Guto Leite: O juiz ou Pra que serve um escritor no Brasil?

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

O primeiro texto que trago ao leitor é de 1838, uma comédia, a peça de estreia de Martins Pena, talvez o mais interessante dramaturgo brasileiro do XIX.

JUIZ: […] Sr. Escrivão, leia outro requerimento.

ESCRIVÃO, lendo: “O abaixo-assinado vem dar os parabéns a V. Sa. por ter entrado com saúde um novo ano financeiro. Eu, Ilmo. Sr. Juiz de Paz, sou senhor de um sítio que está na beira do rio, aonde dá muito boas bananas e laranjas, e como vem de encaixe, peço a V. Sa. o favor de aceitar um cestinho das mesmas que eu manderei hoje à tarde. Mas, como ia dizendo, o dito sítio foi comprado com o dinheiro que minha mulher ganhou nas costuras e outras coisas mais; e, vai senão quando, um meu vizinho, homem da raça do Judas, diz que metade do sítio é dele. E então, que lhe parece, Sr. Juiz, não é desaforo? Mas, como ia dizendo, peço a V. Sa. para vir assistir à marcação do sítio. Manuel André. Espera receber mercê.

JUIZ: Não posso deferir por estar muito atravancado com um roçado; portanto, requeira ao suplente, que é o meu compadre Pantaleão.

MANUEL ANDRÉ: Mas, Sr. Juiz, ele também está ocupado com uma plantação.

JUIZ: Você replica? Olha que o mando para a cadeia.

MANUEL ANDRÉ: Vossa Senhoria não pode prender-me à toa: a Constituição não manda.

JUIZ: A Constituição!… Está bem!… Eu, o Juiz de Paz, hei por bem derrogar a Constituição! Sr. Escrivão, tome termo que a Constituição está derrogada, e mande-me prender este homem. […]

O segundo texto que trago ao leitor é de 2016, outra comédia, uma das peças de estreia de um comediógrafo paranaense, cuja carreira seria interrompida de maneira trágica, um pouco adiante.

PROCURADOR DA REPÚBLICA: Dona Marilza, nessa visita a dona Marisa Letícia estava sendo tratada pelo grupo OAS como uma pessoa que poderia vir a adquirir o imóvel ou como uma pessoa que já havia adquirido, que já era proprietária do imóvel, o imóvel já estava destinado para ela?

ADVOGADO JUAREZ CIRINO DOS SANTOS: Fica o protesto aqui de novo, Excelência.

JUIZ SERGIO MORO (fala junto com o advogado de defesa): O senhor está sendo inconveniente, doutor.

ADVOGADO JUAREZ CIRINO DOS SANTOS: Se está pedindo a opinião da testemunha. A defesa não é inconveniente na medida em que estamos no exercício da ampla defesa.

JUIZ SERGIO MORO (fala junto com o advogado de defesa): Já foi indeferida a sua questão.

ADVOGADO JUAREZ CIRINO DOS SANTOS: Eu sei, mas…

JUIZ SERGIO MORO (gritando): Já foi indeferida a sua questão!

ADVOGADO JUAREZ CIRINO DOS SANTOS: Vocês não podem cassar a palavra da defesa!

JUIZ SERGIO MORO: Posso, doutor!

ADVOGADO JUAREZ CIRINO DOS SANTOS: Não pode! Porque nós estamos colocando uma questão muito importante, relevante. O ilustre procurador da República está pedindo a opinião da testemunha e ele não pode…

JUIZ SERGIO MORO: Doutor, o senhor está sendo inconveninente. Já foi indeferida a sua questão. [Gritando] Já está registrada e o senhor respeite o juízo!

ADVOGADO JUAREZ CIRINO DOS SANTOS: Mas escuta… eu não respeito vossa excelência enquanto vossa excelência não me respeita, como defensor do acusado.

JUIZ SERGIO MORO: Essa questão já foi indeferida.

ADVOGADO JUAREZ CIRINO DOS SANTOS: Vossa Excelência tem que me respeitar como defensor do acusado. Aí então Vossa Excelência dê o respeito que é devido a Vossa Excelência!

JUIZ SERGIO MORO: Essa questão já foi indeferida.

ADVOGADO JUAREZ CIRINO DOS SANTOS: Mas se Vossa Excelência atua aqui como um acusador principal, Vossa Excelência perde todo o respeito.

JUIZ SERGIO MORO: Sua questão já foi indeferida. O senhor não tem a palavra.

[breve silêncio]

JUIZ SERGIO MORO (repetindo a pergunta do Procurador da República): Então a senhora pode responder a essa questão? Afinal ela era tratada como uma adquirente potencial ou uma pessoa para a qual o imóvel já havia sido destinado?

Diante desse arco histórico de nações e de peças, eu lhes pergunto, com franqueza: hoje, pra que serve um escritor no Brasil?


Guto Leite é cancionista, escritor e professor. Formado em Linguística pela Unicamp, especialista, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS, onde leciona. Vencedor de dois prêmios Açorianos, um de literatura, outro de música. Organizador eventual de encontros sobre canção, literatura e cinema. Já ministrou mais de cento e vinte palestras em escolas públicas e feiras de livro.
Foto: Léo Andrades

Literatura RS

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