos dos contos em si. Eu cheguei a escrever um parágrafo. Não é surpresa que tava ficando uma bosta. Eu o fiz não muito depois de anotar a ideia da bicicleta. Ao lado, escrevi que queria uma resenha que lembrasse uma música em dois atos, como uma canção que eu amo chamada Happier than ever.

Eu pensava sempre numa forma de enredar sua tristeza em meus braços franzinos de moleque. […] E essas lembranças confusas fizeram de Amal essa sombra infeliz a acovardar-me as paixões (Arabesco, Robertson Frizero).

23 de maio, 19h47min

Escrever, no final e em si, não significa nada.

E eu me distraí, mas eu tenho um ponto adicional importante (pelo menos pra mim) a fazer. Além do interessante de saber mais sobre a Oficina de Criação Literária, analisar os diferentes estilos e me divertir com algumas leituras, pude descobrir novos autores dos quais quero, agora, ler alguma de suas obras completas — Amilcar Bettega, Guilherme Azambuja Castro, Irka Barrios e Luisa Geisler (estas últimas eu já conhecia, mas não tinha lido ainda) — e reafirmar velhas paixões que devem, em breve, ocupar mais espaços na minha pequena estante — Ana Santos e Emir Rossoni. E, talvez, quem sabe, as próximas páginas abertas serão, finalmente, de uma Manhã Transfigurada.

Sobre a obra
Como tudo começou: a história e 35 histórias dos 35 anos da Oficina de Criação Literária da PUCRS (ediPUCRS, 2020) conta a história da Oficina de Criação Literária da PUCRS, ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil, a mais longeva em funcionamento no país. Reúne contos publicados, em sua maioria, em antologias da própria oficina, com uma seleção de nomes célebres — e contemporâneas, como não poderiam deixar de ser — que passaram pelas cadeiras de aprendizes da escrita criativa e hoje reúnem reconhecimento e premiações literárias.

Como tudo começou: a história e 35 histórias dos 35 anos da Oficina de Criação Literária da PUCRS
Fred Linardi, Gabriela Richinitti e Luis Roberto Amabile (orgs.)
188 p.
R$ 39,90
ediPUCRS
Comprar aqui (link externo)

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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