A cidade imaginada: entrevista com Ketlen Stueber

“Cada romance traz uma abordagem ou ângulo diferente sobre Porto Alegre. O mais fascinante é que são representações intensas e partilhadas por grande parte das pessoas que vivem na cidade

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Uma cidade dura, mergulhada em tensões econômicas e sociais e que fagocita a sua própria história. Traços que desenham o perfil de muitas capitais brasileiras revelam-se inescapáveis também em Porto Alegre. Outrora a cidade que apontava para novos futuros possíveis, a capital do Rio Grande do Sul, com seus contrastes, desejos e violências, pode — e deve — ser lida também através da literatura. É este exercício que Ketlen Stueber propõe com o livro Imaginários urbanos e representações sociais: Porto Alegre na literatura contemporânea, obra de 118 páginas que analisa diferentes aspectos da cidade pela perspectiva de três romances: Quarenta Dias, de Maria Valéria Rezende; Imóveis Paredes, de Miguel da Costa Franco, e Meia-noite e vinte, de Daniel Galera.

Nesta entrevista exclusiva, Ketlen fala sobre o que aproxima as representações de Porto Alegre nas três narrativas estudadas, o que a literatura pode falar sobre o espaço urbano brasileiro contemporâneo e muito mais. Boa leitura!

Reprodução

De que forma os romances Quarenta Dias, Imóveis Paredes e Meia-noite e vinte representam a Porto Alegre atual?
De várias formas, elenco algumas, meu trabalho antes de tudo é um convite de leitura destas obras. Cada romance traz uma abordagem ou ângulo diferente sobre Porto Alegre. O mais fascinante é que são representações intensas e partilhadas por grande parte das pessoas que vivem na cidade. Por exemplo, descer a Miguel Tostes antes e depois de ler Imóveis Paredes irá causar ao leitor uma série de sensações e sentimentos evocados pelo personagem principal da obra. É como se estivesse vivendo dentro do romance, porque ele fica dentro da gente. Ao andar por Porto Alegre e ver o processo de substituição da arquitetura antiga por prédios altos a sensação é de que a Miguel Tostes se estendeu e se espalhou pela cidade. Viver a Porto Alegre do Daniel Galera significa partilhar do caos, da violência, do calor intenso nas tardes de verão e ao mesmo tempo fluir livre pelos parques, principalmente a Redenção. É viver a vida noturna e percorrer as calçadas do Bomfim, Cidade Baixa, Centro e arredores. Ler Meia-Noite e Vinte evoca um misto de sentimentos, desejos, medos e esperanças que permanecem vivos na mescla do caos atual com traços sutis de saudosismo por um passado recente da cidade (1990-2000) enquanto lugar acessível, arejado e colorido. Quarenta Dias, da Maria Valéria Rezende, coloca o leitor dentro de uma cidade desconhecida, mesmo para quem nasceu ou vive aqui há anos. Traz as impressões de quem chega na cidade e vai além. É a narrativa de uma metrópole de “lugar nenhum”, gigante, cinza e populosa, como todas as metrópoles do mundo… Ao mesmo tempo nos deparamos com uma cidade única e peculiar com hábitos e sotaques que só existem aqui. Imagens como a do gaúcho de bombacha, botas e lenço amarrado no pescoço são desconstruídas aos poucos. Maria Valéria altera as formas de sentir a cidade, seus espaços e sujeitos. Quarenta Dias desperta no leitor uma espécie de metamorfose interna.

O que esses três romances falam sobre os habitantes da capital gaúcha?
Retratam diferentes tipos e grupos sociais: trabalhadores, jovens e adultos de classe média, moradores de rua, indigentes e pessoas que “desaparecem” na multidão junto de tantas outras. A vida e o cotidiano da classe média são fielmente delineados nas três obras. As personagens têm características e hábitos distintos, todos fiéis à realidade. As mesmas sensações de partilha presente nos espaços de vivência da cidade também ressoam entre os personagens. É como se os habitantes das narrativas circulassem entre nós e não fizessem parte da ficção, mas sim, da realidade. Então, ao caminhar pela cidade nos deparamos com pessoas que possuem características similares aos personagens e desperta a sensação de conhecer aquela pessoa de algum lugar.

A sua pesquisa foi realizada antes do lançamento de reconhecidos ou premiados livros que se passam em Porto Alegre, como Vila Sapo, de Jose Falero, e O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório. O que esta literatura mais recente poderia dizer sobre a cidade?
Muita coisa! A possibilidade de expandir o olhar e conhecer a cidade dentro e além dela mesma. Tem muitas “Porto-Alegres” desconhecidas e/ou negligenciadas em Porto Alegre que necessitam ser narradas, (re)conhecidas, respeitadas. A literatura urbana é de uma riqueza incrível, evoca sensibilidade e empatia através dos lugares ali representados. Estes romances estão na minha lista de desejos de leitura, dentre outros do Falero, do Jeferson Tenório e demais autores e autoras que ambientam suas narrativas na cidade. A Porto Alegre para além dos cartões postais.

O que os livros selecionados em sua pesquisa têm a dizer sobre a gestão política de Porto Alegre?
A pesquisa foi feita em 2016, ali estão registrados alguns eventos políticos como as Jornadas de Junho de 2013; greves de ônibus, campanhas eleitorais. A Porto Alegre dos Fóruns Sociais Mundiais, orçamentos participativos e das multidões nas ruas em busca de bem estar social e outros valores humanísticos, é rememorada. Fica a esperança do retorno destes ideais de sociedade em momentos futuros .

“(…) o espaço urbano pode estar integrado por metáforas visíveis — traçadas a partir de imagens, fotografias, pinturas, esculturas, monumentos, entre outros —, e por metáforas invisíveis, implícitas, que para aceder às representações seria preciso dominar seus códigos e símbolos. Perceber a cidade a partir da literatura é uma forma de acessá-la em um caminho de metáforas invisíveis.”
Imaginários urbanos e representações sociais, p. 31

Qual imaginário de futuro podemos construir a partir da Porto Alegre literária do século XXI?
Devo ter respondido um pouquinho na questão anterior. Principalmente ao que se remete à esperança por dias melhores. O futuro desenhado com base nos imaginários urbanos de Porto Alegre na contemporaneidade remete a desafios. Estes, são evocados por meio das questões e críticas sociais acerca da exploração imobiliária ou pelo respeito e empatia necessário para gerar assistência e políticas públicas nas comunidades de baixa renda e principalmente para a população de moradores de rua da cidade. Pode-se dizer também que a pesquisa realizada não tem fim diante das possibilidades de análise presentes no estudo, sobre Porto Alegre ou qualquer outra cidade. Destaca-se que tudo depende da riqueza de obras literárias que estão sendo lançadas constantemente que podem ingressar neste estudo ou em pesquisas futuras realizadas por mim e outros estudantes e pesquisadores interessados pela convergência dos temas: representações sociais, imaginários urbanos e literatura.

Imaginários urbanos e representações sociais: Porto Alegre na literatura contemporânea
Ketlen Stueber
118 p.
R$ 42
Editora Bestiário
Compre aqui (link externo)

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Literatura RS

2 respostas para ‘A cidade imaginada: entrevista com Ketlen Stueber

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s