Vidas rasgadas

Pedro Moacyr lança romance sobre a alma de uma cidade imaginária

Edição: Vitor Diel
Foto: Luiz Carlos Vaz/Divulgação

“A vida bate”. Isso foi dito pelo poeta, escritor, crítico de Arte e Literatura e pintor Ferreira Gullar. Essa síntese reforça o que ele constatou quando afirmou que “a Arte existe porque a vida não basta”. É preciso registrar algo, deixar um legado, dar um sentido, conceder-lhe empatia, uma explicação ou simplesmente a documentação de algo para que os outros se reconheçam e se identifiquem no presente e no futuro. Isso está na Guernica, de Pablo Picasso, no olhar da Moça do brinco de pérola, de Vermeer, na carcaça aberta de um boi num matadouro, pintada por Chaim Soutine, na ironia rebelde de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Assim se compreende melhor as relações entre as pessoas, os costumes, as regras e as comunidades. Para que se acolha a epifania, a beleza e a feiúra da Vida.

Isso está presente neste assombroso e revelador romance de Pedro Moacyr. Obra densa e muito bem escrita, toca no tema da alma das cidades. X é qualquer cidade, de qualquer local, de qualquer País, com seus hábitos convencionais, com seus comportamentos gregários, com seus preconceitos e seus confrontos.

O escritor, com um viés sutil de humor e sua letra aguda, apresenta as contradições dos hábitos e das expectativas em conflito aberto com as vicissitudes das desigualdades sociais e os regramentos de um mundo idealizado. O romance Vidas Rasgadas é um imenso e profundo passeio reflexivo sobre a condição humana e merece uma atenção especial, um tempo dedicado como o concedido aos romances de José Saramago e de Albert Camus.

No próximo sábado, 12 de setembro, Pedro Moacyr lança Vidas rasgadas pela Ardotempo Edições, comandada pelo editor, escritor e artista plástico Alfredo Aquino. O evento ocorrerá das 17h30 às 19h30 na Livraria Santos – Casa Prado (Praça Maurício Cardoso, 71 – loja 06, Moinhos de Vento, Porto Alegre/RS). O livro traz na capa a pintura de Geri Garcia.

No texto de apresentação, Luiz Carlos Vaz observa que “Todas as cidades imaginárias existem e são reais. Habitamos nessas cidades imaginárias. Pedro Moacyr navega pelos mares da sua enorme biblioteca com a bússola de um exímio leitor desde os tempos de sua meninice em Bagé, da sua vida acadêmica em Pelotas, ou pelas ruas de ‘X’; e ele leu e continua lendo muito, o que é indispensável para quem escreve. Mas na cidade de ‘X’ o Pedro exagerou – no bom sentido, na criação das suas personagens do antes, do durante e do depois de todos os fatos narrados e criados por ele.

Quanto haverá de ficção, de realidade, de memória e de imaginação nessas páginas? Aprendemos esse conceito com nosso mestre comum, o escritor jaguarense Aldyr Garcia Schlee, de que o escritor é um grande mentiroso, mas que ganha nas rodas literárias o adjetivo bonito de ficcionista! Ah, é um mentiroso! Mas… quantos de nós, os amigos do Pedro, seremos também personagens de ‘X’?”

Sobre o autor
Pedro Moacyr é natural de Bagé, na Campanha Sul-rio-grandense, localidade que lhe é imaginária atualmente. Reside em Pelotas há quarenta e seis anos, e está convencido de que essa é também uma cidade fictícia. Tem poucas crenças e quase nenhuma convicção, razão pela qual se vê acompanhado de um antigo desespero. É fragilmente esperançoso, mas possui um inexplicável otimismo. Não conhece o ódio, vale-se do amor. Desejou ser muitas coisas, e por quatro décadas foi o que não desejou. Mas segue, embora se surpreenda com sua pertinácia teimosa. É emotivo, mas não o tentem com o agreste da vida – poderá secar os olhos para sempre! Um dia morrerá, mas não recorda haver noutro dia nascido.

Vidas Rasgadas
Pedro Moacyr
288 p.
R$ 80
Ardotempo Edições

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