Guto Leite: Cantor é aquele que canta

As formas estéticas são extensões relativamente autônomas da experiência humana. Por conta dessa formulação, em síntese, a abordagem dialética costuma ser criticada por quem acredita que isso diminua a importância do sujeito na elaboração do objeto estético, enquanto na verdade coloca esse sujeito em maus lençóis. Defendo aqui que a expressão artística se torna possível na estreita senda entre a não experiência e o absoluto da técnica – embora seja possível pensar na arte cujo princípio estrutural sejam as técnicas de reprodução, bem como as mudanças na forma de compreensão da arte que isso acarreta, como sugere Walter Benjamin num texto clássico.

Trocando em miúdos, um cantor é aquele que canta, um escritor é aquele que escreve, um músico é aquele que toca, e assim por diante. Você pode se sentir enganado por essas tautologias, mas me explico. Se alguém passa o dia cantando, sem que se reduza à técnica de cantar, mesmo que não cante em público, essa pessoa é um cantor ou cantora. Por outro lado, mesmo que cante em público, se alguém passa os dias fazendo outras coisas que não sejam cantar, essa pessoa dificilmente será um cantor ou uma cantora. Parece tolo, simples, tosco, mas o jogo é difícil, pois estou falando daquilo que somos, das práticas em que alocamos nossos desejos, das coisas que calhamos de fazer ao longo da vida e da sociedade que nos cerca.

Um exemplo: em outubro de 2017, a convite do professor Walter Garcia, estive num colóquio no IEB da USP, chamado “Repensando o popular”. Cada mesa era mais ou menos formada por um pesquisador, um teórico e um artista popular – na mesa em que participei estavam o pesquisador Alberto Ikeda, da Unesp, e Baby Amorim, do Bloco Afro Ilú Obá de Min. O teórico era eu, portanto. E saí do colóquio com uma sensação boa, mas angustiante, de que havia muita gente que dedicava sua vida à música e que a música na minha vida parecia ser uma espécie de capricho. Em escala muito outra: Moraes Moreira quase desistindo de tocar quando ouviu João Gilberto.

Outro exemplo: em março, hospedei em casa a Čao Laru, uma banda com integrantes de múltiplas nacionalidades – na formação atual, duas francesas, uma italiana, quatro brasileiros e um gaúcho – que viaja em sua kombi por diversos países, tocando, nove, dez meses, por ano (quando estão na Europa, a viagem é feita em um Motorhome, comprado pelo bandleader Noubar Sarkissian). O show do grupo, mesmo pra quem não conhece sua história, soa como uma extensão de suas vidas juntos, entre instrumentos, na estrada, conhecendo novos lugares e gentes todos os dias. Há uma espessura de vida naquilo que fazem e isso desarma qualquer leitura formalista, desautorizando noções como erro, acerto, belo, feio, bom, ruim. Existem, sim, pontos de tensão no espetáculo, arranjos que parecem menos interessantes, solos que podem ser vistos como ruins ou excessivos, mas difícil dizer se são derivados de suas escolhas estéticas ou se são derivados do que são, de quem somos, e isso traz um valor enorme para quem assiste ao show. Isto é, até que ponto não estão ali, estetizadas, relativamente autônomas porque transformadas em formas estéticas, as vidas das pessoas, as pessoas, e quem sou eu para dizer se é bom ou se é ruim? (Com o perdão da chatice, não estou dizendo que tudo mundo que fale de si esteja fazendo arte.)

Indo mais adiante, posso dizer que discordo da mensagem geral expressa nas canções do grupo: de que as pessoas podem resistir, conjuntamente, marginalmente, nas frestas do mundo capitalista. Eu acho que o capitalismo seguirá se expandindo até nos espremer em casa e consumir o mundo, literalmente. Mas a mensagem deles tem tanta verdade, ou melhor, eles o dizem de maneira tão verdadeira, que se torna muito mais interessante do que uma visão mais distanciada, objetivada, coisificada de mundo – os debates sobre emancipação e catarse eu deixo pruma próxima…

Não gostaria que esse texto fosse uma reflexão abstrata sobre arte e vida, mas que perguntasse ao leitor: afinal, o que você tem feito da vida? Como tem usado seu tempo? Onde tem alocado seu desejo? Você tem por profissão aquilo que você é? Quem você é? Sua arte tem evitado o absoluto da técnica? Ou tem o absoluto da técnica como pressuposto? Algo por aí.


Guto Leite é cancionista, escritor e professor. Formado em Linguística pela Unicamp, especialista, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS, onde leciona. Vencedor de dois prêmios Açorianos, um de literatura, outro de música. Organizador eventual de encontros sobre canção, literatura e cinema. Já ministrou mais de cento e vinte palestras em escolas públicas e feiras de livro.
Foto: Léo Andrades

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