Ana Paula Cecato: Declaração Universal do Direito Humano ao Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas – um breve relato de experiência

“Antes de partir para a discussão historiográfica da literatura brasileira, comecei uma despretensiosa discussão sobre o Direito Humano à Literatura e o conceito de Literatura, trazendo o ensaio ‘Uma foto e um texto’, da escritora mineira Dalva Maria Soares”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Fiquei alguns meses afastada deste espaço por um motivo muito simples: a vida de professora no retorno presencial consumindo o tempo. Só quem viveu sabe. Agradeço aos editores do site a generosidade em entender que precisava desse período para justamente voltar a falar dela, a sala de aula.

Retornei em março tomada pela ansiedade de voltar com todo o pique, mas sabendo que seria diferente. Os/As estudantes estavam há dois anos sem realizarem atividades coletivas, por isso optei pela pedagogia de projetos, em que pudessem trabalhar em grupos na sala de aula, construindo os conhecimentos de forma dialogada, contínua e progressiva. Antes de partir para a discussão historiográfica da literatura brasileira, comecei uma despretensiosa discussão sobre o Direito Humano à Literatura e o conceito de Literatura, trazendo o ensaio Uma foto e um texto, da escritora mineira Dalva Maria Soares, em que retoma as ideias de Antonio Candido entremeadas com a experiência de fabulação vivida por seu irmão Zezé, e um vídeo de Candido falando sobre o tema. A ideia inicial era parar por ali, mas foi numa lavada de louça que eu tive uma ideia e a persegui.

Já tinha ouvido falar sobre as simulações de conferências da ONU, pesquisei em algumas fontes, fiz um curso sobre na plataforma do Moodle do IFRS e procurei adaptá-las ao objetivo final: construir com as turmas uma declaração universal do direito humano ao livro, leitura, literatura e bibliotecas. No desenvolvimento do projeto, os grupos criaram um país imaginado (optei por não usar países reais para explorar a fabulação, afinal, falávamos de literatura). Pensaram questões econômicas, culturais, geográficas, a organização social dos países e apresentaram-nas no primeiro dia da conferência. Finalizado o primeiro módulo, fizemos a leitura da Declaração Universal dos Direitos Humanos, estudamos a origem e a estrutura do documento, e partimos para a discussão do preâmbulo e dos artigos:  inicialmente, entre os países, e, posteriormente, na negociação entre as delegações (dois ou três países reuniram-se nesta etapa). Reunidas as produções, organizamos o que seria a Declaração da turma e realizamos a primeira conferência, com a leitura e a discussão do que seria mantido, acrescentado, ou retirado do documento. O terceiro módulo constituiu na reescrita do preâmbulo e dos artigos, fazendo uma revisão atenta do que estava sendo dito e como estava. Nesta etapa, também aconteceram discussões – me arrisco dizer as mais acaloradas, pois foi a hora de votar as propostas finais.

Os resultados das produções — que constituíram as Declarações de cada turma — podem ser visualizadas aqui. Cada turma trouxe recortes e debates bastante diversos, revelando que as juventudes têm múltiplas trajetórias e experiência de vida, pois muitas das discussões foram balizadas por elas. Por exemplo, na turma do curso de Agropecuária, políticas de acesso ao livro pela população rural foi uma das preocupações. Alguns debates surgiram em todas as turmas, como a questão das tecnologias e dos livros digitais, e a desigualdade de acesso aos livros. No final do trabalho, quando o avaliamos, duas constatações foram trazidas: a de que estudamos a literatura no sentido de como ela está em nossas vidas (na prática, como disseram) e a de que estudamos língua portuguesa no processo de escrita e reescrita dos textos. Para mim, fica a certeza de que é preciso levar a discussão das políticas de leitura e de escrita para a sala de aula, como estímulo à formação do pensamento crítico e da cidadania dos e das jovens e da consciência de que ler, escrever e imaginar é um direito que lhes pertence.

Ana Paula Cecato é graduada e mestra em Letras e professora de Letras – Português/Inglês do IFRS – Campus Rolante. Fez parte da equipe da Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, trabalhando na curadoria da programação, nos programas de incentivo à leitura e na formação de mediadores de leitura. Coordena o projeto de extensão Contantes. Foi jurada do Prêmio Jabuti em 2019 na categoria Fomento à Leitura. Foto: Acervo pessoal.

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