Em ‘Praças perdidas’, Iuri Müller olha para o mundo ao seu redor como um flâneur sul-americano e contemporâneo em dez narrativas breves
Edição: Vitor Diel
Foto: Matheus Fischer/Divulgação
Ricardo Piglia disse uma vez que existem apenas dois tipos de livros: os de viagem e os de histórias policiais. A frase, provocativa e precisa, resume algo que os escritores da Argentina e do Uruguai sabem explorar como poucos: a cidade como espaço do enigma, o deslocamento como forma de narrar, o mistério que resiste à solução. De Saer a Onetti, de Borges a Silvina Ocampo, essa tradição construiu um modo de narrar espaços como territórios onde algo sempre escapa à compreensão. Não por acaso, essa mesma inquietação aparece na literatura gaúcha, que compartilha fronteiras, paisagens e temperaturas com o Rio da Prata.
O conto, como forma breve, é o gênero que melhor acomoda essa tensão. Sua economia obriga o escritor a escolher o que omitir tanto quanto o que mostrar, e é nesse espaço entre o dito e o silenciado que o mistério se instala. Nas últimas décadas, a ficção contemporânea de língua portuguesa tem revisitado o gênero com renovado interesse, explorando suas possibilidades narrativas além da estrutura clássica do clímax e da resolução.
É nesse contexto que chega Praças perdidas, o novo livro de contos do escritor gaúcho Iuri Müller e o segundo título do catálogo da editora Trote. A publicação reúne dez narrativas que percorrem cidades, fronteiras e silêncios com a precisão de quem caminha sem pressa e observa tudo. Livros e autores também são peças dessas histórias, superando o papel comum de inspiração e participando diretamente das tramas.
Em Sonhar com cavalos, uma estudante universitária obcecada com Ninguém nada nunca, de Saer, descobre que o único exemplar da biblioteca foi retirado por outro leitor e parte numa busca que vai se tornando cada vez mais labiríntica. Em Noturno da Avenida, dois amigos percorrem à noite a avenida de uma cidade do interior enquanto um deles narra um livro sobre um crime ocorrido naquelas mesmas ruas em 1927. A literatura, aqui, é parte do tecido das histórias.
O grande personagem de Praças perdidas, no entanto, é a cidade. Porto Alegre, Rosario, São Paulo e Foz do Iguaçu aparecem como organismos autônomos, feitos de ruas vazias, bares noturnos, subestações ferroviárias abandonadas e pátios em penumbra. Três contos funcionam como caminhadas puras — A barranca estrangeira, À sombra, no umbral e A cidade ausente —, em que o narrador percorre esses espaços como quem tateia um terreno conhecido e instável ao mesmo tempo. Como escreveu o poeta Marco de Menezes, que assina a orelha da obra, “este é um livro que é uma caminhada, seu autor é um grande caminhador, e a cidade gosta de ser caminhada”.
Praças perdidas será lançado oficialmente no sábado, 16 de maio, a partir das 17h, na Livraria Taverna (Casa de Cultura Mario Quintana, R. dos Andradas, 736 — Porto Alegre/RS) em bate-papo com Luís Augusto Farinatti e Michele Savaris sobre as formas breves na ficção contemporânea. Na sequência, será realizada sessão de autógrafos com o autor.
Sobre o autor
Iuri Müller (Santa Maria, 1991) é escritor, jornalista e doutor em Letras – Teoria da Literatura pela PUCRS. Publicou em 2016 o volume de contos Luz em nevoeiro, pela Editora Modelo de Nuvem. Praças perdidas é seu segundo livro.

Praças perdidas
Iuri Müller
88 p.
R$ 59,90
Editora Trote
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