Atena Beauvoir: Vingança impressa

Meu sonho nunca foi ser escritora. Meu sonho era ser professora. E me aproximando da vida acadêmica, adentrando a licenciatura, mais tarde sendo contratada para lecionar, estava muito mais apaixonada por tal sonho. Porém, dentro de mim, ainda havia grilhão apertado. Em 2015, declarei minha libertação existencial, iniciando meu processo de transição de gênero. Male to female, como é conhecido o processo, trilhei a caminhada de ir ao encontro do que eu sempre, em 25 anos de vida, aspirava: ser eu mesma. Em meu primeiro livro de poesias, “Libertê: Poesia, Filosofia e Transantropologia”, escrevi: “Era eu consciência/Presa em mim e liberta no mundo/Para declarar revolução/De ser presa no mundo/E liberta em mim”.

Paguei um preço altíssimo, sendo convidada a me retirar da instituição espírita em que trabalhei durante 10 anos ininterruptos. Perdi o contrato por falta de vagas nas escolas da região – justificaram, afastaram-se as amizades, minha família já não reconhecia quem eu era, e obviamente, minha vida social fundiu-se com o vazio de um caos interno profundo. Mas eu já estava preparada, pois havia pesado os prós e contras em relação a abandonar meu antigo nome, que significaria abandonar centenas de relações humanas que se baseavam na história daquele nome. Mas tal me era prisão, e atualmente já com documentos retificados e legalizados, retorno o olhar à memória de pensar, quantas vezes eu fui violentada por pessoas que se diziam no direito de afirmar que meu nome verdadeiro era o de nascença. Era perturbador ser violada tantas vezes, de forma explícita, sobre meu corpo, minhas formas, estruturas, as minhas verdades.

Eram tantas dores, que a existência tornou-se pesarosa. A terapia hormonal já realizava seus efeitos e meu corpo começava a existir como um novo corpo na simbologia social: era um corpo feminino. Mas não bastava o corpo mudar, o saber compartilhado pela sociedade e produzido por ela na maquinaria histórica da cultura do tempo e espaço, a episteme humana vigente sempre acabava por afirmar que eu não era uma mulher verdadeira, uma mulher natural, uma mulher com útero, uma mulher-mulher. Rancor profundo se apoderou do meu ser. Um mal estar de pensar que minha vida seria uma tortura intensa em todos os instantes. E assim foi.

Um desejo se apoderou de mim, ainda mais intenso do que ser professora. Eu desejava, agora, ser escritora. Sendo professora, eu educava, fazia surgir novas possibilidades de saber, fomentava o melhor de todos, exigia vida humana para a sociedade. Agora escritora, eu me vingava, fazia duvidar das possibilidades do conhecimento humano, fomentava o pior de todos, exigia da vida humana a verdade cruel que é: um imenso teatro de existências. E me vingando através da escrita, busco demonstrar como todos os seres chamados naturais (seres humanos cisgêneros) são tão mascarados em suas identidades humanas quanto os seres humanos que chamam de farsas, nós, pessoas transgêneras.

A filosofia tornou-se forte aliada e todos os grandes nomes da história da filosofia estariam dispostos ao meu redor. Seriam fontes de água para desaguar nas densas e profundas marés de uma humanidade iludida. O termo Transantropologia, cunhado por mim em 2017 no prefácio “Introdução a Transantropologia” de meu primeiro livro “Contos Transantropológicos”, consta: “O primeiro princípio da Transantropologia é assumir que não existe modelo humano. Não há verdade de uma unidade humana. Não há destino para a espécie humana, senão aquela que ela mesma constrói para si, querendo chamar de natural, comum ou normal”. Encerro ali, crítica de cunho fenomenológico, existencialista e absurdista sobre questões que se escrevem, mas ainda não se vivem. Assuntos que se debatem, mas ainda não existem no existir dos que dialogam da cátedra de uma experiência acadêmica ou profissional, meramente teóricas. É que para muitos que escrevem: tornam-se entidades de um ideal fantástico como os idealistas românticos alemães. Mas não arriscam a própria liberdade em si, a que tange sua própria existência. Deverão perder os dedos para aprenderem a liberdade existencial de que tanto escrevem?! Continuo a admirar suas pretensões como novos Adônis da escrita. Morrem-se fustigados pela própria obra, sem jamais perceberem em si, sua obra.

Ser escritora, aspirando ir além do conceito atual de humanidade, transantropologia é o fruto dessa escrita. E a vingança em mim, se tornou substantivo de vida. De fazer que das dores, pudesse a escrita produzir mais dores. O parto é dor. A cura de uma ferida é dor. A espera do tempo é dor. E nasce uma editora, das dores. Distribuindo aos que lerem, a dor que cada um necessita para libertar-se em si, deixando de ser presa num mundo de tantas dores. Nemesis é a deusa grega da vingança e da balança divina. Distribuía aos mortais, e às vezes aos imortais, o que cada qual merecia. E é o nome da editora que em fevereiro de 2019, nasceu como ponto alto do meu trabalho existencial: imprimir minha vingança.



Atena Beauvoir Roveda é natural de Porto Alegre escritora e poetisa, professora e filósofa. Em 2016, recebeu Menção Honrosa pela atuação em defesa e promoção da dignidade humana de LGBTs na cidade de Canoas/RS. É colaboradora da Rede Trans Brasil e Red Latinoamericana y del Caribe de Personas Trans. Idealizadora da Nemesis Editora para publicação de literatura invisível e transantropológica na área de filosofia existencialista.
Foto: Diego Lopes/CRL

Literatura RS

Uma resposta para “Atena Beauvoir: Vingança impressa

  1. Adorei te ler minha querida. Mesmo de longe acompanhei parte da tua caminhada. Uma pena não termos tido oportunidade de estreitar nosso contato e assim nos conhecer melhor, pois certamente eu te daria a mão amiga que precisaste no passado, na tua transição.

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